[Foto: Arquivo / Roque de Sá / Agência Senado]
- Pauta estratégica: O presidente brasileiro cumpre agenda em Washington para debater combate ao crime organizado, comércio bilateral e a exploração de minerais críticos.
- Defesa econômica: A comitiva afasta o discurso de “superávit” brasileiro, comprovando que o país tem déficit com os EUA, e atua para blindar o sistema Pix contra pressões externas.
- Clima diplomático: O encontro ocorre após o adiamento provocado pela guerra no Irã e tenta superar o impasse da recente prisão e soltura do ex-deputado Alexandre Ramagem pelo serviço de imigração americano.
Com direito a tapete vermelho e aperto de mão de Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já está na Casa Branca para a reunião bilateral desta quinta-feira (07/05). A visita oficial a Washington, estruturada como uma viagem rápida de “bate-volta”, é o resultado de semanas de negociações entre as diplomacias dos dois países. Ainda hoje, os líderes realizam uma coletiva de imprensa conjunta.
Encontro com o presidente dos Estados Unidos, @POTUS, em Washington.
— Lula (@LulaOficial) May 7, 2026
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Antes de embarcar, o chefe do Executivo confirmou a agenda em suas redes sociais e repassou o comando do país ao vice, desejando boa sorte a Geraldo Alckmin, que assumiu a presidência até seu retorno.
Embarcando para reunião de trabalho com o presidente Donald Trump nesta quinta, na Casa Branca, em Washington. Desejo um bom trabalho ao companheiro @geraldoalckmin, que assume a presidência até nosso retorno! 🇧🇷
— Lula (@LulaOficial) May 6, 2026
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A comitiva que acompanha Lula é formada por ministros da linha de frente do governo: Mauro Vieira (Relações Exteriores), Wellington César (Justiça e Segurança Pública), Dario Durigan (Fazenda), Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e Alexandre Silveira (Minas e Energia). O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também integra o grupo, evidenciando o peso da pauta de segurança pública no encontro.
Inteligência artificial contra o tráfico de armas
A delegação brasileira aterrissou nos Estados Unidos com trunfos recentes para apresentar. No último mês, um acordo de cooperação mútua foi firmado entre a Receita Federal e a agência de fronteiras norte-americana (CBP) focado na interceptação rápida de armamentos e drogas sintéticas.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, revelou que as equipes dos dois países estão atuando “junto com a inteligência artificial fazendo relatórios” para mapear cargas suspeitas. O fluxo de informações já inclui o repasse da “informação de raio-x de contêineres que saem dos Estados Unidos e vêm para o Brasil”. O cuidado, segundo o ministro, se justifica “porque a nossa relação comercial é boa e é isso que nós queremos garantir”.
A parceria tem gerado dados robustos. O cruzamento de inteligência permitiu que fossem “apreendidas no Brasil mais de meia tonelada de armas e equipamentos bélicos vindo dos Estados Unidos” entre maio de 2025 e abril de 2026. Além das armas, o Brasil tem reportado a identificação de drogas sintéticas para que a inteligência norte-americana consiga “fazer o rastreamento de onde vem isso”.
O futuro do Pix e os ruídos tarifários
A agenda econômica também demandará pulso firme por parte do Planalto. O governo quer proteger a tecnologia nacional e, segundo Durigan, a meta é “afastar algum lobby indevido que exista em relação ao Pix”, explicando o funcionamento do sistema aos norte-americanos, que já operam com “ferramentas parecidas”.
Possíveis ameaças de retaliações tarifárias por motivações políticas também estão no radar. O governo brasileiro adotará uma postura de reciprocidade e rebaterá a tese de que leva vantagem na balança comercial. Durigan explicou que, ao se somarem os gastos com serviços digitais e financeiros, a realidade é inversa: “o Brasil é que tem déficit com os Estados Unidos”.
“Se os Estados Unidos começam a impor tarifa porque tem um grande déficit com a China, nós somos os deficitários na relação com os Estados Unidos”, argumentou o ministro. A postura da comitiva é que a delegação “proteja a nossa população, coloque o Brasil na frente” e não permita que “elementos estranhos, que inclusive joguem contra o país, fiquem criando problema para a população brasileira”.
O diálogo geopolítico com Trump ainda abrange o mercado de terras raras e minerais críticos. Com a regulamentação tramitando no Congresso brasileiro, a mensagem enviada a Washington é a de que o Brasil está aberto a investimentos, desde que os recursos garantam “a industrialização no Brasil, gerando emprego de qualidade”.
Aproveitando os holofotes internacionais, Durigan frisou que “a conta pública tem melhorado ano a ano”, com foco no “superávit a partir de 2026 e 2027”, e atribuiu a alta dos juros aos conflitos no exterior, como as guerras que têm “desajustado a economia do mundo, fazendo com que preços aumentem”. O objetivo do governo é manter o Brasil em uma “trajetória de corte de juros”.
Guerra no Irã e o “Caso Ramagem”
A reunião de hoje materializa tratativas que começaram no ano passado. Lula e Trump conversaram por telefone e se encontraram pessoalmente em outubro de 2025, durante a Cúpula da ASEAN, na Malásia. O convite para a Casa Branca foi selado em um novo telefonema em dezembro, com previsão inicial para o mês de março. No entanto, a eclosão da guerra no Irã, no final de fevereiro, forçou o adiamento das agendas.
O encontro em Washington também serve para apaziguar tensões recentes envolvendo a Polícia Federal e o ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA). O ex-deputado federal Alexandre Ramagem, condenado a 16 anos de prisão por tramas golpistas e solicitante de asilo político, foi detido recentemente em Orlando, na Flórida. Apesar de a PF brasileira ter creditado a ação à cooperação entre os países, Ramagem foi solto apenas dois dias depois.
O episódio gerou uma crise de reciprocidade diplomática. O delegado da PF Marcelo Ivo Carvalho foi forçado a deixar os Estados Unidos. Em resposta imediata, o Brasil ordenou a saída do agente americano Michael William Myers do território nacional. Apesar da troca de retaliações, a diplomacia brasileira classifica o caso como resolvido e foca na cooperação econômica e fronteiriça da reunião desta quinta-feira.