[Foto: Roque de Sá / Agência Senado]
- Reunião de líderes: O presidente Lula viajou a Washington nesta quarta-feira (06/05) para uma reunião com Donald Trump na Casa Branca, retornando logo após o encontro.
- Foco em segurança e comércio: A pauta inclui o combate ao crime transnacional com uso de IA nas aduanas, discussão sobre o Pix, desmatamento e minerais críticos.
- Posição econômica firme: O governo brasileiro defenderá a normalização das relações, alertando sobre reciprocidade comercial e destacando a melhoria no equilíbrio fiscal interno.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reúne nesta quinta-feira (07/05), com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A reunião de trabalho acontece na Casa Branca, em Washington, cidade onde o presidente brasileiro desembarcou na última quarta-feira (06). Negociado pelas equipes dos dois governos ao longo dos últimos dias, o encontro tem como pilares centrais o comércio bilateral, o combate ao crime organizado e a troca de informações estratégicas.
Antes de deixar o país, Lula usou as redes sociais para confirmar a agenda, desejando também um bom trabalho ao vice-presidente, Geraldo Alckmin, que assume a presidência durante sua ausência. A viagem é em formato de “bate-volta”, com retorno imediato do presidente após as conversas oficiais.
Embarcando para reunião de trabalho com o presidente Donald Trump nesta quinta, na Casa Branca, em Washington. Desejo um bom trabalho ao companheiro @geraldoalckmin, que assume a presidência até nosso retorno! 🇧🇷
— Lula (@LulaOficial) May 6, 2026
📸 @ricardostuckert pic.twitter.com/qRbfsCc5xU
Para reforçar as negociações, o presidente conta com uma comitiva ministerial estratégica: Mauro Vieira (Relações Exteriores), Wellington César (Justiça e Segurança Pública), Dario Durigan (Fazenda), Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e Alexandre Silveira (Minas e Energia). O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também integra o grupo.
Combate ao crime e inteligência de fronteira
O Brasil chega à reunião com resultados práticos na bagagem. No último mês, a Receita Federal e a agência de fronteiras dos EUA (CBP) selaram um acordo para combater o tráfico internacional. O objetivo é interceptar remessas de armas e entorpecentes de forma ágil.
Durante o programa Bom Dia, Ministro, da EBC, o titular da Fazenda, Dario Durigan, destacou que a parceria já envolve o repasse mútuo de dados, incluindo a “informação de raio-x de contêineres que saem dos Estados Unidos e vêm para o Brasil”. O ministro ressaltou que esse cuidado é fundamental “porque a nossa relação comercial é boa e é isso que nós queremos garantir”.
O combate ganhou tração com o cruzamento de dados. Durigan revelou que o país está “junto com a inteligência artificial fazendo relatórios” para mapear riscos em contêineres. Os resultados são alarmantes: graças à parceria, foram “apreendidas no Brasil mais de meia tonelada de armas e equipamentos bélicos vindo dos Estados Unidos” entre maio do ano passado e abril de 2026. Além disso, o fluxo de drogas sintéticas tem sido identificado e reportado de volta aos EUA para que as autoridades consigam “fazer o rastreamento de onde vem isso”.
Defesa do Pix e proteção comercial
A pauta de Brasília em Washington vai além da segurança pública. Em termos econômicos, a comitiva está preparada para afastar ruídos. O funcionamento do sistema de pagamentos Pix, por exemplo, deve ser abordado. Durigan adiantou que o governo quer “afastar algum lobby indevido que exista em relação ao Pix”, lembrando que as autoridades americanas entendem o modelo por terem “ferramentas parecidas”.
O ministro pontuou que “o debate tem que ser institucional, respeitoso e construtivo”. Esse mesmo tom será adotado caso surja a pauta de eventuais retaliações tarifárias por razões políticas. O Brasil informará que aplicará medidas de reciprocidade se necessário e buscará desmistificar falsas assimetrias comerciais.
Segundo Durigan, ao contrário do que se propagou inicialmente sobre um suposto superávit brasileiro com os americanos, o cenário real mostra que “o Brasil é que tem déficit com os Estados Unidos” quando se contabilizam os gastos com serviços digitais e financeiros. “Se os Estados Unidos começam a impor tarifa porque tem um grande déficit com a China, nós somos os deficitários na relação com os Estados Unidos”, esclareceu. O foco, segundo ele, é que a delegação “proteja a nossa população, coloque o Brasil na frente”.
A gestão de Lula espera avançar na consolidação de uma agenda bilateral sem interferências externas, para evitar que “elementos estranhos, que inclusive joguem contra o país, fiquem criando problema para a população brasileira”.
Minerais estratégicos e responsabilidade fiscal
A regulamentação de terras raras e minerais críticos, em debate no Congresso Nacional, também fará parte do diálogo geopolítico com Trump. O Brasil se posicionará como um terreno aberto ao investimento estrangeiro, mas com a exigência de que os recursos garantam “a industrialização no Brasil, gerando emprego de qualidade”.
Aproveitando para falar sobre o cenário econômico atual, o ministro da Fazenda desvinculou o patamar de juros de uma suposta desorganização interna de gastos. Ele argumentou que “a conta pública tem melhorado ano a ano” e que o governo trabalha com a meta do “superávit a partir de 2026 e 2027”.
Para o Planalto, as altas nas taxas refletem impactos internacionais. Como a guerra “tem desajustado a economia do mundo, fazendo com que preços aumentem”, o Brasil tem agido para blindar seu mercado e ajudar a política monetária, visando garantir que o país se mantenha em uma “trajetória de corte de juros”.
Diálogos prévios e o impacto da guerra no Irã
O encontro na Casa Branca coroa uma série de diálogos recentes entre os líderes. Em outubro do ano passado, Lula e Trump já haviam conversado por telefone e se encontrado pessoalmente à margem da 47ª Cúpula da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático), realizada em Kuala Lumpur, na Malásia. As tratativas avançaram em dezembro, em um novo telefonema focado justamente no combate ao crime organizado, ocasião em que ficou combinada a ida de Lula aos Estados Unidos.
A princípio, o presidente brasileiro estimava que a visita oficial ocorreria no mês de março. Contudo, integrantes do governo explicaram que a eclosão da guerra no Irã, no final de fevereiro, impôs dificuldades para a conciliação das agendas presidenciais, forçando o adiamento do encontro para maio.
Tensão minimizada e reciprocidade diplomática
O encontro de Lula e Trump ocorre após a prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem pelo ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos), em Orlando, na Flórida.
Condenado a 16 anos de prisão pelo envolvimento em uma trama golpista e com um pedido de asilo político em andamento, Ramagem foi detido em uma ação que a Polícia Federal brasileira creditou à parceria de segurança entre os dois países. No entanto, o ex-deputado acabou solto apenas dois dias depois.
O episódio gerou desdobramentos diplomáticos diretos. Como consequência, o delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo Carvalho, que atuava nos Estados Unidos, foi obrigado a deixar o país norte-americano. Adotando a sua política de reciprocidade, o Brasil respondeu com a mesma medida e determinou a saída do agente americano Michael William Myers, que atuava junto à PF em território brasileiro. Apesar do impasse, a diplomacia do governo Lula trata o caso como uma questão resolvida, focando na pauta econômica e de cooperação da atual viagem.