[Foto: Divulgação / PF]
- Resgate do patrimônio: Dois tocheiros de natureza sacra, pertencentes ao acervo histórico, artístico e cultural da Igreja de Santa Luzia, foram restituídos pela Polícia Federal à entidade de origem.
- Uso inusitado: Os itens históricos foram localizados em uma propriedade rural na cidade de Vassouras (RJ), onde haviam sido aparentemente adaptados para funcionar como abajures.
- Trabalho integrado: A devolução ocorreu após a PF receber uma notícia-crime e realizar perícias técnicas, com apoio de uma visita presencial do IPHAN para comprovar a autenticidade das peças.
A Polícia Federal (PF) restituiu, nesta quarta-feira (27/05), dois tocheiros de natureza sacra à Igreja da Irmandade da Virgem e Mártir Santa Luzia, localizada no Centro do Rio de Janeiro. As peças possuem valor simbólico e integram o acervo histórico, artístico e cultural do templo religioso, que é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
A recuperação dos bens culturais teve início após a Polícia Federal receber uma notícia-crime indicando o paradeiro das peças. Segundo as informações, os tocheiros sacros estavam em uma fazenda no município de Vassouras, no interior do estado do Rio de Janeiro. No local, os itens históricos haviam sido aparentemente adaptados para funcionarem como abajures na propriedade.
Após a troca inicial de informações, o IPHAN/RJ foi acionado e realizou uma visita técnica à fazenda. Os especialistas do instituto concluíram que os itens encontrados eram, de fato, parte integrante do conjunto original que ornamentava o retábulo do consistório da Igreja de Santa Luzia.
Resumo da Operação: Passo a Passo do Resgate
Como aconteceu
A Polícia Federal iniciou as investigações a partir do recebimento de uma notícia-crime, que denunciava a localização de bens históricos pertencentes à Igreja de Santa Luzia.
Onde estavam
As peças foram localizadas em uma propriedade rural (fazenda) situada no município de Vassouras, no interior do estado do Rio de Janeiro.
Como estavam as peças
Os dois tocheiros sacros haviam sido descaracterizados e estavam, aparentemente, sendo adaptados para funcionarem como abajures de decoração.
Como a PF recuperou
Após a denúncia, o IPHAN realizou uma visita técnica confirmando a origem das peças. Em seguida, a PF fez diligências e perícias técnicas, oficializou a apreensão e restituiu os itens à igreja.
No decorrer do inquérito policial, a PF realizou diversas diligências investigativas e submeteu os bens apreendidos a uma perícia técnica minuciosa. Os exames confirmaram em definitivo a natureza sacra e a pertinência dos tocheiros ao acervo da igreja carioca.
Com a conclusão das análises, a Polícia Federal oficializou a apreensão e efetivou a devolução das peças históricas à entidade religiosa ainda nesta quarta-feira.
Perguntas Frequentes: Restituição à Igreja de Santa Luzia
Conheça a história da Igreja de Santa Luzia, lar das peças recuperadas
Localizada no coração do Centro do Rio de Janeiro, na esquina da Avenida Antônio Carlos com a rua que leva o nome da padroeira, a Igreja da Irmandade da Virgem e Mártir Santa Luzia é um marco histórico e arquitetônico da cidade. Isolada de outros prédios, como se estivesse em uma praça, a edificação em estilo barroco colonial tardio apresenta uma estrutura singela. Seu frontispício, acessado por quatro longos degraus, relembra o passado glorioso de veneração à Virgem Mártir de Siracusa, conhecida como a padroeira da visão.
A origem do templo remonta aos primórdios do descobrimento, em 1519. Naquele ano, a frota de Fernão de Magalhães sofreu um desvio de rota enquanto velejava para as Índias e aportou na Baía de Guanabara justamente no dia de Santa Luzia, 13 de dezembro. Após permanecerem no local por 13 dias, os tripulantes improvisaram uma pequena capela, onde um marinheiro, agradecido pela travessia, deixou uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes. Décadas depois, o governador-geral Mem de Sá convocou seu sobrinho, Estácio de Sá, para ajudar na defesa contra franceses e tamoios. Devoto de Santa Luzia, Estácio trouxe consigo uma imagem da Virgem, que foi abrigada na pequena ermida do arraial primitivo.
A estrutura de pedra e o alicerce da capelinha começaram a ser erguidos em 1559. Com o passar do tempo, e devido à ruína da construção original, benfeitores doaram um novo terreno próximo dali em meados do século XVIII. As grandes obras da nova igreja foram iniciadas em 12 de janeiro de 1752, ganhando uma torre campanário, três altares e uma porta.
A importância do templo era tanta que, meio século depois, atraiu a atenção da Família Real portuguesa. O Príncipe Regente D. João visitou a igreja para pagar uma promessa pela cura do problema de visão de seu neto, D. Sebastião. Ao ser proclamado Rei, mandou abrir um novo caminho de acesso ao local e ordenou a criação de uma tribuna especial na capela-mor destinada exclusivamente à realeza.
Entre os anos de 1872 e 1884, o templo foi ampliado para o belo aspecto que mantém até hoje, ganhando duas torres, três portas e um novo altar em madeira talhada e dourada, o mesmo conjunto histórico de onde faziam parte os tocheiros agora recuperados pela Polícia Federal. Atualmente ligada à Paróquia de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, a igreja tem capacidade para 80 fiéis sentados e desponta como uma das mais importantes igrejas históricas da capital fluminense.
Localização do Templo
Igreja da Irmandade da Virgem e Mártir Santa Luzia (Rio de Janeiro – RJ)
Ações contínuas: PF também recuperou relíquias da Igreja da Lapa dos Mercadores neste mês
A recuperação dos tocheiros de Santa Luzia não foi um caso isolado. Ainda neste mês, no dia 13 de maio, a Polícia Federal realizou a devolução de outras duas peças sacras de inestimável valor histórico e cultural, desta vez para a Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, também localizada no Centro do Rio de Janeiro. Trata-se de um atril litúrgico do século XIX e de um raro porta-paz, ambos confeccionados em prata de lei e avaliados em R$ 85 mil. A cerimônia de restituição ocorreu na Superintendência da PF, na Praça Mauá.
O rastro das relíquias até São Paulo
A operação de resgate teve início a partir de uma denúncia do IPHAN/RJ. A equipe técnica do órgão identificou, graças ao monitoramento contínuo, que bens com o brasão da Irmandade da Lapa dos Mercadores estavam sendo oferecidos em catálogos de leilões distintos no estado de São Paulo.
Após o alerta, a Polícia Federal iniciou diligências. O porta-paz chegou a ser arrematado, mas foi apresentado de forma voluntária à polícia pelo comprador. Já o atril foi retirado do leilão pelo próprio leiloeiro. As apurações revelaram que os objetos ingressaram no mercado de antiguidades após integrarem espólios familiares formados há décadas, sem documentação formal. Como não havia indícios suficientes para responsabilização penal de terceiros, a operação focou no interesse público de devolver os bens ao seu local de referência religiosa.
Celebração e identidade cultural
Para a Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, o desfecho teve grande significado emocional. O provedor Cláudio André Castro celebrou o retorno dos itens desaparecidos há décadas. Em nota, a instituição declarou que o momento marca “Patrimônio, fé e memória preservados”, ressaltando que “a devolução representa mais do que a recuperação de objetos: é a restituição de parte da história e da identidade cultural do Rio de Janeiro.”
Para Rafael Azevedo, museólogo e técnico do Iphan, o combate ao tráfico ilícito de bens culturais no Brasil ainda esbarra na falta de inventários atualizados. “Ações de catalogação, documentação fotográfica e cooperação entre instituições públicas, forças de segurança, pesquisadores e responsáveis pelos acervos têm sido fundamentais”, pontuou Azevedo, destacando que, desde o ano passado, cerca de 20 bens culturais já foram restituídos no Rio de Janeiro.
| 🔎 Resumo do Caso: Resgate do Patrimônio Sacro | |
|---|---|
| O que foi recuperado? | Um atril litúrgico do século XIX e um raro porta-paz em prata de lei, avaliados em R$ 85 mil. |
| Onde estavam as peças? | Foram encontradas sendo oferecidas em catálogos de leilões no estado de São Paulo. |
| Quem descobriu? | Técnicos do IPHAN/RJ identificaram as obras nos leilões e acionaram a Polícia Federal. |
| Houve prisões? | Não. A PF concluiu que as peças vieram de espólios familiares antigos sem documentação, não havendo indícios para responsabilização penal de terceiros. |
| Desfecho | A Polícia Federal devolveu as peças à Igreja de N. Sra. da Lapa dos Mercadores, no Centro do Rio, garantindo a preservação da identidade cultural e memória da cidade. |
A participação da sociedade
O engajamento popular é considerado peça-chave para novas recuperações. A superintendente do Iphan/RJ, Patricia Corrêa, reforça a importância desse vínculo: “Quando a sociedade reconhece o valor desses acervos, amplia-se a rede de proteção e cuidado com a nossa história”.
Qualquer cidadão pode auxiliar nas investigações consultando o Banco de Bens Culturais Procurados (BCP), uma plataforma do Iphan com informações sobre itens desaparecidos. Como parte das estratégias de educação, o órgão também prepara o lançamento da primeira edição da Revista do BCP, prevista para o final deste ano, abordando políticas de preservação e combate ao tráfico de obras.
*Com informações de PF