[Foto: Divulgação / PF]
- Resgate histórico: Polícia Federal restitui à Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores um atril do século XIX e um raro porta-paz em prata.
- Alerta do IPHAN: Relíquias desaparecidas há décadas foram identificadas em catálogos de leilões no estado de São Paulo.
- Memória viva: Instituição celebra o retorno dos bens avaliados em R$ 85 mil, destacando que a ação protege a identidade cultural do Rio de Janeiro.
Nesta quarta-feira (13/05), a Polícia Federal realizou a devolução de duas peças sacras de valor histórico e cultural à Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, localizada no Centro do Rio de Janeiro. Trata-se de um atril litúrgico do século XIX e de um raro porta-paz, ambos confeccionados em prata de lei e avaliados em R$ 85 mil. A cerimônia de restituição ocorreu na Superintendência da PF, na Praça Mauá.
A operação de resgate teve início a partir de uma denúncia do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Rio de Janeiro (IPHAN/RJ). O órgão federal comunicou à polícia que bens de natureza sacra, supostamente pertencentes ao acervo da igreja, que é tombada em âmbito federal, estavam sendo oferecidos em catálogos de leilões distintos no estado de São Paulo.
O rastro das relíquias
Após o alerta, a Polícia Federal informou que foram iniciadas uma série de oitivas e diligências nas casas de leilão envolvidas. O raro porta-paz em prata chegou a ser arrematado no certame, mas foi apresentado de forma voluntária à polícia pelo comprador, momento em que a apreensão foi formalizada. Já o atril foi retirado do leilão pelo próprio leiloeiro e mantido sob custódia para a realização de exames técnicos e laudos de reconhecimento exigidos pelo IPHAN.
As apurações revelaram que os objetos sacros ingressaram no mercado de antiguidades após integrarem espólios familiares formados há décadas, circulando sem qualquer documentação formal de aquisição.
A PF concluiu que não havia indícios suficientes para responsabilização penal de terceiros. Contudo, os exames confirmaram a autenticidade dos itens, e o interesse público na preservação do patrimônio garantiu que os bens retornassem ao seu local de referência religiosa.
Celebração e identidade cultural
Para a Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, o desfecho do caso teve grande significado emocional. O provedor Cláudio André Castro, que recebeu as peças oficialmente, celebrou o retorno dos itens após décadas de desaparecimento.
Em nota, a instituição declarou que o momento marca “Patrimônio, fé e memória preservados”. O comunicado reforçou a importância do resgate: “A devolução representa mais do que a recuperação de objetos: é a restituição de parte da história e da identidade cultural do Rio de Janeiro”. A igreja concluiu o posicionamento exaltando o trabalho das autoridades, afirmando que “Ações como essa protegem nossa memória para as futuras gerações.”
| 🔎 Resumo do Caso: Resgate do Patrimônio Sacro | |
|---|---|
| O que foi recuperado? | Um atril litúrgico do século XIX e um raro porta-paz em prata de lei, avaliados em R$ 85 mil. |
| Onde estavam as peças? | Foram encontradas sendo oferecidas em catálogos de leilões no estado de São Paulo. |
| Quem descobriu? | Técnicos do IPHAN/RJ identificaram as obras nos leilões e acionaram a Polícia Federal. |
| Houve prisões? | Não. A PF concluiu que as peças vieram de espólios familiares antigos sem documentação, não havendo indícios para responsabilização penal de terceiros. |
| Desfecho | A Polícia Federal devolveu as peças à Igreja de N. Sra. da Lapa dos Mercadores, no Centro do Rio, garantindo a preservação da identidade cultural e memória da cidade. |
O detalhe decisivo e o trabalho do Iphan
A identificação das peças históricas só foi possível graças ao monitoramento contínuo do mercado de leilões realizado pela equipe técnica do Iphan. O detalhe crucial que comprovou a origem do atril e do porta-paz, e garantiu a recuperação, foi a presença do brasão da Irmandade da Lapa dos Mercadores cravado nos itens. Após a descoberta, o processo de restituição exigiu cerca de um ano de articulações entre as superintendências do Instituto no Rio de Janeiro e em São Paulo, além do apoio da própria Irmandade, para a condução de todos os trâmites jurídicos e administrativos.
Para Rafael Azevedo, museólogo e técnico do Iphan, o combate ao tráfico ilícito de bens culturais no Brasil ainda esbarra no desafio da falta de inventários atualizados. “Ações de catalogação, documentação fotográfica e cooperação entre instituições públicas, forças de segurança, pesquisadores e responsáveis pelos acervos têm sido fundamentais para ampliar a recuperação de peças históricas”, pontuou Azevedo. Ele destacou ainda o sucesso recente dessas operações: “Desde o ano passado, cerca de 20 bens culturais já foram restituídos no estado do Rio de Janeiro em ações coordenadas pelo Iphan”.
A participação da sociedade e a plataforma de buscas
O engajamento popular é considerado uma peça-chave para o sucesso de novas recuperações. O Iphan disponibiliza o Banco de Bens Culturais Procurados (BCP), uma plataforma onde qualquer cidadão pode consultar informações sobre itens desaparecidos e encaminhar denúncias que auxiliem nas investigações.
A superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, Patricia Corrêa, reforça a importância desse engajamento: “A preservação do patrimônio também depende do fortalecimento do vínculo das pessoas com seus bens culturais. Quando a sociedade reconhece o valor desses acervos, amplia-se a rede de proteção e cuidado com a nossa história”.
Como parte das estratégias de educação e salvaguarda, o Iphan também prepara o lançamento da primeira edição da Revista do Banco de Bens Culturais Procurados, prevista para o final deste ano. A publicação abordará temas como o combate ao tráfico de obras e políticas de preservação, reforçando a mensagem de que a proteção do patrimônio cultural brasileiro é uma responsabilidade compartilhada entre as instituições, os pesquisadores e a sociedade civil.