[Foto: Ilustrativa / Google AI]
- Queda recorde: O Brasil registrou 20,1 assassinatos por 100 mil habitantes em 2024, redução de 7,4% em relação a 2023, alcançando o menor nível da série histórica do Atlas da Violência.
- Dados mascarados: Apesar dos bons números oficiais, os “homicídios ocultos”, mortes violentas sem causa definida que escondem assassinatos, cresceram 88,6% em um ano.
- Desigualdade regional: O abismo na segurança é evidente: as 20 grandes cidades mais seguras estão no Sul e Sudeste, enquanto 17 das 20 mais violentas ficam no Nordeste.
A taxa de homicídios no Brasil atingiu, em 2024, o seu menor patamar desde o início da série histórica do Atlas da Violência, iniciada há uma década. Mais do que isso: trata-se do menor índice registrado no país desde 1998. Os dados, divulgados nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), revelam um cenário de avanços oficiais, mas que acaba ofuscado por um apagão na qualidade dos dados de segurança e saúde.
No ano passado, o país contabilizou 42.590 homicídios, o que representa uma queda absoluta de 6,9%. Em termos proporcionais, foram 20,1 assassinatos para cada 100 mil habitantes, uma redução de 7,4% se comparado a 2023. A análise de longo prazo (2014 a 2024) também é favorável, apontando uma diminuição de 33,4% na taxa nacional.
No entanto, o Atlas da Violência 2026, produzido com base nos sistemas do Ministério da Saúde (SIM e Sinan), faz um alerta grave sobre o aumento das subnotificações, o que ajuda a explicar por que a percepção de insegurança da população continua em alta.
Destaques do Atlas da Violência
Principais indicadores de homicídios e segurança pública no Brasil
Total absoluto de assassinatos registrados no país, representando uma queda de 6,9%.
A menor taxa oficial registrada no Brasil desde 1998 (redução de 7,4% contra 2023).
Redução acumulada na taxa nacional de homicídios ao longo da última década analisada.
O salto dos “Homicídios Ocultos”
O grande obstáculo para a comemoração da queda histórica é a explosão das chamadas Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI). Trata-se de casos em que o Estado não consegue definir se a morte ocorreu por acidente, suicídio ou assassinato.
Em 2024, 17.207 pessoas morreram de forma violenta sem que a causa básica fosse identificada. Para contornar essa falha estatística e de investigação, os pesquisadores do Ipea desenvolveram uma metodologia que aponta, de forma probabilística, quais dessas mortes escondem assassinatos não notificados.
O resultado é alarmante: do total de mortes indeterminadas no ano, 7.083 foram classificadas como “homicídios ocultos”. O número representa um salto de 88,6% em relação a 2023, quando foram registrados 3.755 casos.
“O modelo acha, probabilisticamente, padrões de letalidade (homicídio ou não homicídio), olhando as características das vítimas e das situações em que aconteceram os fatos”, explica Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e coordenador do Atlas. A falta de integração de dados entre a polícia e a área da saúde é apontada como uma das raízes do problema.
Segundo Cerqueira, o Brasil vive uma forte transição, onde a redução oficial de crimes letais coexiste com o crescimento de desigualdades que afetam minorias. A piora na qualidade da notificação pegou os especialistas de surpresa:
“Esperávamos que houvesse menos ou, pelo menos, o mesmo número de mortes violentas por causa indeterminada. Isso não ocorreu. Pelo contrário, o número aumentou muito em 2024 e fez sombra a essa queda histórica”.
Com esse apagão de informações, os homicídios ocultos passaram a representar 14,3% de todos os homicídios estimados no Brasil em 2024. No acumulado dos últimos 10 anos, mais de 55 mil assassinatos ficaram de fora das estatísticas oficiais do país.
Raio-X: O Fenômeno dos “Homicídios Ocultos”
Como o apagão de dados mascarou milhares de assassinatos no Brasil em 2024
Total de mortes violentas (MVCI) registradas sem que o Estado identificasse a causa básica.
Mortes sem causa definida que, segundo o Ipea, escondem assassinatos não notificados.
Salto expressivo nos homicídios ocultos em relação a 2023 (quando houve 3.755 casos).
Fatia que os assassinatos não notificados representam sobre todos os homicídios do país no ano.
O abismo da desigualdade regional
A melhoria nos indicadores oficiais de 2024 ocorreu em quase todo o território nacional, com exceção de Maranhão e Ceará, que tiveram altas de 7,6% e 5,2%, respectivamente, e de São Paulo, que manteve estabilidade. As reduções mais intensas na taxa ocorreram no Amapá (-30,0%), Tocantins (-26,7%) e Sergipe (-24,8%).
Porém, o cenário muda drasticamente quando se analisa o mapa da violência no Brasil. Fatores como desenvolvimento econômico, presença do crime organizado e capacidade institucional dividem o país.
Extremos da Segurança no Brasil
Taxa de homicídios por 100 mil habitantes em 2024
Os 5 mais seguros
Menores taxas- 1. São Paulo 6,6
- 2. Santa Catarina 8,1
- 3. Distrito Federal 10,3
- 4. Minas Gerais 12,8
- 5. Rio Grande do Sul 15,2
Os 5 mais violentos
Maiores taxas- 1. Amapá 45,7
- 2. Bahia 40,9
- 3. Pernambuco 37,3
- 4. Alagoas 35,9
- 5. Ceará 34,3
Esse abismo também se reflete nos municípios com mais de 100 mil habitantes. Segundo o Atlas, das 20 cidades menos violentas do Brasil, todas estão localizadas no Sul e Sudeste. Na contramão, 17 das 20 cidades mais violentas estão concentradas na região Nordeste.
Apesar da queda isolada em 2024, o Amapá chama a atenção negativamente no retrospecto de dez anos. Foi o único estado brasileiro a registrar um aumento expressivo tanto na taxa (+30,2%) quanto no número absoluto de mortes (+41,8%) no período de 2014 a 2024.