[Foto: Richard Souza / AN]
- Epidemia de automedicação: Pesquisa revela que 90% da população utiliza remédios sem orientação, resultando em quase 600 mil intoxicações em uma década.
- Ameaça das “superbactérias”: O uso inadequado de antibióticos pode causar 10 milhões de mortes anuais até 2050 devido à resistência bacteriana.
- Tecnologia no SUS: Hospitais da Rede HU Brasil adotam Inteligência Artificial e farmácia clínica para reduzir riscos e custos com internações.
Interromper tratamentos antes do prazo, ignorar horários, consumir remédios vencidos ou a clássica automedicação. O que faz parte da rotina de muitos brasileiros é, na verdade, uma ameaça direta à vida, como explicam especialistas da Rede HU Brasil. Segundo um comunicado emitido nesta terça-feira (05/05), o uso incorreto de fármacos deixou de ser um descuido individual para se tornar um grave problema de saúde pública no país.
Dados do Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico (ICTQ) de 2022 mostram que nove em cada dez brasileiros se automedicam. As consequências são nítidas nas estatísticas de emergência. Entre 2012 e 2021, ao menos 596 mil casos de intoxicação no Brasil foram provocados por medicamentos, conforme estudo publicado no International Journal of Advanced Engineering Research and Science.
“Muitas vezes, o paciente acredita que se é remédio, não faz mal. Esse é um dos maiores mitos que precisamos desconstruir. Os medicamentos salvam vidas, mas quando usados sem critério, podem e vão também colocá-las em risco”, alerta Vicente Dantas, chefe do Setor de Farmácia Hospitalar do Hospital Universitário de Lagarto (HUL-UFS).
Os riscos da “polifarmácia” e o mascaramento de doenças
O uso sem critério pode esconder sintomas de doenças graves, gerar dependência química e causar danos severos a órgãos vitais, como os rins. O risco é potencializado na população idosa, que frequentemente lida com a “polifarmácia”, o uso de múltiplos medicamentos simultâneos.
Juliano Pereira, chefe de Farmácia Hospitalar do HDT-UFNT, explica que essa prática eleva as chances de interações medicamentosas nocivas. Para combater esse ciclo, a saída é o Uso Racional de Medicamentos. Paula Wolff, do HU-UFSC, reitera que o conceito significa que “o uso racional de medicamentos significa que cada paciente deve receber o medicamento adequado à sua condição clínica, na dose correta, pelo tempo adequado e ao menor custo, assegurando assim, a eficácia do tratamento e segurança do paciente”.
A ameaça das superbactérias
Um dos pontos mais críticos, citado pela Rede HU Brasil, é o uso indevido de antibióticos. A interrupção do ciclo ou o uso desnecessário permite que as bactérias evoluam, tornando-se resistentes. Segundo Juliano Pereira, o panorama mundial é sombrio: “Estima-se que, hoje, a resistência bacteriana já tenha causado mais de 1,2 milhão de mortes por ano no mundo. Sendo que, se este panorama permanecer, são previstas mais de 10 milhões de mortes por ano até 2050”.
Vicente Dantas complementa que, no dia a dia dos hospitais, isso resulta em infecções difíceis de tratar, maior mortalidade e tratamentos mais caros e tóxicos.
A Ameaça global: O panorama da OMS
A crise do uso indiscriminado de remédios no Brasil reflete um cenário alarmante monitorado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade classifica a resistência antimicrobiana (RAM) como uma das maiores ameaças à saúde pública e ao desenvolvimento global. Segundo dados oficiais, “estima-se que a RAM bacteriana tenha sido diretamente responsável por 1,27 milhão de mortes globais em 2019 e tenha contribuído para 4,95 milhões de mortes”. O problema é impulsionado principalmente pelo uso indevido e excessivo de medicamentos não apenas em humanos, mas também em animais e na agricultura.
O impacto da resistência vai além da dificuldade em tratar uma infecção comum; ele ataca a base da saúde contemporânea. De acordo com a OMS, “a resistência antimicrobiana coloca em risco muitos dos avanços da medicina moderna. Ela dificulta o tratamento de infecções e torna outros procedimentos e tratamentos médicos – como cirurgias, cesarianas e quimioterapia para o câncer – muito mais arriscados”. Sem antibióticos e antifúngicos eficazes, intervenções rotineiras podem se tornar fatais.
Impacto econômico e a abordagem “Uma Só Saúde”
Além das perdas humanas, a crise de resistência gera um fardo financeiro colossal. Projeções do Banco Mundial indicam que a RAM pode resultar em custos adicionais de saúde de US$ 1 trilhão até 2050, com perdas anuais no Produto Interno Bruto (PIB) global que podem chegar a US$ 3,4 trilhões já em 2030. A organização alerta que a desigualdade exacerba o problema, sendo os países de baixa e média renda os mais atingidos pelas consequências econômicas e sanitárias.
Para enfrentar esse desafio, a OMS defende a estratégia “Uma Só Saúde” (One Health), que integra as áreas humana, animal e ambiental. O foco está na prevenção de infecções, no acesso universal a diagnósticos de qualidade e na inovação. No entanto, o mundo enfrenta um gargalo de inovação: “existe uma crise de acesso e de desenvolvimento de antibióticos. A última revisão anual da OMS identificou apenas 27 antibióticos em desenvolvimento clínico que combatem patógenos prioritários, dos quais apenas 6 foram classificados como inovadores”.
Tecnologia e Farmácia Clínica como aliadas
Para enfrentar o desafio no país, a Rede HU Brasil (antiga Ebserh) tem buscado transformar a farmácia hospitalar em uma unidade estratégica e educativa. No HU-UFSC, a utilização do sistema de Inteligência Artificial Noharm apoia decisões clínicas ao analisar exames e prescrições em tempo real para identificar riscos.
No HUL-UFS e no HDT-UFT, o foco está na farmácia clínica e na “conciliação medicamentosa”. Farmacêuticos participam ativamente das visitas aos pacientes e realizam triagens rigorosas para evitar duplicidade de doses ou alergias não relatadas. Além de salvar vidas, a prática é vital para a sustentabilidade do Sistema Único de Saúde. “Para o SUS, o uso racional de medicamentos reduz os custos com os tratamentos, pois gera economia de recursos, diminui os períodos de internações e, consequentemente, diminui as filas de atendimento”, conclui Juliano Pereira.
| O que é Uso Racional? | É receber o remédio certo para sua condição, na dose correta, pelo tempo adequado e com segurança. |
|---|---|
| Qual o perigo da automedicação? | Pode causar intoxicações, mascarar doenças graves, gerar dependência e lesar órgãos como os rins. |
| Como surgem as superbactérias? | Pelo uso incorreto ou interrupção de antibióticos, o que torna as bactérias resistentes aos remédios. |
| O que é o sistema Noharm? | É uma Inteligência Artificial que analisa prescrições em tempo real para evitar erros e riscos ao paciente. |
| Como o uso correto ajuda o SUS? | Reduz gastos, diminui o tempo de internação e ajuda a reduzir as filas de espera. |
*Com informações de Rede HU Brasil e OMS