Cláudio Castro | Foto: Richard Souza / AN
[Foto: Arquivo / Richard Souza / AN]
- Recuo eleitoral: Cláudio Castro abdica oficialmente da disputa ao Senado Federal, alegando a necessidade de resguardar sua família e estruturar uma defesa técnica robusta.
- Rombo na previdência: Investigação da Operação Compliance Zero aponta a influência política do ex-governador no direcionamento ilegal de R$ 3,69 bilhões do RioPrevidência para o Banco Master.
- Estrutura paralela: Operação Sem Refino revela “engajamento multiorgânico” da máquina estadual para favorecer a REFIT em fraude tributária e simulação industrial de R$ 52 bilhões.
O ex-governador do Rio Cláudio Castro informou nesta quinta-feira (28/05) que irá retirar a pré-candidatura ao Senado Federal pelo PP. A decisão altera profundamente o tabuleiro eleitoral fluminense e ocorre em meio ao avanço de investigações coordenadas pela Polícia Federal (PF), que apuram desvios bilionários e esquemas de corrupção estruturados sob o alto escalão do poder público estadual.
O anúncio de sua retirada da corrida eleitoral consolidou-se dias após o político se tornar o principal alvo de novas frentes de busca e apreensão determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). As apurações apontam o envolvimento direto de Castro com fraudes financeiras coordenadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, além de um amplo ecossistema de facilitação aduaneira e fiscal montado para blindar a Refinaria de Manguinhos (Refit).
Em pronunciamento, Castro justificou a saída do pleito eleitoral citando o intenso desgaste pessoal e familiar gerado pelo que chamou de “forte exposição pública”. Em tom de desabafo, afirmou: “Antes de falar de política, de justiça, de decisões, queria falar para vocês aqui como homem, como marido, como pai, como filho, como alguém que tem uma família. Minha família está passando momentos que eu jamais imaginei que ia passar. Foram dias de dor, dias de exposição, dias de mentiras”.
Sobre a desistência formal do Senado, o político classificou a escolha como a “decisão mais difícil” de sua vida. Argumentou que, embora tenha um histórico de não fugir de disputas em sua trajetória pública, o momento exige prudência: “Eu resolvi retirar a minha candidatura ao Senado Federal. E resolvi tirá-la para que eu possa me focar completamente na minha defesa. […] Preciso cuidar dos meus filhos, da minha casa, da minha esposa”.
O ex-governador defendeu a legalidade de seus atos e argumentou ser vítima de distorções. “Muito pior do que a mentira, é a meia-verdade. Aquilo que transforma atos que eram corretos em tentativa de criminalizar algo que era correto”, pontuou. Castro revelou que seus advogados preparam uma defesa robusta para esclarecer os limites de sua atuação governamental e criticou o clima político: “Infelizmente, no Brasil, em épocas pré-eleitorais […] reputações são destruídas sem o menor pudor, simplesmente por uma busca incessante pelo poder”.
Por fim, garantiu que o recuo é apenas um movimento estratégico e temporário para estruturar sua defesa técnica: “Eu não encerro minha vida política aqui. Somente dou um passo necessário, com humildade, com tranquilidade. […] Seguirei defendendo minha história, minha trajetória, minha família, todo o legado que a gente deixou pelo Rio de Janeiro”.
A Engrenagem na RioPrevidência e o fundo do Banco Master
Nesta terça-feira (26), Cláudio Castro foi alvo da oitava fase da Operação Compliance Zero, que integra as investigações sobre a prática de crimes financeiros envolvendo o RioPrevidência, fundo de previdência social de servidores do estado. O prejuízo potencial orbita a alocação de recursos do Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), que atende mais de 235 mil segurados, em ativos de alto risco da instituição de Daniel Vorcaro.
As investigações identificaram aplicações de mais de R$ 3 bilhões do RioPrevidência para o Master, totalizando precisamente R$ 3.691.000.000 através de fundos estruturados e Letras Financeiras. De acordo com a decisão do ministro André Mendonça (STF), que autorizou buscas na residência de Castro, os indícios apontam que o ex-governador “exerceu papel politicamente relevante para a viabilização dos aportes”. Em troca, haveria o pagamento de vantagens indevidas.
A atuação se deu, primeiramente, pela troca de comando estratégico na autarquia, com a nomeação, por Castro, de nomes alinhados ao esquema, como Deivis Marcon Antunes na presidência e Eucherio Lerner Rodrigues na Diretoria de Investimentos. Os trâmites burocráticos operavam sem relatórios de risco adequados e contavam com a validação interna da Gerência de Controle Interno e Auditoria.
Os aportes ocorreram em duas etapas: entre outubro de 2023 e julho de 2024, foram alocados R$ 970 milhões em Letras Financeiras; já entre dezembro de 2024 e outubro de 2025, o grupo burlou restrições regulatórias aportando R$ 2,01 bilhões adicionais em fundos do próprio banco. Todo esse tráfego ocorreu em um cenário descrito pelo STF como “contexto de crescente dificuldade do banco”, culminando na liquidação da instituição pelo Banco Central em novembro do ano passado. A intermediação contava ainda com comissões de 0,6% blindadas formalmente pela Planner Corretora de Valores S.A.
REFIT e o “Engajamento Multiorgânico”
Há 15 dias, em 15 de maio, Castro já havia sido alvo da Operação Sem Refino, que resultou no congelamento de R$ 52 bilhões em ativos financeiros e na inclusão de Ricardo Andrade Magro, controlador da REFIT, na lista de Difusão Vermelha da Interpol. O grupo é acusado de sonegação fiscal, lavagem de capitais e evasão de divisas.
Laudos técnicos da PF revelaram que, em setembro de 2025, os maquinários da refinaria sequer geravam calor, comprovando que o refino declarado à Agência Nacional do Petróleo (ANP) inexistia na prática. A estrutura utilizava factorings como “contas de passagem” para ocultar o destino das vendas subfaturadas e reinjetava o dinheiro limpo no mercado através de Fundos de Investimento (FIDCs).
A PF constatou que o Estado do Rio de Janeiro direcionou esforços “em um verdadeiro engajamento multiorgânico em prol do conglomerado capitaneado por RICARDO MAGRO”, sob a batuta de Cláudio Castro. O Palácio Guanabara teria coordenado pastas inteiras, como Fazenda, INEA, Polícia Civil e PGE, para atuar na reabertura jurídica da empresa e asfixiar distribuidoras concorrentes.
A materialização desse favorecimento ocorreu por meio da Lei Complementar nº 225/2025 (“Lei Ricardo Magro”), sancionada por Castro um mês após a REFIT ser interditada, garantindo perdão de até 95% das dívidas de R$ 9,4 bilhões. O STF também destacou a contradição do ex-governador em se reunir com Magro em um evento em Nova York financiado pela refinaria, enquanto cumpria agendas oficiais com a agência americana DEA para combater o crime organizado.
Infiltração burocrática e redes de cooptação policial
A organização também avançou contra as forças de segurança e fiscalização. Na Secretaria de Estado de Fazenda, o fisco foi manipulado por lobistas para travar operações de empresas concorrentes, com contatos de servidores armazenados na agenda dos operadores junto à palavra “Pix”.
Nas polícias, a cooptação foi ainda mais profunda. Um agente da Delegacia Fazendária vazou investigações para os alvos, blindando fiscais corrompidos ao cadastrá-los apenas como “testemunhas”. Já na Polícia Federal, o STF determinou o afastamento de dois escrivães que utilizavam um “aparelho bomba”, um telefone registrado em nome de uma pessoa morta, para se comunicar com a quadrilha diretamente do IP da rede interna da PF.
O Posicionamento Institucional da REFIT
A REFIT rechaçou integralmente as acusações e negou conhecer os intermediários apontados pela PF. A petroleira garantiu que “não foi beneficiada pelo programa especial de parcelamento de créditos do governo” (Refis 2025) por já possuir um parcelamento em vigor desde 2023. A companhia também afirmou que seus insumos importados são óleo bruto de petróleo devidamente declarado e negou interferência na suspensão da licença de sua concorrente, creditando o fato a irregularidades da própria rival.
A manobra política e o imbróglio judiciário no TSE
Paralelamente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) agendou para 2 de junho o julgamento do recurso do ex-governador contra sua inelegibilidade, declarada em março. A condenação gerou a determinação de eleições indiretas na Alerj para o mandato-tampão.
O partido PSD recorreu ao STF pedindo eleições diretas e populares. Na véspera, Castro renunciou ao cargo máximo do Executivo para cumprir o prazo legal de desincompatibilização para o Senado, ato visto pelas investigações como uma manobra para forçar a manutenção das eleições indiretas, mantendo o controle da transição governamental.
A Polícia Federal investiga um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o direcionamento irregular de R$ 3,69 bilhões do fundo de previdência estadual (RioPrevidência) para investimentos de alto risco no Banco Master.
Segundo a decisão do STF, Castro “exerceu papel politicamente relevante para a viabilização dos aportes”, alterando a cúpula diretiva do RioPrevidência para nomear gestores alinhados que aprovaram os investimentos sem análises técnicas adequadas.
A apuração partiu de mensagens telefônicas encontradas no celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, combinadas com um cruzamento cronológico que provou a sincronia exata entre reuniões pessoais e as transferências financeiras da autarquia.
A empresa Mídias Promotora Ltda., vinculada ao lobista Ricardo Siqueira Rodrigues, era utilizada para escoar e pagar comissões estipuladas em 0,6% sobre as captações. Adicionalmente, a Planner Corretora de Valores S.A. foi incluída para atuar como anteparo formal e elevar taxas de corretagem.
Os repasses bilionários ocorreram em um “contexto de crescente dificuldade do banco”, que sofria com crise de liquidez. A instituição financeira acabou liquidada pelo Banco Central em novembro do ano passado sob suspeitas de fraudes financeiras reiteradas.