Policiais na Operação Trunfo Final | Foto: Divulgação / PCERJ
[Foto: Divulgação / PCERJ]
- Indiciamento em massa: DHC conclui inquérito e indicia 11 narcoterroristas pelas mortes de cinco policiais civis e militares durante a Megaoperação Contenção, em outubro de 2025.
- Táticas de guerrilha e emboscada: Segundo a polícia, bandidos “ocuparam posições estratégicas e camufladas”, usando granadas e até simulando rendição na mata da Vacaria para matar agentes de resgate.
- Liderança e confissão: Três homens que compõem a cúpula da facção na Penha foram responsabilizados pelos ataques; um dos indiciados confessou “abertamente em redes sociais” ter atirado no pescoço de um dos policiais.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro, por meio da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), concluiu o inquérito que investigou o ataque brutal contra forças de segurança durante a Megaoperação Contenção, deflagrada em outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha. Após meses de trabalho investigativo, 11 “narcoterroristas” foram indiciados pelas mortes de cinco agentes do Estado.
O inquérito trata das vítimas do ataque, que foram os policiais civis Marcus Vinícius Cardoso de Carvalho, Rodrigo Velloso Cabral e Rodrigo Vasconcellos Nascimento, além dos policiais militares Cleiton Serafim Gonçalves e Heber Carvalho da Fonseca. Segundo a Polícia Civil, o relatório final já foi encaminhado à Justiça, indiciando os criminosos por homicídio qualificado, com agravantes relacionados à emboscada, “emprego de armamento de guerra e atuação contra agentes de segurança pública”.
Táticas de guerrilha e falsa rendição
A investigação da especializada revelou um cenário de guerra. Segundo a DHC, os agentes foram “recebidos sob intenso ataque criminoso desde o momento em que ingressaram na comunidade, especialmente na região de mata da Vacaria”. Os narcoterroristas estavam fortemente armados e “ocuparam posições estratégicas e camufladas”, de onde “montaram uma espécie de cerco contra as equipes policiais”.
Para tentar conter o avanço das equipes, o grupo teria realizado disparos de diversos pontos, com “uso de barricadas incendiadas e ataques com granadas”. O inquérito policial concluiu que a intenção clara da facção era “atacar e matar o maior número possível de policiais envolvidos na operação”.
Conforme apontam as apurações, os criminosos “intensificaram os ataques no momento em que constataram que alvejaram os policiais e quando os agentes tentavam resgatar os colegas”. Em um dos episódios mais críticos do confronto na mata, os bandidos “chegaram a simular rendição para fazer mais policiais vítimas”.
Prisões nos bunkers e confissão em rede social
Durante as diligências, a DHC atestou que os disparos letais, inclusive os que atingiram o delegado Bernardo Leal, partiram de criminosos que atuavam de forma tática, “escondidos em bunkers improvisados na mata, de onde tinham ampla visão da movimentação policial”. Na ofensiva, sete bandidos que estavam nesse esconderijo foram capturados com sete fuzis e uma pistola Glock, todos com sinais recentes de utilização.
O documento oficial destaca que “cinco desses bandidos foram alvejados, enquanto dois foram conduzidos ilesos para a unidade policial”, circunstância que, segundo a Polícia Civil, “reforça a resistência armada imposta pelos narcoterroristas”.
A apuração tomou novos contornos com a identificação de um oitavo atirador da linha de frente. Embora não tenha sido preso na operação, o trabalho de inteligência provou que ele estava unido aos demais “para atirar contra todos os policiais que se encontrassem nas áreas próximas”. De forma audaciosa, o bandido “confessou abertamente em redes sociais, a sua participação no crime e afirmou ter sido ele quem atingiu o policial Rodrigo Velloso Cabral no pescoço”. Com as evidências reunidas, a autoridade policial representou pela sua prisão preventiva.
A cúpula do ataque
O inquérito também mapeou a cadeia de comando. As apurações revelaram que o ataque foi ordenado por lideranças ligadas ao Comando Vermelho, “responsáveis por ordenar e autorizar a ofensiva armada contra as forças de segurança”.
Três homens que ocupam o topo da hierarquia foram indiciados: o primeiro homem atua como a principal liderança na Penha e o documento policial ressalta que “nenhum ataque ocorre sem o seu aval ou determinação”. Ao seu lado, um segundo homem é classificado como seu braço direito, responsável por “gerenciar as finanças, logística, segurança e execuções de ordens como torturas”. Fechando a cúpula do ataque, um terceiro homem é apontado como gerente-geral que atua como braço operacional e “ordena intenso tiroteio para garantir o controle do território na Penha”.
Balanço do Inquérito: DHC
Principais descobertas oficiais sobre o ataque na Megaoperação Contenção
| Indiciamentos e Crime | 11 homens foram formalmente indiciados pelas mortes de cinco agentes de segurança masculinos. O crime foi qualificado com agravantes que incluem emboscada, “emprego de armamento de guerra e atuação contra agentes de segurança pública”. |
|---|---|
| Táticas de Guerrilha | Os homens utilizaram barricadas incendiadas, granadas e montaram “uma espécie de cerco contra as equipes”. Para atrair equipes de resgate e causar mais mortes, os atiradores “chegaram a simular rendição para fazer mais policiais vítimas”. |
| Uso de Bunkers | Os disparos letais partiram de homens que agiam de forma tática, “escondidos em bunkers improvisados na mata, de onde tinham ampla visão da movimentação policial”. |
| Confissão Pública | Um dos homens identificados pela inteligência não foi capturado no local, mas a polícia reuniu provas após o indivíduo ter “confessado abertamente em redes sociais, a sua participação no crime”. |
| Cadeia de Comando | A matança foi ordenada por três homens da cúpula da facção. Sobre o líder máximo, o inquérito ressalta que “nenhum ataque ocorre sem o seu aval ou determinação”. Os outros dois homens gerenciavam armas, finanças e “execuções de ordens como torturas”. |
Relembre o caso: O que foi a Operação Contenção?
Deflagrada pelas polícias Civil e Militar em 28 de outubro de 2025, a chamada “Operação Contenção” entrou para a história do Rio de Janeiro como a ofensiva de segurança pública mais letal e de maior proporção dos últimos 15 anos no estado. Após mais de um ano de investigações e 60 dias de planejamento tático, cerca de 2,5 mil agentes foram deslocados para os complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte. O objetivo declarado era prender lideranças criminosas e sufocar a expansão territorial imposta pela facção Comando Vermelho.
A incursão, no entanto, desencadeou uma retaliação sem precedentes. Adotando táticas de guerrilha e narcoterrorismo, traficantes usaram drones com explosivos contra os agentes e ordenaram o bloqueio das principais artérias da cidade. Ao todo, 71 ônibus foram sequestrados e atravessados nas pistas como barricadas incendiadas. O Rio de Janeiro entrou em estágio 2 de atenção, com a Polícia Militar precisando convocar até seu efetivo administrativo para tentar controlar o caos nas ruas.
Para a população, o dia foi marcado por pânico extremo e paralisação. Dezenas de escolas e grandes universidades (como UFRJ, Uerj e UFF) suspenderam as aulas. Relatos dramáticos de moradores ilustraram o desespero: uma professora precisou se rastejar sob a roleta de uma estação do BRT para fugir dos tiros, enquanto gestantes e trabalhadores caminhavam quilômetros por áreas de risco devido à alteração de mais de 200 linhas de ônibus e à superlotação do metrô.
O balanço oficial do governo fluminense contabilizou 64 mortos,sendo quatro policiais (dois civis e dois do Bope) e 60 apontados como criminosos, além de 81 presos e a apreensão de 93 fuzis e meia tonelada de drogas. Contudo, moradores relataram à época a existência de 60 a 70 corpos adicionais “largados” na mata do Complexo da Penha, muitos com supostos sinais de execução, o que não entrou na contagem oficial inicial.
O derramamento de sangue culminou em uma grave crise institucional. O então governador Cláudio Castro (PL) defendeu a ação, cobrando a transferência de líderes da facção para presídios federais e afirmando que o Estado estava “sozinho nesta guerra”. Em resposta, Ricardo Lewandowski, que ocupava o cargo de ministro da Justiça, classificou a operação como “cruenta” e negou ter recebido qualquer pedido de reforço prévio. A violência desmedida gerou repúdio da ONU, cobranças do Supremo Tribunal Federal (STF) e reacendeu intensos debates sobre os limites das forças estaduais e quando as Forças Armadas podem atuar em apoio à segurança pública nos estados.
*Com informações de PCERJ