Show | Foto: Ilustrativa / lensGO
[Foto: Ilustrativa / lensGO]
O governador em exercício do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, decidiu, nesta terça-feira (28/04), não autorizar o repasse de verbas estaduais para patrocinar o show da cantora colombiana Shakira, que acontece neste sábado (02/05) na Praia de Copacabana. A decisão rompe com o modelo de financiamento dos últimos megaeventos na cidade, mas não afetará a estrutura de segurança.
De acordo com o Executivo fluminense, a retirada do apoio financeiro ocorreu em razão da “grave crise fiscal que assola o Estado”. Mesmo sem o aporte na produção, o governo garantiu em nota que manterá uma “ampla estrutura operacional”, nos moldes do que já é feito no Réveillon e em “outros grandes eventos”.
A megaoperação contará com 5.692 agentes de segurança, torres de observação e tecnologia de ponta, incluindo “pórticos com reconhecimento facial” e “viaturas com câmeras embarcadas”. A Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros também atuarão no local, com a Cedae responsável por “pontos de hidratação com distribuição de água”.
Prefeitura assume o protagonismo
Nos anos anteriores, o financiamento de grandes espetáculos em Copacabana foi dividido. Em 2024, o governo estadual destinou R$ 10 milhões para o show de Madonna e, em 2025, R$ 15 milhões para a apresentação de Lady Gaga, valores que espelhavam os repasses da Prefeitura.
Desta vez, o município, sob a gestão de Eduardo Cavaliere (PSD), assumirá todo o investimento. O prefeito já havia destinado R$ 15 milhões e elogiou a postura do estado, afirmando que o governador interino tomou a “decisão correta” ao ouvir a recomendação do município.
Nas redes sociais, Cavaliere explicou que a prefeitura vai “honrar com 5 milhões necessários” para complementar a produção, totalizando um investimento municipal de R$ 20 milhões. Segundo ele, o movimento vai “economizar 10 milhões para os cofres municipais e estaduais”, com a expectativa de gerar um retorno financeiro de “mais de 30x do valor investido para a cidade”.
Eduardo Paes
O recuo do estado repercutiu politicamente. O ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), também usou as redes sociais para endossar a atitude do governador interino. Para Paes, investir diretamente na produção de shows “não é papel de governador e sim de prefeito”, ressaltando que o Estado “tem que apoiar na segurança e na estrutura”.
Aproveitando o cenário, Paes criticou a gestão do ex-governador cassado, Cláudio Castro (PL), pelos repasses milionários feitos em edições passadas, enquanto o governo estadual está “sempre deficitário”.
“Sempre disse isso ao Claudio Castro! O evento é muito importante para o Rio e aquece o turismo e a economia da cidade […] Mas pq dar recursos qdo a prefeitura já tinha fechado a conta? Foi assim com a Madonna e a Lady Gaga. E eu avisei…. Nas duas vezes!”, disparou o ex-prefeito, pontuando que o estado precisa de “clareza em suas prioridades” pois “gestão tem a ver com escolhas”.
Esquema de segurança
A promessa de uma “ampla estrutura operacional” citada na nota do Estado foi detalhada nesta terça-feira (28), em apresentação no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC). O esquema especial de segurança vai muito além do policiamento tradicional, apostando em um vasto aparato tecnológico e na mobilização de 7.927 agentes, sendo 5.692 estaduais e 2.235 municipais.
O secretário de Segurança Pública, Victor dos Santos, pontuou que uma operação dessa dimensão exige “planejamento detalhado, tecnologia de ponta e integração”. Segundo ele, o objetivo principal é garantir que o público chegue, assista ao show e volte para casa “com tranquilidade”, ressaltando que a segurança eficiente preserva a imagem do Rio como uma cidade “capaz de realizar grandes eventos”.
Para garantir a ordem do Leme a Copacabana, a Polícia Militar atuará com 3.756 oficiais. O número representa um aumento de quase 14% no efetivo (452 policiais a mais) em comparação ao último megashow realizado no local, da cantora Lady Gaga.
O público passará por um controle de acesso rigoroso. O planejamento prevê 18 pontos de revista equipados com detectores de metal e câmeras de reconhecimento facial, somados a outros 18 bloqueios também com biometria. As revistas ocorrerão inclusive nas saídas das estações de metrô Cardeal Arcoverde, Siqueira Campos e Cantagalo. Além da proibição de objetos cortantes e inflamáveis, cães farejadores farão varreduras no entorno e o Túnel Novo será interditado.
Do alto, um helicóptero equipado com holofote tático ajudará a rastrear movimentações suspeitas à noite, operando em conjunto com dezenas de drones, 60 motopatrulhas e 145 viaturas, metade delas com câmeras embarcadas.
A Polícia Civil manterá 1.500 agentes de prontidão, operando três centrais de flagrante na região, sendo uma delas exclusiva para adolescentes infratores. O setor de inteligência fará o monitoramento em tempo real das redes sociais para antecipar ações de grupos criminosos, contando com o suporte especializado da CORE e do Esquadrão Antibomba.
Pelo Corpo de Bombeiros, uma ação inédita no país promete chamar a atenção: o uso de médicos em motos aquáticas (jet skis). A inovação visa agilizar o socorro de emergência no mar e na areia, contornando a dificuldade de acesso causada pela multidão. A corporação terá 176 militares no local e 20 postos de guarda-vidas ao longo da orla.
A fiscalização viária e o ordenamento urbano fecham o planejamento. A prefeitura usará seus 2.235 agentes (SEOP e Guarda Municipal) e 10 reboques para coibir ambulantes irregulares e estacionamento proibido. A fiscalização contra embriaguez ao volante será intensificada por 110 agentes da Operação Lei Seca, enquanto o programa Segurança Presente manterá uma base fixa em frente ao Copacabana Palace a partir das 22h de sexta-feira até o amanhecer de domingo.
Balanço da Operação Shakira
Raio-x do esquema especial de segurança em Copacabana
- 3.756 policiais nas ruas (aumento de 14% em relação ao show da Lady Gaga).
- 18 pontos de revista com detectores de metal e 18 pontos de bloqueio com reconhecimento facial.
- Uso de helicóptero com holofote, 6 drones, lancha e câmeras embarcadas nas viaturas.
- Apoio de cães farejadores e interdição do Túnel Novo (Coelho Cintra).
- 1.500 agentes atuando na Zona Sul, aeroportos e delegacias especializadas.
- 3 centrais de flagrante (12ª DP, 13ª DP e Delegacia do Idoso), incluindo atendimento exclusivo para adolescentes infratores.
- Monitoramento em tempo real de redes sociais para identificar atividades do crime organizado.
- Apoio do Esquadrão Antibomba e da CORE.
- 176 militares distribuídos em grupos de intervenção rápida.
- Ação Inédita: Médicos em motos aquáticas (jet skis) para agilizar o socorro no mar e na areia.
- 20 postos de guarda-vidas espalhados pela orla.
- Uso de drones, embarcações e 7 viaturas de salvamento.
- 2.235 agentes municipais (SEOP e Guarda Municipal) focados em ordenamento, quiosques e ambulantes.
- 10 reboques atuando contra o estacionamento irregular.
- Segurança Presente: 150 agentes com base fixa no Copacabana Palace de sexta a domingo.
- Lei Seca: 110 agentes em blitzes no entorno e ações educativas.
Impacto milionário: Show deve movimentar R$ 800 milhões
O esforço da Prefeitura em assumir os custos de produção encontra justificativa nas projeções financeiras. O show promete movimentar aproximadamente R$ 800 milhões na economia carioca (com injeção direta estimada em R$ 776,2 milhões), atraindo um público de 2 milhões de pessoas às areias de Copacabana neste sábado (02).
Os números compõem o estudo “Potenciais Impactos Econômicos do ‘Todo Mundo no Rio’ 2026”, desenvolvido pela Riotur e pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE). A apresentação da colombiana consolida o mês de maio no calendário oficial de grandes espetáculos da cidade, um projeto garantido até, pelo menos, 2028.
Segundo o prefeito Eduardo Cavaliere, a data já virou um chamariz turístico, elevando a ocupação hoteleira e o movimento no comércio mesmo entre aqueles que não pisarão nas areias da praia. O cenário, de acordo com o prefeito, “amplia a geração de empregos” e reforça o Rio de Janeiro como “capital global de grandes eventos”.
De onde vem o dinheiro?
O estudo do Observatório do Turismo Carioca traçou o perfil financeiro de quem estará em Copacabana, local escolhido justamente por ser reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial e oferecer uma “combinação rara no mundo” de infraestrutura e paisagem icônica, como destacou o presidente da Riotur, Bernardo Fellows. A divisão do público e dos gastos foi projetada da seguinte forma:
| Categoria de Público | Proporção | Público Estimado | Ticket Médio | Estadia |
|---|---|---|---|---|
| Local (Cariocas e RM) | 84,6% | 1,7 milhão | R$ 141,75 | N/A |
| Turistas Nacionais | 13,9% | 278 mil | R$ 547,30 | 3 dias |
| Turistas Internacionais | 1,6% | 32 mil | R$ 626,40 | 4 dias |
Arrecadação recorde e R$ 1,3 bilhão em mídia gratuita
Além do dinheiro deixado diretamente por fãs, a cidade lucra com a exposição global. Assim como os shows de Madonna e Lady Gaga geraram US$ 500 milhões em mídia espontânea nos anos anteriores, a expectativa é que Shakira renda uma vitrine internacional avaliada em US$ 250 milhões (cerca de R$ 1,3 bilhão em publicidade gratuita para a cidade).
O impacto também enche os cofres públicos. Em maio de 2025, impulsionado por megaeventos, o Rio arrecadou R$ 66,8 milhões em Imposto Sobre Serviços (ISS) ligados ao turismo. O montante representa um crescimento real de 23,2% se comparado a 2023 (quando não houve mega show na praia) e um salto de 8,2% em relação a 2024 (ano da Madonna).
Para Osmar Lima, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, os números validam a aposta do município. Ele analisa que o reflexo financeiro vai muito além das horas de espetáculo, traduzindo-se em “aumento de arrecadação, geração de empregos e dinamização de cadeias produtivas estratégicas”.