[Foto: Ilustrativa/ Google AI]
- Impacto bilionário e fatal: Desastres hidrológicos ao redor do globo somaram perdas de US$ 28 bilhões e vitimaram 4,2 mil pessoas no ano de 2025.
- Alerta no Brasil: As chuvas no Rio Grande do Sul geraram um efeito cascata devido ao solo já saturado pelos eventos extremos de 2024.
- Esforço científico global: Estudo da Unesp, CEMADEN e NASA cruzou dados de duas décadas para mapear as áreas de maior vulnerabilidade climática no planeta.
As enchentes globais ao longo de 2025 deixaram um rastro severo de destruição, resultando em 4,2 mil mortes e um impacto econômico que ultrapassou a marca de US$ 28 bilhões. O diagnóstico alarmante é fruto de uma revisão abrangente publicada na prestigiada revista científica Nature Reviews Earth & Environment.
O estudo foi liderado por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais da Unesp (câmpus de São José dos Campos), em parceria com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), a agência espacial norte-americana (NASA) e outras instituições internacionais. Cruzando dados de monitoramento ambiental e registros populacionais, os cientistas destrincharam como a interação de fatores climáticos e o contexto prévio dos territórios culminaram em tragédias de alta gravidade.
Como a ciência mapeou o risco
Para compreender a dimensão das inundações, a equipe utilizou o Global Land Data Assimilation System (GLDAS) da NASA, combinando-o com modelos computacionais que simulam o comportamento dos rios. Os dados de 2025 foram comparados com um histórico robusto de 22 anos (de 2004 a 2025).
“Quando um rio ultrapassou o nível associado a uma enchente grave, aquela área foi classificada como zona de risco elevado”, explicou Enner Alcântara, pesquisador da Unesp/CEMADEN e um dos autores do estudo.
Os danos econômicos e o índice de mortalidade foram aferidos através do banco de dados internacional EM-DAT, da Universidade de Louvain (Bélgica), garantindo uma comparação histórica consistente.
O efeito cascata nas Américas: Rio Grande do Sul e Texas
Nas Américas, dois grandes desastres marcaram o ano. Nos Estados Unidos, as enchentes no feriado de 4 de julho deixaram pelo menos 135 mortos no Texas. Já o Brasil entrou em estado de atenção especial devido às fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul no mês de junho, superando os 170 mm. O agravante no cenário brasileiro foi a relação direta com a catástrofe ocorrida no ano anterior.
Avaliando o cenário gaúcho, Alcântara faz um alerta essencial sobre a gestão de risco contínua: “O artigo deixa claro que o solo ainda estava saturado quando as novas chuvas chegaram em junho de 2025, o que amplificou significativamente os impactos. Isso nos mostra que enchentes sucessivas em uma mesma região não são eventos independentes. Uma catástrofe pode deixar o território mais vulnerável à próxima, criando um ciclo de risco que precisa ser levado em conta no planejamento de reconstrução e na política de prevenção”.
Um ano com menos exposição, mas de alto risco
Paradoxalmente, 2025 esteve entre os anos com menor exposição populacional a inundações nas últimas duas décadas. Esse cenário ocorreu devido às fases mais frias e menos intensas de fenômenos como o El Niño (aquecimento anormal do oceano Pacífico Equatorial) e a Oscilação Decadal do Pacífico (ODP), que reduzem a frequência de eventos extremos em algumas regiões.
Porém, o cenário está longe de indicar uma resolução da crise climática. “O estudo deixa claro que as emissões de gases de efeito estufa continuaram elevadas e as temperaturas globais seguiram excepcionalmente altas em 2025”, alerta o pesquisador. Segundo ele, “O alívio foi pontual e associado a uma combinação favorável de fatores naturais naquele ano específico, e não a uma melhora estrutural na situação climática global.”
A variabilidade climática natural continuou sendo o motor por trás dos desastres daquele ano, amplificada por condições atmosféricas atípicas.
O impacto devastador na Ásia e na África
A Ásia concentrou os números mais graves do estudo. Cerca de 56% da população mundial exposta a enchentes (202 milhões de pessoas) vivia no continente, que também registrou 60% das mortes globais. Além da alta densidade populacional, a região sofreu com:
- Derretimento de Geleiras do Himalaia: Resultando em enxurradas e deslizamentos no Paquistão e Caxemira.
- Ciclones e Tufões: Um ciclone devastou o Sri Lanka, e tufões sucessivos mataram mais de mil pessoas no Vietnã, Tailândia, Malásia e Indonésia.
O continente africano registrou um de seus piores anos desde 2004. O Lago Tanganica, dividido por Tanzânia, República Democrática do Congo, Burundi e Zâmbia, transbordou após chuvas intensas, causando mais de 100 mortes e forçando deslocamentos em massa. Na África do Sul, a região de East London foi engolida por 300 mm de chuva em apenas 48 horas devido a um sistema conhecido como cut-off low, matando aproximadamente 80 pessoas.
A Europa despontou com a maior proporção de habitantes expostos em áreas de risco (9%), enquanto a Oceania vivenciou a pior enchente de Nova Gales do Sul, na Austrália, impulsionada por um sistema de baixa pressão de movimento lento.
“Embora fenômenos como tufões, ciclones e monções sejam esperados sazonalmente, a intensidade e a combinação de fatores observados em 2025, como solos já saturados, geleiras derretendo mais rápido e temperaturas globais recordes, fizeram com que muitos desses eventos fossem além do padrão histórico. Portanto, vários deles podem ser classificados como eventos extremos”, classifica Alcântara.
- Geleiras do Himalaia: O derretimento acelerado causou enxurradas e deslizamentos mortais no Paquistão e na Caxemira.
- Ciclones e Tufões: Devastação no Sri Lanka, Vietnã, Tailândia, Malásia e Indonésia, resultando em mais de mil mortes.
- Lago Tanganica: Chuvas anormais fizeram o lago transbordar (afetando Tanzânia, RDC, Burundi e Zâmbia), causando mais de 100 mortes.
- África do Sul: O sistema cut-off low despejou 300 mm de chuva em 48 horas em East London, gerando enchentes e cerca de 80 mortes.
— Enner Alcântara, pesquisador da Unesp/CEMADEN.
Sistemas de alerta como ferramentas de sobrevivência
Com eventos climáticos extremos tornando-se o novo normal, refletidos também em relatórios do próprio CEMADEN, que indicaram 336 mil pessoas afetadas e R$ 3,9 bilhões em danos no Brasil em março, o mapeamento de vulnerabilidade torna-se vital para áreas sem monitoramento terrestre.
Para os autores do estudo, sobreviver a desastres vai além do volume pluviométrico; trata-se de tempo de resposta. “Sistemas de alerta eficientes e comunicação acessível à população salvam vidas, e o artigo aponta que investir em melhores ferramentas de monitoramento e previsão é um caminho essencial para alcançar esse objetivo”, finaliza Alcântara.