- Ataque militar em águas internacionais: A Marinha de Israel interceptou embarcações civis desarmadas com disparos e canhões de água, capturando 428 pessoas de 40 países.
- Brasileiros incomunicáveis: Um médico pediatra e três ativistas brasileiras foram detidos pelas forças israelenses e estão sem acesso a advogados ou assistência consular, gerando temores de tortura.
- Bloqueio duplo e repúdio global: Comboio terrestre humanitário também foi travado por força militar na Líbia, desencadeando declaração conjunta de repúdio assinada pelo Brasil e mais nove nações.
Uma grande operação militar realizada pela Marinha de Israel em águas internacionais resultou na interceptação de mais de 20 embarcações civis e no desaparecimento de pelo menos 428 ativistas de direitos humanos, médicos, jornalistas e defensores humanitários de mais de 40 nacionalidades. A denúncia formal foi apresentada pela Global Sumud Flotilla (GSF), que acusa abertamente as autoridades israelenses de ordenarem a captura em massa dos militantes que integravam a missão internacional.
A abordagem naval durou cerca de 35 horas e ocorreu a aproximadamente 250 milhas náuticas da costa da Faixa de Gaza, região que integra a zona de Busca e Salvamento (SAR) de Chipre. O comboio havia zarpado de Marmaris, na Turquia, com o objetivo de estabelecer um corredor humanitário seguro e romper o bloqueio imposto a Gaza.
Uso de força militar contra civis desarmados
Relatórios oficiais da equipe técnica da flotilha apontam que as Forças de Operações Especiais de Israel abriram fogo direto contra os civis em seis embarcações distintas. Além dos disparos, os militares utilizaram canhões de água e promoveram o abalroamento intencional do barco Ramle (Sirius), que se encontrava mais próximo da costa.
Segundo a nota oficial da missão, centenas de participantes da frota encontram-se atualmente na condição de desaparecidos sob o poder do regime israelense, transportados à força para portos na Palestina ocupada. “Eles não tiveram contato com nenhum advogado. O acesso consular foi negado a eles. Suas famílias não foram informadas sobre seu paradeiro”, denunciou a nota.
Quem são os quatro brasileiros desaparecidos
A escalada militar em alto-mar atingiu diretamente quatro cidadãos do Brasil:
- Ariadne Teles: Advogada de direitos humanos e coordenadora da GSF no Brasil;
- Beatriz Moreira: Militante do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB);
- Thainara Rogério: Desenvolvedora de software, nascida no Brasil e cidadã espanhola;
- Cássio Pelegrini: Médico pediatra voluntário.
As três mulheres foram detidas juntas. O médico Cássio Pelegrini compunha a tripulação do penúltimo barco interceptado, o Hawsha (Cabo Blanco), que quase atingiu seu destino e foi bloqueado a menos de 100 milhas náuticas do litoral de Gaza. Durante o ataque, o sinal das câmeras de segurança foi derrubado, elevando a tensão sobre a segurança da tripulação.
Até o momento, não há qualquer notícia oficial por parte de Israel sobre o estado de saúde e o paradeiro dos brasileiros. Há forte preocupação internacional de que os ativistas possam sofrer torturas físicas, violência sexual e outras agressões graves nas instalações de detenção, como ocorreu em interceptações anteriores. A Embaixada do Brasil em Tel Aviv informou que os ativistas serão levados ao porto de Ashdod e encaminhados ao centro de detenção de Ktzi’ot, com expectativa de liberação para visitas consulares nesta quinta-feira (21).
Comando direto da “Sala de Guerra” e histórico de tortura
A magnitude da operação evidenciou a proporção da missão. Segundo informou a organização, o próprio primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, juntamente com a alta cúpula militar, acompanhou as interceptações pessoalmente da sala de operações da Marinha, elogiando o que chamou de ação “discreta” para manter o isolamento de Gaza.
Para a Flotilha, usar um contingente naval imenso contra pequenos barcos a motor reflete uma tentativa desesperada de travar a ajuda. A preocupação tem lastro recente: há duas semanas, uma ofensiva similar perto de Creta deteve 181 ativistas. Depoimentos sobre essa primeira investida relataram graves agressões e violência sexual invasiva. Ativistas libertados há uma semana, como Thiago Ávila e Saif Abu (capturados perto da Grécia junto a 170 civis, incluindo os brasileiros Mandi Coelho e Leandro Lanfredi), também denunciaram tortura ao longo de 10 dias de cárcere ilegal.
“Aos que orquestraram essa interceptação: vocês não impediram este movimento. Vocês interceptaram madeira e aço. A narrativa já desmoronou. E uma vez iniciado esse colapso, não há como voltar ao silêncio”, cravou a nota da Flotilha, confirmando o envio de 500 mil cartas de repúdio.
Missão terrestre bloqueada por militares na Líbia
A asfixia à ajuda humanitária ocorreu de forma simultânea por terra. O Comboio Terrestre Global Sumud, integrado por 200 participantes, sete ambulâncias, 20 casas móveis e medicamentos, foi bloqueado em rota. Forçados a acampar a nove quilômetros da passagem de Sirte, na Líbia (zona neutra), foram travados pelo envio de uma “força militar completa” de autoridades do leste líbio, agindo sob pressão do Egito. As negociações via Crescente Vermelho colapsaram.
“Uma força militar agora impede que civis desarmados entreguem ajuda a uma população sitiada. Isso não é uma área cinzenta. É uma violação do direito internacional humanitário”, destacou a organização civil.
Declaração de repúdio do Brasil e 9 nações
A atuação de Israel deflagrou forte resposta diplomática. Na segunda-feira (18/05), o Itamaraty publicou uma Declaração Conjunta assinada por dez países: Brasil, Bangladesh, Colômbia, Espanha, Indonésia, Jordânia, Líbia, Maldivas, Paquistão e Turquia.
O texto oficial condena e repudia duramente os ataques, demandando atitude: “Os Ministros expressam séria preocupação com a segurança e a integridade dos participantes civis da flotilha e demandam a libertação imediata de todos os ativistas detidos, assim como pleno respeito a seus direitos e a sua dignidade.”
Enquanto governos tentam rastrear os 428 civis, advogados da missão Sumud preparam processos judiciais em mais de 20 jurisdições ao redor do globo.
Estatísticas da ONU
De acordo com os dados da ONU consolidados de 2008 até a última segunda-feira (18), 7.455 palestinos foram assassinados no conflito, contra 375 mortes de israelenses. Do lado palestino, a maioria absoluta (4.421) era de civis mortos por bombardeios aéreos em Gaza, Rafah e Khan Yunis. O território conta com mais de 165 mil feridos (especialmente na Cisjordânia). Pouco mais de 72 mil morreram pela inalação de gás lacrimogêneo.
A Global Sumud Flotilla iniciou massiva campanha pedindo urgência: “O regime israelense cruza todos os limites, interceptando uma missão humanitária em águas internacionais e sequestrando seus tripulantes através do uso da força. Cobramos a liberação imediata de todos os sequestrados, e o esforço de todas as autoridades para garantir a segurança e livre passagem da Flotilha.”