[Foto: Ilustrativa / Google AI]
- Acordo histórico: Parceria entre Fiocruz, Merck e Nortec Química garante a transferência de tecnologia para produção 100% nacional da cladribina oral.
- Tratamento revolucionário: Medicamento requer apenas até 20 dias de administração em dois anos, mas oferece proteção sustentada contra a doença por até quatro anos.
- Soberania sanitária: Ação fortalece o SUS, consolida o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis), gera empregos e amplia o acesso gratuito a terapias de alto valor agregado.
Um novo marco para a saúde pública brasileira e para a autonomia tecnológica do país acaba de ser estabelecido. Um acordo de transferência de tecnologia firmado entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a farmacêutica Merck e a Nortec Química vai permitir a produção nacional de um tratamento inovador para a esclerose múltipla (EM). A cladribina oral, conhecida comercialmente como Mavenclad®, passará a ser fabricada no Brasil e distribuída gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A iniciativa representa não apenas um avanço médico, mas uma estratégia de consolidação do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis), garantindo a soberania sanitária do Brasil. A produção será conduzida pelo Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), marcando a entrada da instituição na oferta de terapias voltadas a essa condição neurológica.
O impacto de um tratamento inovador
A esclerose múltipla é uma doença crônica, inflamatória e degenerativa que afeta o sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal), resultando em danos significativos e incapacidade progressiva. No Brasil, estima-se que entre 35 mil e 40 mil pessoas convivam com a condição.
O grande diferencial da cladribina oral é a sua dinâmica de administração de curta duração combinada a uma eficácia prolongada para pacientes com esclerose múltipla remitente-recorrente (EMRR). O protocolo exige a administração do medicamento por até 20 dias, distribuídos ao longo de dois anos. Contudo, os benefícios sustentados, que incluem a redução de surtos e o retardo na progressão da doença, perduram por até quatro anos. Atualmente, este é o único tratamento para a doença incluído na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Dados recentes atestam o alto impacto positivo na qualidade de vida dos pacientes. Novas análises apresentadas no 39º Congresso do Comitê Europeu para Tratamento e Investigação em Esclerose Múltipla (ECTRIMS) mostraram que pacientes com EMRR tiveram a lesão neuronal reduzida em dois anos de uso. Mais além, um estudo com 11 anos de acompanhamento de 435 pacientes revelou que 90% deles não precisaram de cadeira de rodas, 81,2% mantiveram a capacidade de caminhar sem apoio e 55,8% não necessitaram de nenhuma outra medicação para a doença.
Fortalecimento do SUS e Soberania Nacional
A nacionalização da produção desse fármaco de alto valor agregado transcende os benefícios clínicos, configurando-se como um avanço estrutural para o país.
“Para a Fiocruz este é um passo na sua estratégia de ampliar a carteira de produtos ofertados ao SUS. Ao mesmo tempo, estreita laços tecnológicos com seus parceiros nacionais e internacionais, diversificando sua rede de cooperações. Mais uma ação da Fundação em favor do acesso, neste caso, um medicamento contra a esclerose múltipla”, declarou o presidente da Fiocruz, Mario Moreira.
Moreira detalhou ainda o impacto socioeconômico da medida: “Cerca de 40 mil brasileiros convivem com a doença, sendo 85% mulheres. A importância estratégica de um laboratório público é esta: consolidar o Ceis para garantir a sustentabilidade dos programas do SUS, gerando empregos especializados, reduzindo preços e mantendo a qualidade dos produtos”.
Para a diretora de Farmanguinhos/Fiocruz, Silvia Santos, a medida traduz a função social da ciência brasileira. “Para nós, participar dessa parceria com a Merck e a Nortec é reafirmar o nosso compromisso com o fortalecimento do SUS e com a promoção do acesso a tratamentos inovadores, produzidos em território nacional. É um caminho importante para a transformação de políticas públicas em cuidado real para quem mais precisa”, ressaltou.
O poder da cooperação trilateral
O sucesso dessa transferência de tecnologia é fruto da união entre o setor público e a iniciativa privada. A formalização da parceria ocorrerá com a assinatura de um termo de compromisso, alinhado às diretrizes do Ceis.
Esta já é a segunda parceria entre Fiocruz e Merck na área terapêutica. A farmacêutica possui outras frentes ativas com a Fundação, incluindo a betainterferona 1a (Rebif®), também para esclerose múltipla, via Bio-Manguinhos, e o arpraziquantel pediátrico para esquistossomose.
“A expertise da Merck em colaborar com o setor público é resultado de uma trajetória centenária no Brasil, marcada por inovação e compromisso com a saúde. Somos pioneiros no tratamento da esclerose múltipla e nosso propósito se fortalece com essa segunda transferência de tecnologia na área”, pontuou a diretora-executiva da Merck Brasil, Maria Sol Quibel.
O papel da Nortec Química no fornecimento de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) também é peça-chave para viabilizar a autonomia do processo em solo brasileiro.
“A Nortec Química tem um longo histórico de cooperações com a Fiocruz, produzindo no Brasil Insumos Farmacêuticos Ativos [IFAs] essenciais para o SUS. A produção nacional de IFAs garante a autonomia do país no abastecimento desses produtos essenciais para a saúde pública, gera empregos, e aumenta a densidade tecnológica da indústria química no Brasil. A parceria com a Merck nos permite trazer mais este medicamento inovador e abre novas portas de pesquisa e desenvolvimento”, explicou o diretor-presidente da Nortec Química, Marcelo Mansur.
Com sintomas que podem variar de leves a graves, atrasando diagnósticos por meses ou anos, a esclerose múltipla é influenciada por fatores como idade, sexo (predominantemente feminino), genética, deficiência de vitamina D e tabagismo. A chegada da produção nacional da cladribina é, para milhares desses pacientes, a garantia de um futuro com mais mobilidade, autonomia e qualidade de vida, totalmente amparado pela saúde pública brasileira.
| Dúvida Frequente | Resposta Explicativa |
|---|---|
| O que foi anunciado entre Fiocruz, Merck e Nortec? | Um acordo de transferência de tecnologia para a produção 100% nacional da cladribina oral, medicamento para Esclerose Múltipla, que será distribuído no SUS. |
| Como funciona o tratamento com a cladribina oral? | É uma terapia de curta duração: o paciente toma por até 20 dias em um período de dois anos, e os benefícios sustentados duram por até quatro anos. |
| Quais são os resultados a longo prazo do remédio? | Estudos com 11 anos de acompanhamento mostraram que 90% dos pacientes não precisaram de cadeira de rodas e 81,2% mantiveram a capacidade de caminhar sem apoio. |
| Quem fará a produção no Brasil? | A produção será feita por Farmanguinhos (Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fiocruz), com fornecimento de insumos (IFAs) pela Nortec Química. |
| Quantas pessoas são afetadas pela doença no país? | A doença afeta cerca de 35 a 40 mil brasileiros, sendo que a grande maioria (85%) é composta por mulheres. |
*Com informações de Fiocruz