Dinheiro e calculadora | Imagem: Ilustrativa / Google Gemini
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- Contraste social: A inflação das famílias com ganho menor que R$ 2.299,82 avançou de 0,85% em março para 0,92% em abril, sendo a única faixa a registrar aceleração no período.
- Alívio no topo: Para os domicílios de renda alta, com rendimento mensal superior a R$ 22.998,22, a taxa despencou de 0,85% para 0,24%, beneficiada pela queda nos transportes.
- Vilões do mês: Reajustes expressivos na conta de energia elétrica, produtos farmacêuticos e alimentos essenciais na cesta de consumo, como o leite, que saltou 13,7%, castigaram o orçamento de quem ganha menos.
O cenário inflacionário brasileiro mostrou duas realidades opostas em abril de 2026. A inflação desacelerou para quase todas as faixas de renda, com exceção das famílias de renda muito baixa. Os dados foram divulgadosna última sexta-feira (15/05) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), por meio do Indicador de Inflação por Faixa de Renda.
De acordo com o indicador, a taxa das famílias de renda muito baixa, cujo ganho mensal é menor que R$ 2.299,82, avançou de 0,85% em março para 0,92% em abril. No extremo oposto, entre as famílias de renda mais alta, com rendimentos superiores a R$ 22.998,22 por mês, o índice recuou de 0,85% para 0,24% no mesmo período.
O que explica o alívio para uns e o aperto para outros?
Mesmo diante da alta menos intensa dos alimentos no domicílio, os reajustes mais fortes dos preços da energia elétrica e dos produtos farmacêuticos em abril foram os responsáveis pela aceleração inflacionária das famílias de renda muito baixa.
Por outro lado, a melhora do comportamento do grupo transportes explica o alívio inflacionário das demais faixas de renda, sobretudo com os aumentos menos expressivos dos combustíveis e das deflações das tarifas de ônibus urbano, dos transportes por aplicativo e das passagens aéreas. Para os estratos mais ricos, pesaram favoravelmente as quedas expressivas das tarifas aéreas (-14,5%) e dos veículos de aplicativo (-2,2%), gerando um importante alívio no fechamento do mês.
Alimentos e saúde continuam pressionando o índice
As principais pressões inflacionárias de abril vieram dos grupos “alimentos e bebidas” e “saúde e cuidados pessoais”. No primeiro grupo, os grandes destaques negativos ficaram por conta de reajustes em itens indispensáveis na mesa do consumidor:
- Leite: 13,7%
- Batata: 6,6%
- Feijão carioca: 3,5%
- Arroz: 2,5%
- Ovos: 1,7%
- Carnes: 1,6%
Já no grupo de saúde, a pressão sobre o orçamento veio diretamente da alta dos produtos farmacêuticos (1,8%) e dos artigos de higiene (1,6%), somados aos reajustes dos serviços médicos (1,0%).
Comparativo anual aponta maior peso para baixa renda
Ao fazer uma comparação com abril de 2025, percebe-se que, embora todas as faixas de renda tenham registrado aceleração da inflação corrente, a alta de preços foi mais forte para as classes com menor poder aquisitivo.
Esse fenômeno é explicado pelo desempenho menos favorável dos alimentos no domicílio, que registraram alta de 1,6% em 2026 contra 0,83% em 2025. Além disso, a alta da tarifa de energia elétrica (0,72%) e dos combustíveis (1,8%) neste ano, comparativamente às deflações registradas no ano anterior, que foram de -0,08% e -4,5%, respectivamente, explicam grande parte da pressão inflacionária atual.
O paradoxo do acumulado no ano e em 12 meses
Com a incorporação dos dados de abril, o acumulado do ano mostra que a classe de renda baixa é a que apresenta a maior taxa de inflação (2,66%), enquanto a faixa de renda alta tem a menor taxa no período (2,44%).
No acumulado em 12 meses, no entanto, ocorre uma inversão: as famílias de renda muito baixa seguem sendo as com menor variação inflacionária (3,83%), enquanto os domicílios de renda alta possuem a maior taxa (4,95%).
Histórico recente: a trajetória vinda de fevereiro
A dinâmica atual contrasta com o movimento observado no início do ano. Segundo a Nota de Conjuntura 17 (integrante da Carta de Conjuntura Número 70 do Ipea), elaborada pela especialista Maria Andreia Parente Lameiras, em fevereiro todas as classes de renda haviam registrado aceleração inflacionária em relação a janeiro. Naquele momento, porém, o movimento foi mais intenso justamente entre as famílias de renda mais elevada.
Enquanto a inflação das famílias de renda muito baixa havia passado de 0,31% em janeiro para 0,50% em fevereiro, a taxa do segmento de renda alta havia avançado de 0,18% para 1,15%. Em fevereiro, os grandes vilões dos mais ricos foram os reajustes das mensalidades escolares (6,2%) e das passagens aéreas (11,4%), enquanto as classes mais baixas já sofriam com os alimentos no domicílio, produtos farmacêuticos e tarifas de energia elétrica.