[Foto: Ilustrativa/ Google AI]
- Tragédia a bordo: Três passageiros faleceram nas últimas semanas e um está na UTI em estado crítico com hantavírus confirmado.
- Impasse diplomático: Autoridades de Cabo Verde ainda não liberaram o desembarque de dois tripulantes com sintomas respiratórios agudos.
- Mobilização da OMS: Organização liberou fundos de emergência e articula repatriação para a Holanda ou desvio para as Ilhas Canárias.
Um cenário de emergência sanitária e diplomática se desenrola no Oceano Atlântico. O navio de cruzeiro m/v Hondius, operado pela Oceanwide Expeditions, encontra-se retido na costa de Cabo Verde após o registro de três mortes e a confirmação de um caso de infecção por uma variante do hantavírus.
A bordo, 149 pessoas (88 passageiros e 61 tripulantes) de 23 nacionalidades aguardam um desfecho enquanto a embarcação opera sob protocolos rígidos de isolamento e higiene. O impasse se agravou porque as autoridades cabo-verdianas ainda não autorizaram o desembarque ou a evacuação de dois tripulantes que apresentam sintomas respiratórios agudos.
Raio-X: Ocupantes do navio m/v Hondius
| Nacionalidade | Passageiros | Equipe (Tripulação) |
|---|---|---|
| Espanha | 13 | 1 |
| França | 5 | – |
| Alemanha | 7 * | 1 |
| Grã-Bretanha | 19 | 4 |
| Canadá | 4 | – |
| Austrália | 4 | – |
| EUA | 17 | – |
| Grécia | 1 | – |
| Japão | 1 | – |
| Holanda | 8 | 5 |
| Peru | 3 | – |
| Bélgica | 2 | – |
| Irlanda | 2 | – |
| Nova Zelândia | 1 | – |
| Argentina | 1 | – |
| Polônia | – | 1 |
| Rússia | – | 1 |
| Filipinas | – | 38 |
| Ucrânia | – | 5 |
| Índia | – | 2 |
| Portugal | – | 1 |
| Montenegro | – | 1 |
| Guatemala | – | 1 |
| TOTAL (149 pessoas) | 88 | 61 |
* Incluindo 1 falecido.
Em pronunciamento realizado nesta segunda-feira (04/05), em Genebra, a Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou que monitora a crise de perto. Maria Van Kerkhove, Diretora de Preparação e Prevenção de Epidemias e Pandemias da OMS, detalhou a gravidade da situação:
“A OMS está trabalhando com os países para responder aos casos de infecção por hantavírus que foram identificados em um navio de cruzeiro no Oceano Atlântico. Até o dia 4 de maio, foram relatados seis casos suspeitos. Infelizmente, três casos resultaram em óbito. Um paciente está atualmente internado em uma UTI na África do Sul, enquanto dois pacientes permanecem a bordo e serão evacuados para tratamento médico.”
A linha do tempo da crise
O alerta médico começou em meados de abril e escalou com rapidez, deixando autoridades em alerta máximo:
- 11 de abril: Um passageiro holandês faleceu a bordo. O corpo foi desembarcado em Santa Helena no dia 24 de abril, acompanhado pela esposa.
- 27 de abril: A esposa do primeiro passageiro falecido passou mal no retorno à Holanda e morreu. No mesmo dia, um passageiro britânico em estado grave foi evacuado para Joanesburgo (África do Sul), onde foi internado em uma UTI. Ele é o único caso com diagnóstico confirmado para hantavírus até o momento.
- 2 de maio: Um passageiro alemão morreu a bordo.
- Status atual: Dois tripulantes (um britânico e um holandês) estão doentes a bordo. Um apresenta sintomas leves e o outro, estado grave.
Não há confirmação oficial de que os três óbitos e os dois novos casos a bordo tenham ligação direta com o hantavírus identificado no paciente na África do Sul. “Testes laboratoriais também estão em andamento”, informou a diretora da OMS.
Impasse diplomático e tentativas de resgate
Segundo informações da Oceanwide Expeditions, apesar da urgência, a equipe de saúde de Cabo Verde que visitou o navio ainda não emitiu uma decisão sobre o desembarque dos doentes. Diante da urgência, a Holanda aceitou liderar uma repatriação internacional conjunta, mas a operação esbarra na liberação local.
A OMS e ministérios europeus auxiliam nas tratativas. “A OMS, juntamente com as autoridades de Cabo Verde e da Holanda, e os operadores do navio, estão trabalhando para evacuar as duas pessoas doentes a bordo para a Holanda para receberem atendimento médico”, explicou Maria Van Kerkhove.
Em comunicado oficial, a Oceanwide Expeditions reforçou sua posição: “A prioridade da Oceanwide Expeditions é garantir que os dois indivíduos sintomáticos a bordo recebam cuidados médicos adequados e com a maior brevidade possível”. Caso as negociações com Cabo Verde não avancem, a empresa avalia redirecionar o navio para as Ilhas Canárias (Espanha).
O drama dos passageiros
O clima no m/v Hondius mistura apreensão e esperança. O blogueiro de viagens norte-americano Jake Rosmarin, que está no navio, publicou vídeos nas redes sociais relatando a tensão:
“Não somos apenas uma história. Não somos apenas manchetes. Somos pessoas. Pessoas com famílias, com blogs, com pessoas nos esperando em casa. Há muita incerteza, e essa é a parte mais difícil. Tudo o que queremos agora é nos sentir seguros, ter clareza e voltar para casa.”
Mais tarde, buscando tranquilizar seguidores, Rosmarin elogiou a transparência da operadora: “Ainda há alguma incerteza, mas é tranquilizador saber que existe um plano em vigor (…) a Oceanwide Expeditions e toda a tripulação têm lidado com uma situação muito difícil com cuidado”.
Entenda o hantavírus
Apesar do susto, a OMS garante que, historicamente, “o risco geral para o público é baixo”. Os hantavírus são transmitidos ao homem pelo contato com urina, fezes ou saliva de roedores infectados. A transmissão de pessoa para pessoa é extremamente rara, exigindo contato muito próximo.
“Neste momento, nosso foco é tratar os pacientes e manter os demais passageiros e tripulantes seguros. Ao mesmo tempo, estamos trabalhando com as autoridades para entender a fonte de exposição por meio de investigações epidemiológicas”, concluiu Van Kerkhove, anunciando que a OMS liberou fundos de contingência para a operação.
Os hantavírus são um grupo de vírus zoonóticos transmitidos por roedores que podem causar doenças severas em humanos. De acordo com a OMS, “a infecção em pessoas pode resultar em doenças graves e, frequentemente, em morte, embora as manifestações clínicas variem de acordo com o tipo de vírus e a localização geográfica”.
Segundo a OMS, a forma como o vírus ataca o corpo humano depende muito da região onde a infecção ocorre. Nas Américas, os hantavírus causam a síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH), uma condição respiratória de rápida progressão que afeta pulmões e coração, com uma taxa de letalidade altíssima que pode chegar a até 50%. Já na Europa e na Ásia, as infecções costumam resultar em febre hemorrágica com síndrome renal (FHSR), afetando principalmente os rins e vasos sanguíneos, com letalidade variando de 1% a 15%.
A transmissão principal ocorre quando humanos entram em contato com ambientes contaminados. A OMS explica que as pessoas se infectam através do contato com “urina, fezes ou saliva contaminadas de roedores infectados”. Um detalhe crucial para a investigação do surto no navio é a forma de contágio humano: a infecção entre pessoas é extremamente rara em nível global. Segundo a entidade, “a transmissão de pessoa para pessoa foi documentada apenas para o vírus Andes nas Américas e permanece incomum”, exigindo contato próximo e prolongado entre os indivíduos.
Os sintomas iniciais costumam surgir de uma a seis semanas após a exposição ao vírus, manifestando-se inicialmente como febre, dores de cabeça e musculares, além de náuseas ou dores abdominais. No caso da variante que afeta os pulmões (SCPH), o quadro clínico “pode progredir rapidamente para tosse, falta de ar, acúmulo de líquido nos pulmões e choque”.
O grande desafio no combate à doença é a ausência de uma cura definitiva. A OMS é categórica ao afirmar que “não existe tratamento antiviral específico ou vacina licenciada para a infecção por hantavírus”. A sobrevida do paciente depende fundamentalmente de um “atendimento médico de suporte precoce”, focado no controle de complicações respiratórias e renais em unidades de terapia intensiva. A prevenção mais eficaz continua sendo evitar o contato com roedores, manter os ambientes limpos e umedecer locais possivelmente contaminados antes de realizar qualquer limpeza, evitando varrer a seco para não inalar as partículas virais.
Cronologia da Crise: Navio m/v Hondius
Um passageiro holandês faleceu a bordo. O corpo foi desembarcado em Santa Helena treze dias depois, acompanhado pela esposa.
A esposa do primeiro falecido morre ao retornar à Holanda. No mesmo dia, um passageiro britânico é evacuado em estado grave para uma UTI na África do Sul. Ele é o único caso com diagnóstico confirmado para hantavírus.
Ocorre a terceira fatalidade: um passageiro de nacionalidade alemã morre a bordo da embarcação.
Retido em Cabo Verde, o navio possui dois tripulantes (um britânico e um holandês) doentes a bordo. O impasse diplomático impede o desembarque para cuidados médicos.
Não somos apenas uma história. Não somos apenas manchetes. Somos pessoas. Pessoas com famílias, com blogs, com pessoas nos esperando em casa. Há muita incerteza, e essa é a parte mais difícil. Tudo o que queremos agora é nos sentir seguros, ter clareza e voltar para casa.
— Jake Rosmarin, Passageiro
A prioridade da Oceanwide Expeditions é garantir que os dois indivíduos sintomáticos a bordo recebam cuidados médicos adequados e com a maior brevidade possível. (…) Há um plano em vigor e a situação está sendo lidada com cuidado.
— Oceanwide Expeditions, Operadora