Luiz Inácio Lula da Silva, na ONU | Foto: Loey Felipe / UN Photo
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República neste domingo (25), ao receber 64.256.232 votos, o equivalente a 51,79% dos votos válidos, no segundo turno das Eleições 2026. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) terminou a disputa em segundo lugar, com 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%. O resultado foi anunciado pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, que destacou a participação dos eleitores, as medidas de acessibilidade ao voto e os procedimentos de fiscalização adotados durante o processo eleitoral.
A vitória de Lula marcou uma virada em relação ao primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Naquela etapa, Flávio Bolsonaro havia terminado à frente, com 47,03% dos votos, enquanto Lula registrou 45,16%. Segundo o balanço apresentado sobre a eleição, foi a primeira vez que um candidato à Presidência da República superou o adversário entre o primeiro e o segundo turno.
O resultado também ampliou o número de vitórias de Lula em eleições diretas para a Presidência. O petista já havia vencido os pleitos de 2002, 2006 e 2022. Na relação apresentada, aparecem também Dilma Rousseff, eleita em 2010 e 2014, Fernando Henrique Cardoso, vencedor em 1994 e 1998, e Rodrigues Alves, eleito em 1902 e 1918, mas que morreu antes de assumir o segundo mandato.
Abstenção cai e comparecimento aumenta
De acordo com os dados divulgados, mais de 158 milhões de eleitores estavam aptos a votar no segundo turno, dos quais 128,2 milhões compareceram às urnas. A abstenção ficou em 19,21%, abaixo dos 21,08% registrados na primeira etapa da eleição. A taxa foi apontada como a menor para um segundo turno desde 2018. Os votos brancos e nulos somaram 3,24%.
Durante o pronunciamento após a confirmação do resultado, Kassio Nunes Marques ressaltou o papel dos eleitores no processo democrático.
“Esta noite não pertence apenas às chapas eleitas. Ela pertence, sobretudo, à eleitora e ao eleitor brasileiros, principais protagonistas das eleições e os destinatários de todo o trabalho realizado pela Justiça Eleitoral”, afirmou o presidente do TSE.
O ministro também destacou a disponibilização de mais de 95 mil locais de votação em todo o território nacional, medida destinada a reduzir deslocamentos e aproximar as seções eleitorais dos cidadãos.
Analista consultado acredita que o resultado do primeiro turno pode ter motivado a queda na abstenção no segundo turno. A diferença entre as expectativas das pesquisas eleitorais divulgadas antes do primeiro turno e o resultado efetivamente registrado naquela etapa pode ter influenciado a mobilização de parte dos eleitores de Lula que não compareceram às urnas no primeiro turno. A avaliação menciona ainda manifestações estudantis e uma mobilização maior nas redes sociais como elementos que podem ter contribuído para a participação eleitoral no segundo turno. Esses fatores são apresentados como possíveis explicações para a “virada” entre as duas etapas da votação.
Transporte gratuito e prorrogação do horário de votação
Outro tema abordado pelo presidente do TSE foi a oferta de transporte coletivo gratuito nos dias de votação. Segundo o pronunciamento, a medida segue parâmetros estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1.013, e previstos na Resolução-TSE nº 23.751/2026.
Os tribunais regionais eleitorais foram orientados a fiscalizar a oferta do serviço em suas respectivas regiões. O acompanhamento também foi realizado pelo TSE e pela Corregedoria-Geral Eleitoral.
Kassio Nunes Marques afirmou que eventuais insuficiências na oferta de transporte serão apuradas pela Justiça Eleitoral, instituição responsável pela gestão do processo eleitoral.
O ministro também comentou a decisão liminar do STF que prorrogou, das 17h para as 19h, no horário de Brasília, a votação nas seções eleitorais que ainda estavam abertas. Segundo ele, a medida, comunicada após o horário originalmente previsto para o encerramento do pleito, exigiu adaptações nos sistemas e nas rotinas de apuração, além de cuidados adicionais com a segurança dos servidores e mesários.
De acordo com o relato apresentado, o pedido de ampliação do horário chegou por volta das 15h30. Na ocasião, o presidente do TSE buscou informações técnicas junto ao Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), às prefeituras envolvidas e às equipes do próprio tribunal.
O ministro afirmou que não havia norma que autorizasse a prorrogação, considerada inédita no TSE. Como a decisão foi proferida depois das 17h, milhares de urnas já haviam sido encerradas e não poderiam ser reabertas. Por esse motivo, foi necessário suspender temporariamente o recebimento dos Boletins de Urna (BUs), provocando o acúmulo de arquivos que aguardavam processamento.
Apesar das dificuldades operacionais, o presidente do tribunal destacou o trabalho das equipes técnicas para dar continuidade à apuração. Das 499.248 urnas utilizadas no segundo turno, 1.551 precisaram ser substituídas, o equivalente a 0,31% do total.
Teste de integridade termina sem divergências
A fiscalização das urnas eletrônicas também integrou os procedimentos de verificação da eleição. No domingo, duas urnas instaladas no Museu do Voto, na sede do TSE, em Brasília, foram submetidas ao Teste de Integridade, realizado em parceria com o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF).
A auditoria verifica se os votos digitados nas urnas correspondem aos registrados previamente em cédulas de papel. Os equipamentos são selecionados por sorteio e passam por uma simulação das etapas de uma votação oficial, desde a emissão da zerésima, documento que demonstra a ausência de votos registrados antes do início do procedimento, até a impressão do Boletim de Urna.
Durante o teste, foram digitados nas urnas sorteadas os votos previamente registrados em cédulas de papel por representantes dos partidos políticos. Ao final, os resultados eletrônicos foram comparados com os registros em papel.
Ao todo, 389 votos foram auditados, sem divergências entre os registros em cédulas e os resultados apresentados pelas urnas eletrônicas. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, dois equipamentos também haviam passado pelo procedimento na sede do tribunal.
Segundo Leonardo Hernandez, juiz auxiliar da Presidência do TSE, o teste é uma etapa importante para a validação do sistema eleitoral. Ele também informou que não houve impugnações registradas em ata pelos partidos políticos sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas.
A auditoria foi aberta ao acompanhamento de partidos, instituições e entidades fiscalizadoras. O procedimento também foi monitorado por câmeras durante 24 horas, com transmissão ao vivo pelo canal da Justiça Eleitoral no YouTube.
O pronunciamento do presidente do TSE ainda destacou a participação de observadores nacionais e internacionais como parte dos mecanismos de transparência e fiscalização do processo eleitoral.
Observadores de 46 países acompanharam a votação
Representantes de 46 países acompanharam diferentes etapas do segundo turno em Brasília. Ao todo, 49 participantes do Programa de Convidados Internacionais da Justiça Eleitoral visitaram seções eleitorais e acompanharam a totalização dos votos no Espaço Sepúlveda Pertence, na sede do TSE.
A programação começou com uma visita ao Museu do Voto, onde os convidados conheceram o funcionamento do Teste de Integridade. Na ocasião, Christian Oliveira, coordenador de Auditoria do TRE-DF, explicou o procedimento e apresentou o espaço utilizado para a realização da auditoria.
O primeiro-secretário da Embaixada de Timor-Leste, Eusébio Jerônimo, acompanhou uma eleição brasileira pela primeira vez e destacou a rapidez da apuração eletrônica.
“A tecnologia faz com que o resultado seja confirmado logo. É muito rápido”, afirmou.
O grupo também visitou duas seções eleitorais no Distrito Federal, onde acompanhou o encerramento da votação, a impressão dos Boletins de Urna e a transmissão dos dados criptografados por meio das mídias de resultados.
Ao comentar a observação eleitoral, Kassio Nunes Marques afirmou que a presença de instituições independentes amplia a transparência do processo e permite o intercâmbio de experiências entre a Justiça Eleitoral brasileira e organismos internacionais.
Justiça Eleitoral destaca inclusão e participação política
O presidente do TSE também ressaltou iniciativas voltadas à ampliação da participação política de grupos historicamente sub-representados. Entre os públicos mencionados estão mulheres, pessoas negras, povos indígenas, comunidades quilombolas, comunidades tradicionais e pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.
Segundo o ministro, as Eleições 2026 representam um marco na forma como a Justiça Eleitoral organiza seus serviços e se relaciona com a sociedade.
“Realizamos as eleições mais inclusivas da história da República brasileira”, declarou.
Entre as medidas citadas estão o aperfeiçoamento dos mecanismos de incentivo à participação política, a destinação mínima de recursos públicos para candidaturas femininas e negras e ações específicas de promoção das candidaturas indígenas.
O ministro também mencionou o programa Seu Voto Importa, criado como parte dos esforços para ampliar o acesso ao exercício do direito de voto.
Ao encerrar o pronunciamento, Kassio Nunes Marques agradeceu aos ministros do TSE, integrantes do Ministério Público Eleitoral, magistrados, servidores da Justiça Eleitoral, mesários, colaboradores, voluntários, forças de segurança, órgãos públicos, instituições parceiras, partidos políticos, candidaturas, imprensa e entidades fiscalizadoras.
Presidentes do Senado e da Câmara defendem pacificação
Após a confirmação da vitória de Lula, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, reconheceram o resultado e defenderam o diálogo entre as instituições e a pacificação do país.
Em declaração na residência oficial do Senado, ao lado de Motta, Alcolumbre afirmou que o Poder Legislativo respeita a decisão dos eleitores e continuará à disposição para atender às demandas da sociedade brasileira.
O senador parabenizou Lula pela reeleição e cumprimentou Flávio Bolsonaro pela participação na disputa. Para ele, o debate entre candidatos com ideias e propostas diferentes é uma característica fundamental da democracia.
Alcolumbre também destacou a diferença superior a quatro milhões de votos entre os dois candidatos e afirmou que o resultado representa a decisão majoritária dos eleitores pela continuidade do governo.
Segundo o presidente do Senado, ele e Hugo Motta telefonaram para Lula e para o vice-presidente Geraldo Alckmin após a confirmação do resultado, com o objetivo de cumprimentá-los pela vitória e desejar sucesso no novo mandato.
Alcolumbre defendeu que o encerramento da disputa seja acompanhado de um esforço de união nacional. Em sua avaliação, a divisão política prejudica a população, as instituições republicanas e o futuro do país.
“Passou a eleição. O presidente eleito tem que governar para os 215 milhões de brasileiros que vivem no Brasil e que precisam das respostas do Estado”, declarou.
Hugo Motta também parabenizou Lula pela reeleição e afirmou que o resultado abre uma oportunidade para buscar a conciliação nacional. Em manifestação nas redes sociais, o presidente da Câmara destacou a soberania popular e desejou serenidade e equilíbrio na condução do país nos próximos quatro anos.
“A democracia é soberana. O povo é soberano e, através das urnas, fez a sua escolha. Parabenizo o presidente Lula pela reeleição e desejo serenidade e equilíbrio na condução do país nos próximos quatro anos”, afirmou.
Motta acrescentou que pretende manter sua atuação à frente da Câmara pautada pela moderação, pelo diálogo e pela harmonia institucional, respeitando a independência entre os Poderes e buscando consenso para o andamento de projetos prioritários.
Em pronunciamento ao lado de Alcolumbre, o presidente da Câmara também afirmou que o Brasil atravessa um período de divisão política e radicalização e que a reeleição representa uma oportunidade para Lula buscar a conciliação.
O deputado destacou ainda a rapidez da apuração e classificou o sistema eleitoral brasileiro como motivo de orgulho para o país e exemplo para o mundo.
Com a confirmação do resultado, as manifestações das duas Casas legislativas enfatizaram a necessidade de diálogo institucional e de atenção às demandas apresentadas pela sociedade durante o processo eleitoral.
