[Foto: Rodrigo Nunes / MS]
Avanço rápido: O Rio de Janeiro registrou 395 casos de caxumba no 1º trimestre de 2026, contra 210 no mesmo período do ano passado. Crianças de 1 a 9 anos são as mais afetadas.
Alerta nos postos: A cobertura da segunda dose da vacina no estado é de apenas 70%, muito abaixo da meta de 95% exigida pelo Ministério da Saúde, deixando milhares desprotegidos.
Risco invisível: Apesar de parecer uma doença simples de infância, a caxumba pode evoluir para complicações graves e irreversíveis, como meningite viral, surdez neurosensorial e inflamações em órgãos reprodutores.
A Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) emitiu um alerta aos pais e responsáveis: os casos de caxumba estão crescendo significativamente em todo o estado, impulsionados pela queda na cobertura vacinal. As crianças e adolescentes são os mais atingidos pela infecção, que, embora muitas vezes benigna, pode causar complicações graves como meningite e surdez.
Dados recentes da Gerência de Doenças Imunopreveníveis da SES-RJ revelam um cenário preocupante. No primeiro trimestre de 2026, o estado registrou 395 casos da doença, um salto expressivo em comparação aos 210 casos contabilizados nos três primeiros meses de 2025.
O público infantil é o alvo principal do vírus neste momento. Mais da metade dos infectados têm menos de nove anos de idade: 37% das vítimas estão na faixa etária de cinco a nove anos, e 26% têm entre um e quatro anos. Apesar do aumento expressivo, as autoridades reforçam que ainda não há registro de surtos generalizados ou óbitos causados pela doença no estado.
Baixa vacinação
A proteção contra a caxumba é altamente eficaz e está disponível gratuitamente em todos os postos de imunização através do Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, o Rio de Janeiro não tem atingido a meta estabelecida pelo Ministério da Saúde, que é de vacinar 95% do público-alvo.
Atualmente, o estado registra uma cobertura de apenas 85,62% para a primeira dose (D1) e preocupantes 70,03% para a segunda dose (D2). De acordo com o Sistema de Informação de Insumos Estratégicos (SIES), 193.500 doses da vacina Tríplice Viral foram distribuídas no Rio de Janeiro nos últimos seis meses. Municípios como Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, São Gonçalo e Belford Roxo estão sob atenção prioritária.
O subsecretário de Vigilância e Atenção Primária à Saúde, Mário Sérgio Ribeiro, foi categórico sobre o motivo do aumento das infecções:
“O sistema de monitoramento da Secretaria identificou uma elevação significativa de casos de caxumba. Isso indica que os responsáveis não estão levando as crianças para vacinar. A doença ainda está ativa e a vacina, que está disponível nos postos, é a única forma de prevenção contra a doença.”
O que é a caxumba e como ela é transmitida?
De acordo com a definição do Ministério da Saúde:
“A caxumba é uma infecção viral aguda e contagiosa. Pode atingir qualquer tecido glandular e nervoso do corpo humano, mas é mais comum afetar as glândulas parótidas, que produzem a saliva, ou as submandibulares e sublinguais, próximas ao ouvido. A caxumba, também conhecida como Papeira, é uma doença de distribuição universal, de alta morbidade e baixa letalidade, aparecendo sob a forma endêmica ou surtos.”
A transmissão do paramixovírus, causador da doença, ocorre por vias aéreas (através de gotículas de saliva ao falar, tossir ou espirrar) ou pelo contato direto com a saliva de pessoas infectadas. O contágio indireto, por objetos contaminados, é menos frequente, mas possível.
O período de incubação varia de 12 a 25 dias (com média de 16 a 18 dias). A transmissibilidade é alta: o paciente pode passar o vírus de 6 a 7 dias antes de apresentar qualquer sintoma até 9 dias depois. O vírus pode, inclusive, ser detectado na urina por até 14 dias após o início do quadro.
Sintomas e complicações graves
Os sintomas mais clássicos da caxumba incluem o inchaço e a dor nas glândulas salivares (rosto inchado), febre, dor de cabeça, dor ao mastigar e engolir, fadiga e perda de apetite. Vale ressaltar que cerca de 30% das infecções não apresentam o aumento aparente das glândulas, e um terço dos casos pode ser totalmente assintomático.
Embora comum na infância, a caxumba adquire maior gravidade a partir da adolescência e na vida adulta. Entre as complicações possíveis estão:
- Em homens e meninos: Orquite (inflamação nos testículos) e epididimo-orquite.
- Em mulheres: Mastite (infecção do tecido mamário).
- Em gestantes: A ocorrência no primeiro trimestre pode causar aborto espontâneo.
- Crianças menores de 5 anos: Sintomas respiratórios e perda neurosensorial da audição (surdez).
- Geral: Meningite viral, encefalite e pancreatite.
Tratamento e diagnóstico
O diagnóstico é clínico, baseado na avaliação médica das glândulas, podendo ser confirmado através de exame de sangue para detectar anticorpos contra o paramixovírus.
Como se trata de uma virose, o tratamento combate apenas os sintomas. Recomenda-se repouso, medicamentos para febre e dor, hidratação e boa higiene bucal. O paciente deve evitar alimentos ácidos, que podem piorar a dor e causar náuseas e vômitos. Casos com complicações como meningite ou encefalite exigem cuidados específicos e observação rigorosa. Uma vez curada, a pessoa adquire imunidade vitalícia contra o vírus.
Como garantir a proteção?
A imunização é a única barreira real. Como reforça o Ministério da Saúde:
“A vacina tríplice viral protege contra três doenças infectocontagiosas: sarampo, caxumba e rubéola. Essas doenças podem causar complicações graves e até levar à morte, principalmente em crianças e pessoas com a saúde mais vulnerável. A vacinação é a forma mais eficaz de prevenção e está disponível gratuitamente nas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS).”
Esquema vacinal recomendado:
- Aos 12 meses: 1ª dose (Tríplice Viral).
- Aos 15 meses: 2ª dose (Tetraviral – inclui proteção contra a varicela/catapora).
- 5 a 29 anos: Duas doses (caso não vacinados na infância).
- 30 a 59 anos: Uma dose (se não houver comprovação vacinal).
- Profissionais de Saúde: Duas doses, independentemente da idade.
O Ministério da Saúde reforça que a vacina é segura e tem vírus vivo atenuado. As contraindicações principais são para gestantes, crianças menores de 6 meses, pessoas com imunossupressão grave e indivíduos com histórico de reação alérgica grave a componentes como neomicina. Mulheres em idade fértil devem evitar engravidar por um mês após receber o imunizante.
Perguntas e Respostas: Caxumba no Rio de Janeiro
O termômetro da vacinação no Rio: disparidade entre os municípios
O panorama da vacinação contra a caxumba, sarampo e rubéola nos municípios do Rio de Janeiro revela cenários de forte disparidade e acende um alerta para as autoridades de saúde. Para facilitar o monitoramento e a adoção rápida de políticas públicas em áreas vulneráveis, o Ministério da Saúde classifica o índice de cobertura vacinal em um sistema de cores:
- Vermelho: 0% a 20% (Alerta crítico)
- Rosa: 21% a 40% (Alerta máximo)
- Laranja: 41% a 60% (Atenção moderada)
- Amarelo: 61% a 80% (Atenção)
- Verde: Acima de 80% (Avanço significativo)
- Azul: Meta ótima (Para municípios que atingem ou ultrapassam a meta governamental de 95%)
Enquanto o estado do Rio de Janeiro apresenta uma média geral de 85,62% (Verde) de cobertura na primeira dose (D1) e 70,03% (Amarelo) na segunda dose (D2), a realidade fragmentada de cada cidade mostra que a exposição infantil ao vírus é severa em algumas regiões.
Municípios como Santa Maria Madalena (200%), Varre-Sai (173,68%) e Mendes (156,52%) apresentam índices que ultrapassam a marca dos 100% e atingem a “Meta Ótima” (Azul). Em contrapartida, cidades como São Sebastião do Alto (com alarmantes 25% na primeira dose) caem na classificação Rosa, enquanto Angra dos Reis (50,39%) e Belford Roxo (59,56%) amargam a faixa Laranja, preocupando pela baixíssima adesão inicial das famílias aos postos de saúde.
Outro gargalo evidente é o abandono vacinal na hora do reforço. A capital do estado alcança 91,76% de cobertura na primeira aplicação, mas perde o fôlego e cai para 80,77% na segunda. O cenário de queda na imunização completa se repete de forma ainda mais drástica em locais como Japeri, que atinge 102,13% na D1, mas despenca para a zona Laranja com apenas 49,47% na D2, deixando milhares de crianças desprotegidas contra as complicações do paramixovírus.
| Município | 1ª Dose (D1) | 2ª Dose (D2) |
|---|---|---|
| ESTADO DO RIO DE JANEIRO (TOTAL) | 85,62% | 70,03% |
| Angra dos Reis | 50,39% | 43,60% |
| Aperibé | 90,48% | 66,67% |
| Araruama | 92,65% | 81,22% |
| Areal | 100,00% | 109,52% |
| Armação dos Búzios | 84,40% | 61,47% |
| Arraial do Cabo | 86,49% | 67,57% |
| Barra do Piraí | 84,31% | 71,90% |
| Barra Mansa | 100,00% | 60,44% |
| Belford Roxo | 59,56% | 43,33% |
| Bom Jardim | 65,45% | 76,36% |
| Bom Jesus do Itabapoana | 89,61% | 58,44% |
| Cabo Frio | 75,82% | 52,94% |
| Cachoeiras de Macacu | 76,92% | 64,96% |
| Cambuci | 89,47% | 94,74% |
| Carapebus | 68,18% | 50,00% |
| Cardoso Moreira | 63,64% | 77,27% |
| Carmo | 123,08% | 88,46% |
| Casimiro de Abreu | 114,47% | 81,58% |
| Comendador Levy Gasparian | 153,85% | 69,23% |
| Campos dos Goytacazes | 80,48% | 64,49% |
| Cantagalo | 100,00% | 81,58% |
| Conceição de Macabu | 81,82% | 78,79% |
| Cordeiro | 82,86% | 82,86% |
| Duas Barras | 100,00% | 54,55% |
| Duque de Caxias | 82,12% | 59,57% |
| Engenheiro Paulo de Frontin | 131,25% | 93,75% |
| Guapimirim | 77,39% | 74,78% |
| Iguaba Grande | 103,92% | 92,16% |
| Itaboraí | 77,11% | 70,19% |
| Itaguaí | 104,63% | 83,40% |
| Italva | 87,50% | 66,67% |
| Itaocara | 116,67% | 111,11% |
| Itaperuna | 70,39% | 62,57% |
| Itatiaia | 76,39% | 43,06% |
| Japeri | 102,13% | 49,47% |
| Laje do Muriaé | 60,00% | 55,00% |
| Macaé | 94,02% | 85,71% |
| Macuco | 155,56% | 144,44% |
| Magé | 75,45% | 52,50% |
| Mangaratiba | 119,67% | 52,50% |
| Maricá | 84,39% | 58,47% |
| Mendes | 156,52% | 73,91% |
| Mesquita | 108,51% | 86,88% |
| Miguel Pereira | 93,33% | 73,33% |
| Miracema | 86,54% | 61,54% |
| Natividade | 119,23% | 123,08% |
| Nilópolis | 89,39% | 59,60% |
| Niterói | 88,99% | 82,95% |
| Nova Friburgo | 83,84% | 70,73% |
| Nova Iguaçu | 74,37% | 52,27% |
| Paracambi | 59,42% | 63,77% |
| Paraíba do Sul | 104,29% | 88,57% |
| Paraty | 58,00% | 45,00% |
| Paty do Alferes | 119,30% | 84,21% |
| Petrópolis | 70,95% | 64,79% |
| Pinheiral | 103,45% | 110,34% |
| Piraí | 78,18% | 60,00% |
| Porciúncula | 76,18% | 47,06% |
| Porto Real | 137,04% | 122,22% |
| Quatis | 59,26% | 44,44% |
| Queimados | 67,01% | 49,31% |
| Quissamã | 112,50% | 100,00% |
| Resende | 97,96% | 75,51% |
| Rio Bonito | 85,47% | 67,52% |
| Rio Claro | 108,70% | 113,04% |
| Rio das Flores | 80,00% | 113,33% |
| Rio das Ostras | 71,06% | 61,17% |
| Rio de Janeiro | 91,76% | 80,77% |
| Santa Maria Madalena | 200,00% | 150,00% |
| Santo Antônio de Pádua | 82,05% | 62,82% |
| São Fidélis | 115,69% | 100,00% |
| São Francisco do Itabapoana | 87,37% | 71,58% |
| São Gonçalo | 81,14% | 58,26% |
| São João da Barra | 83,91% | 72,41% |
| São João de Meriti | 69,96% | 47,00% |
| São José de Ubá | 66,60% | 44,44% |
| São José do Vale do Rio Preto | 111,36% | 77,27% |
| São Pedro da Aldeia | 88,84% | 74,25% |
| São Sebastião do Alto | 25,00% | 37,50% |
| Sapucaia | 93,75% | 71,88% |
| Saquarema | 106,95% | 83,42% |
| Seropédica | 76,07% | 68,10% |
| Silva Jardim | 153,33% | 63,33% |
| Sumidouro | 108,82% | 94,12% |
| Tanguá | 105,36% | 85,71% |
| Teresópolis | 89,79% | 70,57% |
| Trajano de Moraes | 71,43% | 35,71% |
| Três Rios | 86,90% | 60,69% |
| Valença | 103,57% | 74,11% |
| Varre-Sai | 173,68% | 147,37% |
| Vassouras | 76,00% | 70,67% |
| Volta Redonda | 99,75% | 94,51% |
*Com informações de SES-RJ e Ministério da Saúde