[Foto: Richard Souza / GE]
- O Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024, motivando a criação do Centro Nacional de Estudos de Sinistros de Trânsito (Cnest) nesta terça-feira (19/05).
- Inspirado no modelo aeronáutico do Cenipa, o novo centro contará com equipes multidisciplinares para investigar a fundo os sinistros graves e adotar a “Visão Zero”, onde nenhuma morte é aceitável.
- Acidentes de trânsito geram um impacto econômico de R$ 310 bilhões por ano (3,8% do PIB) e causaram um aumento de 49% nas internações hospitalares na última década.
Com o registro de 37.150 mortes nas vias brasileiras apenas em 2024, de acordo com dados do DataSUS, Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), o Ministério dos Transportes anunciou nesta terça-feira (19/05) a criação do Centro Nacional de Estudos de Sinistros de Trânsito (Cnest). O objetivo da nova instituição é qualificar a análise de ocorrências graves de relevância nacional e construir medidas rigorosas para reduzir mortes e lesões no país.
O modelo de atuação do Cnest será espelhado no Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), consagrado pela excelência na análise técnica da aviação. A ideia é transferir essa metodologia investigativa para o asfalto, identificando fatores contribuintes para evitar que as tragédias se repitam.
“Precisamos ter dados, evidências e conhecimento acumulado para construir políticas públicas mais eficazes de prevenção e segurança viária. Esse é o objetivo do Cnest. O Brasil ficou um longo período sem investimentos adequados em manutenção rodoviária e agora queremos compreender, de forma mais ampla, os fatores que contribuem para os sinistros, desde a infraestrutura até aspectos humanos e comportamentais”, declarou o ministro dos Transportes, George Santoro.
A necessidade de antecipar o perigo também foi destacada pelo chefe do Cenipa, o brigadeiro Alexandre Leal, que aponta o caminho tecnológico e estatístico como saída para a crise nas rodovias: “Enquanto sociedade, temos o dever de aprender com cada acidente para entregar mais segurança à população. Além de compreender os eventos já ocorridos, é fundamental investir em prevenção proativa e preditiva, com estudos estatísticos capazes de identificar tendências e riscos antes que novos sinistros aconteçam”.
O Impacto bilionário e na saúde pública
Além da incalculável perda de vidas, a violência no trânsito representa um dreno massivo para a economia e a saúde do Brasil. O Banco Mundial estima que os custos vinculados a essas ocorrências atingem a cifra de R$ 310 bilhões anuais, o que compromete cerca de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
O sistema de saúde também sente o peso das colisões. Dados cruzados entre o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) revelam um salto assustador de 49% no número de internações hospitalares ligadas a sinistros de trânsito no período compreendido entre 2012 e 2024.
O evento de lançamento contou com presenças de peso do setor, como o secretário-executivo do Ministério dos Transportes, Bruno Praxedes; o diretor-presidente da Infra S.A., Jorge Bastos; e o presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Vander Costa.
Como vai funcionar o Cnest: Análise multidisciplinar
A estrutura do Cnest contará com uma equipe técnica multidisciplinar reunindo especialistas em segurança viária, perícia, engenharia veicular, infraestrutura viária e comportamental. Os casos serão selecionados criteriosamente para garantir que o esforço se concentre onde há maior necessidade de aprendizado e prevenção.
“O centro terá um filtro metodológico para selecionar ocorrências graves, com vítimas e maior complexidade, para permitir análises técnicas aprofundadas e direcionadas à prevenção. Vamos analisar fatores relacionados à engenharia viária, engenharia veicular, comportamento humano e condições ambientais para produzir relatórios técnicos baseados em evidências”, detalhou Maria Alice Nascimento Souza, diretora do Departamento de Segurança no Trânsito da Senatran.
Visão Zero e Sistemas Seguros
A iniciativa atua em total integração com o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), com a ambiciosa meta de reduzir os acidentes até 2030, fundamentada nos pilares globais de Sistema Seguro e Visão Zero.
A Visão Zero estabelece uma premissa clara: nenhuma morte no trânsito é aceitável, colocando a vida humana como prioridade absoluta. Isso significa que o sistema de mobilidade deve ser projetado para minimizar a gravidade de qualquer colisão.
Já a abordagem do Sistema Seguro entende que a segurança viária resulta da interação complexa de várias peças: leis, instituições, uso do solo, infraestrutura, veículos e usuários. Ao contrário das abordagens tradicionais, o Sistema Seguro divide a responsabilidade: as autoridades devem projetar vias que considerem que o ser humano comete falhas, enquanto os usuários têm o dever de respeitar a legislação. Essa mudança de paradigma gera impactos paralelos positivos, como melhora na saúde pública, na qualidade do ar e na sustentabilidade ambiental.
Próximos Passos
Com a publicação da portaria que cria o Cnest, o governo focará na estruturação do órgão. Em breve, serão nomeados o diretor e o coordenador do centro, e será montado o grupo técnico, que incluirá representantes de ministérios, especialistas, órgãos públicos e sociedade civil. Além disso, as equipes finalizarão o regimento interno e a metodologia técnico-científica que guiará as investigações pelo Brasil.
FAQ – Criação do Cnest e Segurança Viária
| Pergunta | Resposta |
|---|---|
| O que é o Cnest? | O Centro Nacional de Estudos de Sinistros de Trânsito (Cnest) é um órgão criado para estudar sinistros graves no Brasil e criar medidas de prevenção de mortes e lesões viárias. |
| Quantas pessoas morreram no trânsito em 2024? | O Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024, de acordo com dados do DataSUS, PRF e Senatran. |
| O que é a “Visão Zero”? | É um conceito que define que nenhuma morte no trânsito é aceitável, estabelecendo que o sistema de mobilidade deve ser feito para minimizar a gravidade em caso de acidentes. |
| Qual o impacto financeiro dos acidentes no Brasil? | Segundo o Banco Mundial, as ocorrências geram um custo de R$ 310 bilhões por ano, o que equivale a cerca de 3,8% do PIB brasileiro. |
| Quais são os próximos passos do Cnest? | A definição do diretor, coordenador e grupo técnico, além do desenvolvimento do regimento interno e da metodologia científica para a análise dos casos. |
*Com informações de Ministério dos Transportes