[Foto: Ilustrativa / LensGO]
O avanço do sarampo nas Américas acende um alerta vermelho para o sistema de saúde brasileiro. A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) confirmou, nesta terça-feira (28/04), o segundo caso importado da doença no município, o que representa o terceiro registro confirmado em território nacional apenas em 2026. O novo paciente é um homem de 42 anos, residente na Guatemala e com histórico de vacinação, cujo caso foi confirmado por exames laboratoriais este mês após notificação no final de março.
Este novo diagnóstico em São Paulo soma-se a outros dois registros ocorridos este ano: uma criança de seis meses na zona norte paulistana, com histórico de viagem à Bolívia, e uma mulher de 22 anos no Rio de Janeiro, funcionária de um hotel, que não possuía registro de vacinação.
Bloqueio vacinal e investigação no Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, a confirmação do caso ocorrida desencadeou uma operação de emergência. Equipes de saúde iniciaram o bloqueio vacinal na residência da paciente, no local de trabalho e no serviço de saúde onde houve o primeiro atendimento. O objetivo é conter a disseminação do vírus em áreas de grande circulação de turistas e profissionais. Uma varredura técnica minuciosa segue em curso no entorno da moradia da paciente para identificar novos casos suspeitos.
Cenário nacional e internacional
Apesar do surgimento desses três casos, as autoridades de saúde reforçam que a situação epidemiológica do país permanece estável. Segundo o Ministério da Saúde, “o Brasil segue livre da circulação endêmica do sarampo e mantém esse cenário mesmo após a perda da certificação regional das Américas, em razão de surtos em países como Estados Unidos, Canadá e México”.
A eficiência do sistema de vigilância é comprovada pelos dados de 2025, quando o país interrompeu a transmissão de todos os 38 casos importados registrados. Entretanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o contágio nas Américas cresceu 32 vezes na comparação entre 2024 e 2025, o que exige atenção máxima.
Sintomas e Transmissão: O perigo do ar
O sarampo é uma doença infecciosa grave e altamente contagiosa. A transmissão ocorre por via aérea através de gotículas expelidas ao tossir, falar ou espirrar. Segundo dados técnicos, nove em cada dez pessoas suscetíveis podem desenvolver a doença se expostas ao vírus.
Os sinais clínicos incluem:
- Febre alta, mal-estar e perda de apetite;
- Coriza, tosse e conjuntivite;
- Manchas de Koplik: pequenas elevações brancas no interior da boca;
- Erupções avermelhadas na pele e coceira intensa.
O Ministério da Saúde alerta que o período de transmissão pode ocorrer entre seis dias antes e quatro dias após o aparecimento das manchas vermelhas.
Prevenção: Quem deve se vacinar?
A vacinação é considerada a única forma de evitar complicações que podem levar à morte. O Governo de São Paulo disponibiliza o portal Vacina 100 Dúvidas para esclarecer a população. Confira o esquema vacinal:
- Crianças: 1ª dose aos 12 meses (tríplice viral) e 2ª dose aos 15 meses (tetra viral).
- 5 a 29 anos: Duas doses da vacina (intervalo de 30 dias).
- 30 a 59 anos: Uma dose da vacina tríplice viral.
- Trabalhadores da saúde: Devem comprovar duas doses, independentemente da idade.
A transmissão ocorre pelo ar, através de gotículas respiratórias expelidas ao falar, tossir ou espirrar. Uma única pessoa pode infectar até 90% dos contatos não imunes ao seu redor.
Ao notar febre, manchas vermelhas no corpo e pontos brancos na boca (Koplik), procure imediatamente uma unidade de saúde e informe sobre o contato com casos suspeitos.
É uma vacinação de emergência realizada em pessoas que frequentam os mesmos locais da paciente (casa e trabalho) para “bloquear” o vírus e impedir um surto.
Sim. Quem tem até 29 anos precisa de duas doses comprovadas. Pessoas entre 30 e 59 anos devem ter pelo menos uma dose registrada na caderneta.
Copa do Mundo 2026 acende alerta vermelho para o sarampo no Brasil
O risco de um novo surto ganha contornos ainda mais preocupantes com a proximidade da Copa do Mundo da FIFA 2026™, agendada para ocorrer entre 11 de junho e 19 de julho na América do Norte. O Ministério da Saúde, por intermédio do Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI) e da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), emitiu uma Nota Técnica Conjunta advertindo sobre o “risco iminente de reintrodução e disseminação do sarampo em território nacional”.
A grande preocupação das autoridades sanitárias é o intenso fluxo internacional de milhões de torcedores rumo aos Estados Unidos, México e Canadá. Esses três países-sede enfrentam atualmente surtos ativos e transmissão contínua do vírus. Como o sarampo é altamente contagioso e transmitido pelo ar (ao falar, tossir ou espirrar), os grandes eventos de massa representam o cenário perfeito para a rápida propagação da doença.
Colapso sanitário: Américas perdem status de área livre da doença
O cenário detalhado pelo governo brasileiro expõe uma grave crise epidemiológica global. Em 2025, o mundo registrou 248.394 casos confirmados da infecção. Esse agravamento resultou em um duro golpe em novembro do ano passado: a Região das Américas perdeu o status de zona livre de transmissão endêmica, e o risco regional foi elevado para a categoria “Muito Alto”.
Os dados dos anfitriões do mundial evidenciam o tamanho do problema:
- Canadá: Perdeu a certificação após registrar 5.062 casos em 2025. Em 2026, já contabiliza 124 infecções e segue como área de circulação endêmica.
- México: Viveu uma explosão alarmante de contágios, saltando de apenas 7 casos em 2024 para 6.152 em 2025. Dados preliminares indicam 1.190 novos registros apenas no primeiro mês de 2026.
- Estados Unidos: Notificaram 2.144 casos no ano passado e já somam 721 diagnósticos positivos em janeiro de 2026.
Falhas na vacinação ameaçam proteção do Brasil
Embora o Brasil tenha reconquistado o status de país livre da circulação endêmica em 2024, bolsões de pessoas não vacinadas colocam essa conquista em xeque. A Nota Técnica revela um dado alarmante: dos 38 casos confirmados no país em 2025, 94,7% (36 pessoas) não possuíam histórico vacinal. A esmagadora maioria teve origem externa, sendo 10 casos importados e 25 relacionados à importação. O início de 2026 segue a mesma tendência, com confirmações em indivíduos não imunizados, como o bebê em São Paulo e a jovem no Rio de Janeiro.
O principal gargalo está nas metas de imunização. Em 2025, a cobertura da primeira dose (D1) da tríplice viral chegou a 92,66% (perto da meta de 95%), mas com distribuição desigual, atingindo o índice ideal em apenas 3.596 municípios. A situação da segunda dose (D2) é ainda mais crítica: cobertura nacional de apenas 78,02%, com a meta alcançada em escassas 1.963 cidades.
Vai viajar? Confira o cronograma de vacinação exigido
Para blindar o país, o Ministério da Saúde define a vacinação prévia como “a medida de proteção mais efetiva”. As vacinas tríplice e tetraviral estão disponíveis gratuitamente no SUS, mas exigem planejamento dos viajantes:
- Bebês (6 a 11 meses e 29 dias): Exige-se uma “Dose Zero” aplicada pelo menos 15 dias antes do embarque, tempo necessário para a produção de anticorpos (soroconversão).
- Pessoas de 12 meses a 29 anos: Necessitam de duas doses com intervalo de 30 dias. Para quem nunca se vacinou, a primeira dose deve ser aplicada 45 dias antes da viagem, permitindo a administração da segunda dose em tempo hábil.
- Adultos de 30 a 59 anos: O esquema requer apenas uma dose, que deve ser garantida no mínimo 15 dias antes do voo.
Mesmo que o turista perca o prazo ideal estipulado, a orientação oficial é categórica: o viajante deve receber ao menos uma dose antes de sair do país, ainda que seja no próprio dia do embarque.
Barreira sanitária e orientações no retorno
Para conter o avanço, a Nota Técnica orienta que as Secretarias de Saúde montem barreiras sanitárias e informativas. As ações incluem a busca ativa por meio de vacinação extra muro (fora dos postos tradicionais) para alcançar turistas e a notificação imediata (em até 24 horas) de qualquer caso suspeito de doença exantemática (que causa manchas na pele). O governo também exige que o atendimento aos turistas e comunidades ocorra sem estigmatização ou xenofobia.
Aos viajantes que já estão no exterior ou acabaram de retornar, a recomendação é de vigilância total. Caso apresentem febre, manchas vermelhas pelo corpo, coriza ou conjuntivite, devem colocar imediatamente uma máscara cirúrgica, procurar um posto de saúde e relatar à equipe médica o histórico de deslocamento para os países-sede da Copa ou o contato com outros turistas.
*Com informações de SES-SP e Ministério da Saúde