Livros | Foto: Richard Souza / GE
[Foto: Ilustrativa / Richard Souza / GE]
A última sexta-feira (24/04) foi marcada por um cenário que chamou a atenção de moradores e entusiastas da cultura em Osasco, na Região Metropolitana de São Paulo. Imagens, textos e vídeos que circularam nas redes sociais registraram livros da Biblioteca Pública Monteiro Lobato dentro de caçambas de lixo. O episódio gerou uma onda de indignação que culminou em denúncias formais, abaixo-assinados e convocações para protestos junto ao poder público.
A biblioteca em questão está fechada desde 2020. Segundo relatos da comunidade, a unidade foi lacrada durante o mandato do ex-prefeito Rogério Lins sob a promessa de uma reforma que não foi concretizada, situação que persiste na atual gestão do prefeito Gerson Pessoa (Podemos).
Relatos de descaso e perdas pessoais
O cartunista Cadu Simões, morador da cidade e figura no cenário cultural local, expressou sua indignação com o que chamou de “crime contra o patrimônio público”. Simões tem uma ligação profunda com o local, onde organizou o primeiro evento de quadrinhos de Osasco e doou grande parte de sua coleção pessoal.
“A desculpa dada pela prefeitura para o descarte dos livros é que eles pegaram fungo durante esse período que a biblioteca está fechada. No entanto, cidadãos que acompanharam os livros serem jogados nas caçambas disseram que a maioria deles estava em bom estado”, afirmou Simões.
O artista ressaltou ainda que mesmo exemplares com fungos podem ser recuperados com tratamento adequado e que o estado do material é fruto do abandono. Simões também estendeu a crítica à Escola Municipal de Artes de Osasco, situada no mesmo terreno, afirmando que a instituição sofre do mesmo descaso, o qual classificou como fruto de um projeto político institucional.
Além do crime contra o patrimônio público, esse descaso com a biblioteca Monteiro Lobato me machuca particularmente por dois motivos. O primeiro, doei boa parte da minha coleção de quadrinhos para essa biblioteca. E esses quadrinho muito provavelmente foram jogados no lixo.
— Cadu Simões (@cadusimoes) April 25, 2026
Prefeitura alega “manuseio indevido” e promete triagem
Em nota oficial, a Prefeitura de Osasco negou que os livros tenham sido descartados definitivamente, apesar das imagens das caçambas. A administração municipal atribuiu o ocorrido a um erro de execução: “Houve manuseio indevido do material, motivo pelo qual a situação já está sendo apurada”.
Segundo a nota, exemplares atingidos por fungos, atestados por laudos técnicos, passarão por triagem e catalogação. A prefeitura informou que contratará uma empresa especializada para reavaliar as obras e que as unidades sem condições de recuperação serão substituídas por novos exemplares. A gestão reafirmou que o acervo histórico e os livros patrimoniados permanecem preservados e que o material nas caçambas seria composto, majoritariamente, por doações que não integram o acervo oficial.
“A administração municipal irá contratar empresa especializada para reavaliação dos livros. Aqueles que não tiverem condições de recuperação serão substituídos por novos exemplares.
Ressalta-se que o acervo histórico e os livros patrimoniados da biblioteca permanecem preservados e sob cuidados adequados durante o período de obras de recuperação da unidade.
Os materiais acondicionados em caçambas são, majoritariamente, oriundos de doações e não integram o acervo histórico da biblioteca.
A Prefeitura reafirma seu compromisso com a preservação do patrimônio público e com a transparência na condução de suas ações.” Destaca a nota oficial da Prefeitura Municipal de Osasco.
Reviravolta: Empresa de sucata quer devolver os livros
Informações recentes indicam que a repercussão gerou receio na empresa de sucata responsável por retirar as caçambas no dia 24. Com medo de sanções, a empresa teria manifestado o interesse em devolver os livros à Prefeitura de Osasco. Embora o descarte tenha sido flagrado, apenas uma pequena parcela do material foi resgatada por populares antes da remoção total das caçambas.
“Parece que ainda há chances de recuperar os livros da Biblioteca Municipal de Osasco. Devido a toda a repercussão que está tendo, a empresa de sucata que retirou os livros quer devolvê-los para a Prefeitura de Osasco, com medo de possíveis sanções”, destacou Cadu Simões.
Mobilização popular e pedido de CPI
A resposta da sociedade civil foi imediata e organizada em três frentes principais:
- Petição “MEMÓRIA NÃO É LIXO!”: Organizada por Juliana Gomes, do coletivo AtivOz. De acordo com informações, a petição será apresentada ao Ministério Público e entregue ao secretário de cultura. O grupo exige a reabertura imediata da biblioteca e a recuperação do acervo histórico.
- Pedido de CPI: O Movimento pela União dos Bibliotecárias(os), Arquivistas e Museólogas(os) iniciou um baixo-assinado destinado à Câmara de Vereadores de Osasco, solicitando a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o descarte.
- Convocação de Conselho: Para esta terça-feira, 28 de abril, às 19h, foi convocada uma presença massiva na Reunião do Conselho Municipal de Política Cultural, na Escola de Artes César Antônio Salvi, para cobrar respostas diretas do Secretário de Cultura.
O coração cultural de Osasco em detalhes
De acordo com os registros de serviços da própria Prefeitura de Osasco, a Biblioteca Pública Monteiro Lobato, localizada na Av. Marechal Rondon, é um centro multidisciplinar de atendimento. O município lista em seu catálogo oficial serviços que vão desde uma Mangateca e acervo em Braille até um Telecentro com acesso gratuito à internet e uma Hemeroteca com pastas temáticas. O espaço conta ainda com um auditório para 80 pessoas e um Salão Multiuso para exposições, mas o próprio cadastro municipal hoje ostenta a observação: “Fechada ao público no momento”.
A relevância desse espaço para a população é medida pelo seu alcance social. Segundo dados da 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (realizada pelo IPL, Itaú Cultural e IBOPE), citados pelo Movimento Reabre Biblioteca Osasco, as bibliotecas são os principais pontos de acesso para quem não tem recursos para comprar livros. O levantamento revela que 49% dos frequentadores regulares de bibliotecas pertencem à Classe C, e 21% às Classes D/E. Para esses cidadãos, o fechamento representa a ausência de um “lugar apropriado para ler”, motivo apontado por 4% da população para a falta de hábito de leitura.
Em Carta Aberta divulgada em dezembro de 2025 pelo Movimento Reabre Biblioteca Osasco, o grupo destaca um paradoxo na gestão da cidade. Baseando-se em estimativas do IBGE (2024), o movimento ressalta que Osasco possui o 7º maior PIB do Brasil e o 2º maior do Estado de São Paulo. Apesar dessa robustez financeira, o manifesto aponta que a cidade é a única desse porte a manter sua biblioteca central fechada por metade de uma década, deixando aproximadamente 740 mil habitantes sem sua principal referência de pesquisa e estudo.
