Praia de Copacabana | Foto: Richard Souza / GE
[Foto: Arquivo / Richard Souza / GE]
A preparação para a superprodução “Todo Mundo no Rio”, que trará a cantora colombiana Shakira à Praia de Copacabana, foi marcada por uma tragédia na tarde deste domingo (26/04). Um trabalhador de 28 anos, identificado como Gabriel de Jesus Firmino, morreu após ser imprensado e sofrer esmagamento durante a montagem das estruturas do espetáculo.
Nesta segunda-feira (27), o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio (CREA-RJ) anunciou que vai autuar e multar a MG Coutinho Serviços Cenográficos, empresa para a qual a vítima trabalhava. Em nota oficial, o órgão foi categórico sobre a irregularidade: os fiscais “constataram que a empresa não tem registro no Conselho para exercer atividades de engenharia e muito menos responsável técnico.”
Fiscalização ignorada e cobrança de documentos
O CREA-RJ informou que acompanha a montagem da estrutura desde o dia 7 de abril e que retornou ao local na manhã desta segunda-feira (27) para levantar dados sobre o acidente fatal. O órgão revelou que, com o objetivo de fiscalizar o exercício da profissão, “já enviou ofício por duas vezes à empresa Bônus Track, produtora do evento, mas não recebeu todas as informações solicitadas.”
Diante do cenário, o superintendente técnico do CREA-RJ, engenheiro Leonardo Dutra, alertou para o perigo: “a atividade técnica sempre é uma atividade de risco e somente com profissionais e empresas legalmente habilitadas podemos mitigar esses riscos”, ressaltou.
A fiscalização estabeleceu um prazo de quatro dias para que a Bônus Track apresente a relação completa de empresas e profissionais de instalação e manutenção que atuam no show. Os dados exigidos incluem razão social, CNPJ ou CPF, endereço, cópias de contratos, notas fiscais e o objeto de cada serviço. O texto oficial encerra alertando para “a importância de as empresas atenderem integralmente as solicitações feitas pelo Conselho.”
A dinâmica da tragédia e o socorro
No momento do incidente, na altura do Posto 3 da Avenida Atlântica, Gabriel trabalhava na montagem de quatro elevadores que fariam parte do cenário do show. Ele acabou ficando imprensado entre dois desses equipamentos, sofrendo esmagamento nos membros inferiores, segundo relatos do Corpo de Bombeiros (CBMERJ).
Antes mesmo da chegada militar, colegas de trabalho conseguiram retirar o jovem do maquinário. A equipe da ambulância do 3º Grupamento Marítimo (GMAR-Copacabana) prestou o atendimento pré-hospitalar e transferiu a vítima para o Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea. Apesar dos esforços, Gabriel não resistiu à gravidade dos ferimentos e teve o óbito constatado na unidade.
A Polícia Militar (PMERJ) atuou no apoio ao resgate com agentes do 19º BPM, que receberam a informação preliminar de que uma estrutura havia desabado sobre o trabalhador. O caso foi registrado na 12ª DP (Copacabana) como lesão corporal culposa decorrente de acidente de trabalho. A Polícia Civil (PCERJ) acionou a perícia para o local e declarou em nota que “diligências estão em andamento para apurar os fatos”.
Posicionamento e impacto
A organização do evento “Todo Mundo no Rio” lamentou profundamente a morte do operário e emitiu a seguinte nota oficial:
“A organização do evento confirma que um acidente na tarde deste domingo (26/04) lamentavelmente vitimou um profissional que atuava na montagem das estruturas para o show. Os socorristas prestaram o primeiro atendimento no local e o Corpo de Bombeiros foi imediatamente acionado para o transporte do paciente. Infelizmente, o profissional veio a óbito no hospital. Nesse momento estamos prestando todo apoio, acolhimento e solidariedade à empresa responsável, sua equipe e aos familiares da vítima.”
O show de Shakira, marcado para o dia 2 de maio de 2026, é tratado como um marco cultural para o Rio de Janeiro, seguindo a esteira de megaeventos recentes como Madonna (2024) e Lady Gaga (2025). A colombiana, que vem de turnês com recordes históricos de público, protagonizará o evento que busca consolidar a capital fluminense como destino de grandes produções globais. Como define a própria organização sobre a magnitude do espetáculo: “Ela não cansa de fazer história; a Praia de Copacabana recebe a Loba no dia 2 de maio, com Todo Mundo no Rio”.
Estrutura milionária e impacto na economia carioca
Os dados são do estudo “Potenciais Impactos Econômicos do ‘Todo Mundo no Rio’ 2026 – Shakira”, conduzido pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE) e pela Riotur. O show da artista colombiana consolida o calendário da cidade para o mês de maio, que já garantiu espetáculos de Madonna (2024) e Lady Gaga (2025), e tem previsão de continuidade até, pelo menos, 2028.
Segundo o prefeito Eduardo Cavaliere (PSD), a data atrai visitantes até mesmo entre o público que não assistirá à apresentação, aquecendo a hotelaria, o comércio e os restaurantes. “Dessa forma, amplia a geração de empregos, movimenta diversos setores e reforça o Rio como capital global de grandes eventos”, afirmou o prefeito.
Turismo, mídia espontânea e arrecadação de impostos
A infraestrutura do evento, que agora é alvo de investigação policial e de autuação por parte do CREA-RJ, é montada em uma área reconhecida desde 2012 pela UNESCO como Patrimônio Mundial. O Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) ressalta que a escolha da orla ocorre por ser um elemento essencial da paisagem cultural urbana. Para o presidente da Riotur, Bernardo Fellows, o destino possui um potencial ímpar: “Copacabana oferece uma combinação rara no mundo: infraestrutura, paisagem icônica e a vivência de receber milhões de pessoas”.
Esse cenário gera uma promoção internacional massiva. A expectativa é que o show de Shakira gere US$ 250 milhões (cerca de R$ 1,3 bilhão) apenas em mídia espontânea para o Rio de Janeiro. Para o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Osmar Lima, o saldo positivo compensa os esforços da cidade, que chegou a arrecadar R$ 66,8 milhões em ISS ligado ao turismo em maio de 2025 (um crescimento real de 23,2% sobre 2023). “O impacto econômico vai além do evento. Ele se traduz em aumento de arrecadação, geração de empregos e dinamização de cadeias produtivas estratégicas”, analisou Lima.
*Com informações de CREA-RJ
