[Foto: Ilustrativa / LensGo]
A produção cervejeira artesanal do Brasil provou sua força no cenário internacional. Na edição de 2026 do World Beer Cup, competição realizada nos Estados Unidos e considerada a “Copa do Mundo da Cerveja”, quatri cervejarias brasileiras conquistaram medalhas de ouro, prata e bronze, superando milhares de amostras de diversos países e destacando o uso de ingredientes e madeiras nativas.
Criado em 1996 pela Brewers Association, o evento celebrou seus 30 anos com números grandiosos: 8.166 amostras inscritas por 1.644 cervejarias de 50 países. A avaliação técnica, feita rigorosamente às cegas, contou com 255 jurados (sendo 128 internacionais de 37 países) ao longo de 14 sessões durante sete dias. O Brasil teve uma participação de peso, figurando como o quinto país com mais amostras inscritas na edição, somando 164 cervejas de 37 cervejarias.
O ouro da Terminus 2026 e a madeira brasileira
Um dos maiores destaques da delegação brasileira foi a Daoravida Brewpub, de Campinas (SP). A cervejaria conquistou a cobiçada medalha de ouro na categoria Wood- and Barrel-Aged Strong Beer (Categoria 32, com 106 amostras concorrentes) com a cerveja Terminus 2026.
Maturada em barris de castanheira, a bebida superou adversárias do Canadá e dos EUA com uma receita que combina notas de caramelo, toffee, rapadura, frutas secas e chocolate amargo. A madeira brasileira agregou nuances que remetem a castanhas, amêndoas torradas e um leve caráter resinoso. De corpo alto e textura aveludada, a Terminus 2026 apresentou um final longo e equilibrado entre doçura, calor alcoólico e o toque seco da madeira.
“Vencer em uma das categorias mais disputadas do mundo usando uma madeira do Brasil reafirma a nossa identidade e mostra que o país já tem uma assinatura sensorial potente e respeitada lá fora”, afirma Wagner Falci, co-fundador e cervejeiro da Daoravida.
A vitória comprova a evolução do projeto Terminus (iniciado em 2021), que já havia conquistado os quatro “Grand Slam” da cerveja em safras anteriores. No último Concurso Brasileiro de Cervejas, a safra 2025 levou bronze e prata, sendo superada pela atual campeã. “Nossa cerveja mais premiada até então foi superada pela nova safra. Isso mostra que o projeto continua evoluindo”, comemora Michele Gimenez, co-fundadora da marca, que opera como um brewpub (bar que produz a própria cerveja) e conseguiu desbancar estruturas industriais internacionais.
Mais ouro para o Brasil: Experimentação e história
A excelência brasileira se repetiu em outras frentes da competição. Na categoria Experimental Beer (Categoria 22, com 93 amostras), a Cervejaria UNIKA, de Florianópolis, conquistou a medalha de ouro com a inusitada Catharina Sour Caju Pytang – Caju & Pitanga, deixando a prata e o bronze para cervejarias dos Estados Unidos.
A UNIKA também subiu ao pódio na categoria Gose (Categoria 68, com 52 concorrentes). A marca garantiu a medalha de prata com o rótulo The Famous Gose – Morango E Pitanga, ficando atrás apenas da campeã norte-americana.
O Brasil também ditou as regras na categoria Historical Beer (Categoria 24, com 37 inscrições). A Cervejaria Stannis, de Jaraguá do Sul, levou a medalha de ouro com a cerveja Kaptain Lisa, superando fortes concorrentes de Chicago e Nova Jersey.
Para completar a vitrine de prêmios, na disputada categoria Fruited Wood- and Barrel-Aged Sour Beer (Categoria 35, com 49 amostras), a 277 Craft Beer, de Foz do Iguaçu, faturou a medalha de bronze com o rótulo Frutas Vermelhas 277 – Wood Aged, dividindo o pódio com representantes de Atlanta (EUA) e do Japão.
Medalhistas Brasileiros: World Beer Cup 2026
| Medalha | Cerveja | Cervejaria | Categoria |
|---|---|---|---|
| Ouro | Terminus 2026 | Daoravida Brewpub Campinas, SP | Wood- and Barrel-Aged Strong Beer |
| Ouro | Catharina Sour Caju Pytang | Cervejaria UNIKA Florianópolis, SC | Experimental Beer |
| Ouro | Kaptain Lisa | Cervejaria Stannis Jaraguá do Sul, SC | Historical Beer |
| Prata | The Famous Gose | Cervejaria UNIKA Florianópolis, SC | Gose (Morango e Pitanga) |
| Bronze | Frutas Vermelhas 277 | 277 Craft Beer Foz do Iguaçu, PR | Fruited Wood- and Barrel-Aged Sour Beer |
O rigor técnico da “revisão por pares”
Organizada pela Brewers Association, a World Beer Cup é consolidada como a competição de cerveja e sidra mais prestigiada do planeta. O concurso funciona sob a filosofia de uma rigorosa “revisão por pares”, onde profissionais renomados do setor avaliam a excelência técnica de marcas globais.
Segundo o diretor da competição, Chris Williams, o reconhecimento oficial serve como um selo de garantia para o público: “Quando os profissionais do setor reconhecem a excelência dos produtos disponíveis no mercado, os consumidores podem ter certeza de que essas marcas são as melhores que existem”.
Critérios de premiação e feedback
Diferente de outros concursos, a World Beer Cup não premia automaticamente os três primeiros colocados de cada categoria. As medalhas de Ouro, Prata e Bronze só são concedidas se os jurados determinarem que as bebidas atingiram o padrão mínimo de qualidade e fidelidade ao estilo.
Uma medalha de ouro, por exemplo, é reservada para uma bebida de “classe mundial” que exiba o equilíbrio perfeito entre sabor, aroma e aparência. Além do prestígio, os cervejeiros recebem feedbacks detalhados sobre qualidade técnica e fidelidade ao estilo, uma ferramenta essencial para o aprimoramento constante das receitas.
Padrão Mínimo para Premiações
Nota sobre a Cervejaria Campeã: A partir de 2018, a World Beer Cup deixou de conceder prêmios de Cervejaria Campeã. Com o crescimento contínuo da competição, essa mudança permite concentrar todos os recursos na execução impecável dos principais prêmios — ouro, prata e bronze em mais de 100 categorias de estilos diferentes.
Presença brasileira no corpo de jurados
A autoridade do Brasil no setor não se reflete apenas nas medalhas, mas também na composição do corpo de jurados, composto por mais de 200 profissionais de “paladares e conhecimento de estilo de classe mundial”. Entre os especialistas responsáveis pelas avaliações técnicas às cegas em 2026, figuram nomes brasileiros de destaque, como a Dra. Amanda Reitenbach (Santa Catarina), Francisco Mainardi, Fernanda Meybom e o próprio Wagner Falci, co-fundador da Daoravida.
