[Foto: Richard Souza / AN]
- O custo dos alimentos básicos subiu em todas as 27 capitais brasileiras pelo segundo mês consecutivo.
- No Rio de Janeiro, a cesta atingiu R$ 879,03, exigindo que o trabalhador comprometa 58,62% do salário mínimo líquido.
- O Dieese calcula que o salário mínimo necessário deveria ser de R$ 7.612,49, o equivalente a 4,70 vezes o valor atual.
O custo de vida alimentar no Brasil sofreu um novo e severo impacto em abril de 2026. Pelo segundo mês seguido, o valor do conjunto de alimentos básicos registrou alta em todas as 27 capitais brasileiras e no Distrito Federal. De acordo com o levantamento realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a cidade do Rio de Janeiro consolidou-se com a terceira cesta básica mais cara do país, atingindo o valor de R$ 879,03.
O cenário no Rio de Janeiro
Os dados mostram que em abril, o preço da cesta básica carioca apresentou um aumento de 1,27%. Embora o avanço mensal pareça moderado, o acumulado de 2026 já atinge uma alta de 10,98%. Nos últimos 12 meses, a elevação acumulada é de 3,45%.
Entre os 13 produtos que compõem a cesta no Rio, 10 tiveram alta em abril. Os destaques negativos ficaram para a batata (13,99%) e o leite integral (13,22%), seguidos pelo arroz agulhinha (6,56%) e o óleo de soja (4,49%). Por outro lado, apenas tomate (-7,92%), banana (-2,95%) e a farinha de trigo (-1,43%) registraram queda no período.
Para o trabalhador carioca que recebe o salário mínimo de R$ 1.621,00, o esforço para se alimentar aumentou. Em abril de 2026, foi necessário trabalhar 119 horas e 18 minutos para adquirir a cesta, contra as 117 horas e 48 minutos exigidas em março. Ao considerar o salário mínimo líquido (após o desconto de 7,5% da Previdência Social), o comprometimento da renda chegou a 58,62%.
Panorama Cesta Básica: Rio de Janeiro
| Indicador | Abril 2026 | Março 2026 |
|---|---|---|
| Tempo de Trabalho Necessário | 119h 18min | 117h 48min |
| Comprometimento Renda Líquida | 58,62% | 57,89% |
| Batata | +13,99% |
| Leite Integral | +13,22% |
| Arroz Agulhinha | +6,56% |
| Óleo de Soja | +4,49% |
| Feijão Preto | +4,41% |
Panorama nacional: Altas em todas as capitais
A tendência de alta não foi exclusividade do Rio. Em todo o país, o acumulado do primeiro quadrimestre de 2026 mostra variações preocupantes, chegando a 14,80% em Aracaju. Em abril, as elevações mais expressivas ocorreram em Porto Velho (5,60%) e Fortaleza (5,46%).
São Paulo continua no topo do ranking nacional, com a cesta mais cara (R$ 906,14), enquanto Aracaju registrou o menor valor médio (R$ 619,32).
Custo da Cesta Básica em 27 Capitais
Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos | Abril de 2026
| Capital | Valor (R$) | Var. Mensal (%) | % SM Líquido | Tempo Trabalho | Var. Ano (%) | Var. 12 Meses (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| São Paulo | 906,14 | 2,51 | 60,43 | 122h59m | 7,12 | -0,34 |
| Cuiabá | 880,06 | 4,97 | 58,69 | 119h26m | 11,22 | 9,99 |
| Rio de Janeiro | 879,03 | 1,27 | 58,62 | 119h18m | 10,98 | 3,45 |
| Florianópolis | 847,26 | 2,78 | 56,51 | 114h59m | 5,74 | -1,27 |
| Campo Grande | 826,89 | 2,60 | 55,15 | 112h13m | 6,57 | 2,71 |
| Porto Alegre | 811,82 | 1,50 | 54,14 | 110h11m | 3,52 | -2,69 |
| Vitória | 810,45 | 2,56 | 54,05 | 109h59m | 11,44 | 2,22 |
| Curitiba | 796,10 | 3,44 | 53,09 | 108h03m | 7,89 | 0,30 |
| Belo Horizonte | 793,75 | 1,20 | 52,94 | 107h44m | 9,75 | 4,12 |
| Goiânia | 787,08 | 3,50 | 52,49 | 106h49m | 8,42 | 2,56 |
| Brasília | 768,22 | 2,92 | 51,23 | 104h16m | 7,56 | -0,98 |
| Fortaleza | 767,67 | 5,46 | 51,20 | 104h11m | 13,39 | 2,83 |
| Palmas | 734,53 | 2,38 | 48,99 | 99h41m | 8,40 | -1,64 |
| Belém | 727,70 | 3,86 | 48,53 | 98h46m | 9,17 | 0,21 |
| Boa Vista | 709,68 | 4,36 | 47,33 | 96h19m | 8,82 | -1,31 |
| Manaus | 697,29 | 3,22 | 46,50 | 94h38m | 12,39 | 3,80 |
| Teresina | 695,68 | 4,02 | 46,40 | 94h25m | 7,84 | 3,05 |
| Macapá | 694,88 | 3,40 | 46,34 | 94h19m | 6,72 | 5,20 |
| Salvador | 677,25 | 2,28 | 45,17 | 91h55m | 11,49 | 7,14 |
| João Pessoa | 676,44 | 3,60 | 45,11 | 91h49m | 13,18 | 5,44 |
| Recife | 672,75 | 2,77 | 44,87 | 91h18m | 12,86 | 3,07 |
| Natal | 669,39 | 2,39 | 44,64 | 90h51m | 12,10 | 1,89 |
| Rio Branco | 667,14 | 4,05 | 44,49 | 90h32m | 6,55 | -1,57 |
| Porto Velho | 658,35 | 5,60 | 43,91 | 89h21m | 11,21 | -1,14 |
| Maceió | 652,94 | 1,27 | 43,55 | 88h37m | 10,73 | 4,88 |
| São Luís | 639,24 | 0,79 | 42,63 | 86h46m | 1,56 | -4,84 |
| Aracaju | 619,32 | 3,49 | 41,30 | 84h03m | 14,80 | 6,79 |
Fonte: Conab/DIEESE
Os “vilões” do prato brasileiro
Dois itens foram críticos em todo o território nacional: o leite integral e a batata. O leite subiu em todas as capitais, impulsionado pela “redução da oferta no campo devido à entressafra, o que elevou o preço dos derivados lácteos”. Já a batata disparou no Centro-Sul devido à “restrição de oferta do tubérculo pelo final da safra”.
Outro ponto de pressão foi o arroz. Mesmo com a colheita iniciada, o preço subiu em 21 cidades porque o “orizicultor disponibilizou poucos lotes de arroz para venda, à espera de melhores preços”, reduzindo a oferta. Já a carne bovina de primeira registrou altas sustentadas pela “demanda externa aquecida e pela oferta restrita de animais prontos para abate”.
Destaques da Cesta Básica
Principais variações de preços em Abril de 2026
Maior alta: Teresina (15,70%). Motivo: Entressafra reduziu a oferta no campo.
Campo Grande registrou 19,57%. Motivo: Final da safra restringiu a oferta.
Fortaleza saltou 25,58%. Motivo: Período entre as safras de verão e inverno.
Palmas teve alta de 17,86%. Motivo: Demanda aquecida sustentou os preços.
Destaque: Cuiabá (4,78%). Motivo: Demanda externa e oferta restrita de animais.
Vitória registrou 13,73%. Motivo: Orizicultores retendo lotes à espera de preços melhores.
Queda de -4,56% em Cuiabá. Motivo: Proximidade da safra e menor volume exportado.
Palmas subiu 4,00%. Motivo: Trigo com oferta restrita e custo elevado das farinhas.
O abismo salarial
O levantamento do Dieese reforça o descompasso entre os preços e o poder de compra. Com base no custo da cesta de São Paulo, o instituto estima que o salário mínimo ideal deveria ser de R$ 7.612,49 para suprir as necessidades básicas de uma família, valor 4,70 vezes maior que o mínimo vigente de R$ 1.621,00. Em média, o trabalhador brasileiro compromete 49,57% de sua renda líquida apenas para garantir a alimentação básica.
*Com informações de Dieese