[Foto de Raul Santana / Acervo Casa Oswaldo Cruz]
- Soberania tecnológica: Nova sede de 15 mil metros quadrados do CDTS/Fiocruz funcionará como hub de inovação para acelerar o desenvolvimento de vacinas, remédios e diagnósticos para o SUS.
- Revolução no câncer: Produção nacional da avançada terapia celular CAR-T reduzirá os custos do tratamento de leucemia e linfoma para cerca de 10% do valor praticado no mercado externo.
O cenário da ciência e da saúde pública no Brasil ganha um novo marco estrutural. No último sábado (23/05), o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), esteve na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, para liderar uma série de agendas voltadas ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). O evento principal marcou a inauguração oficial das instalações da nova sede do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz) e o lançamento do pioneiro Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T.
A solenidade, realizada com acesso restrito a convidados credenciados conforme protocolos de segurança do Palácio do Planalto, também encerra as celebrações oficiais pelos 125 anos de história da Fiocruz. A instituição consolida sua trajetória histórica como uma das organizações científicas e de saúde pública mais destacadas da América Latina.
“O importante aqui é o gesto de inauguração de um centro tecnológico que dá ao Brasil a certeza de que a gente não é menor do que ninguém, de que a gente não é menos competitivo do que ninguém. Basta a gente ousar, ter coragem e fazer. E fazer investimento em pesquisa é uma coisa que nem todo mundo gosta de fazer”, destacou o presidente Lula.
CDTS: O novo hub de inovação com infraestrutura bilionária
O CDTS atua há mais de 20 anos impulsionando projetos científicos e conectando a pesquisa ao desenvolvimento tecnológico. Criado originalmente em 2002 com o suporte do Ministério da Saúde, o centro ganha agora uma sede exclusiva de 15 mil metros quadrados desenhada para operar como um hub de inovação em saúde. O espaço foi projetado para reunir pesquisadores, universidades, centros de pesquisa e parceiros nacionais e internacionais, acelerando projetos de vacinas, testes diagnósticos, biofármacos e medicamentos qualificados como estratégicos para a rede pública.
Para erguer a estrutura do prédio-sede foram investidos R$ 370 milhões. Outros R$ 35 milhões foram direcionados à compra de equipamentos por meio do Programa para Ampliação e Modernização de Infraestrutura do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (PDCEIS). A operação das áreas laboratoriais ocorrerá de forma gradual. A previsão é de que, em setembro de 2026, os laboratórios iniciem suas atividades em regime de operação assistida junto à construtora. Já a partir de janeiro de 2027, as áreas passarão a operar progressivamente, acompanhando os processos de validação e qualificação técnica dos equipamentos.
Entre os projetos conduzidos pelo CDTS estão o desenvolvimento de um antiviral brasileiro para Covid-19 e arboviroses, novos testes diagnósticos para a doença de Chagas e o uso de tecnologias de impressão 3D voltadas a próteses cranianas personalizadas utilizadas no SUS. A Fiocruz também pretende consolidar no centro a plataforma nacional de desenvolvimento de vacinas com tecnologia de RNA mensageiro (mRNA).
Raio-X: O Novo CDTS da Fiocruz
Janeiro de 2027: Operação progressiva e qualificação.
- Desenvolvimento de antiviral brasileiro para Covid-19 e arboviroses.
- Novos testes diagnósticos focados na doença de Chagas.
- Uso de impressão 3D para criação de próteses cranianas personalizadas no SUS.
- Consolidação da plataforma nacional de vacinas baseadas em RNA mensageiro (mRNA).
Terapias CAR-T: Tratamento oncológico avançado ao alcance do SUS
O lançamento do Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T delimita um marco para o SUS e estabelece uma virada na oncologia pública, posicionando o Brasil como referência em terapias avançadas na América Latina. Financiada com R$ 330 milhões pelo Governo Federal, via PDCEIS e Novo PAC, a iniciativa conduzida pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) viabilizará a produção 100% nacional de uma das metodologias mais modernas do mundo para o tratamento de cânceres como leucemia, linfoma e mieloma.
Nesta abordagem revolucionária, as células de defesa do paciente são removidas, modificadas geneticamente em laboratório e reintroduzidas no organismo já “reprogramadas” para combater ativamente o câncer. Comercializado nos Estados Unidos por valores que variam entre US$ 350 mil e US$ 400 mil a dose, o tratamento terá sua perspectiva de acesso democratizada. A estimativa com a produção nacional futura é reduzir esse valor para cerca de 10% do custo atual.
O avanço é resultado de uma parceria firmada em 2023 entre a Fiocruz, o Ministério da Saúde e a organização norte-americana Caring Cross. Segundo a Fiocruz, o processo envolve a incorporação de tecnologia combinada a estudos clínicos, e os primeiros pacientes participantes devem começar a receber o tratamento experimental no segundo semestre deste ano.
“O SUS, como o Mais Especialistas, está dando uma lição neste país. Melhorar a qualidade da saúde precisa de dinheiro. Se não tem dinheiro, a gente vai atrás. A gente vai arrumar e fazer com que o povo mais humilde desse país tenha direito ao mesmo tratamento que tem o governador, o presidente da República. Não é possível que não seja assim”, disse o presidente.
Ficha Técnica: Revolução das Terapias CAR-T no SUS
Integração governamental e expansão pelo Brasil
O fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis), foco destas inaugurações, mira a redução da dependência externa na saúde pública. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, enfatizou que a fundação é a instituição que mais interage com o Brasil.
“A Fiocruz tem estruturas em pelo menos 11 estados. E vai terminar esse governo com 13. Vamos até o Acre e o Amapá. Tem projetos de formação, qualificação profissional, interação com os territórios, em todos os estados brasileiros. A Fiocruz, hoje, não serve só ao Ministério da Saúde mais. Ela apoia, com convênios e com projetos, 11 ministérios”, afirmou Padilha.
O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, reafirmou a importância do alinhamento federal. “Nós somos pesquisa, somos ensino, vigilância, referência. A Fiocruz está envolvida no programa de vacinação, Aqui Tem Especialistas, Mais Médicos, Brasil Saudável, erradicação do câncer e interrupção da transmissão vertical do HIV. Nós estamos lá em cooperação com o Governo Federal”, declarou.
Para o coordenador-geral do CDTS, Carlos Morel, a nova estrutura excede a obra física. “Hoje, com a inauguração do CDTS, a gente tem mais orgulho ainda. Mas esse orgulho não é apenas por causa desse prédio moderno, não. É por causa do que ele representa para a ciência, para a saúde e para o Brasil”, concluiu.