[Foto: Ilustrativa/ Google AI]
- Megaoperação concluída: Espanha evacua com sucesso 125 passageiros do cruzeiro MV Hondius em Tenerife, utilizando 360 agentes, unidades de risco biológico e lanchas para garantir risco zero à população.
- Rastreio e quarentena: Passageiros de 23 nacionalidades enfrentam até 42 dias de isolamento em seus países; estadunidenses foram enviados ao Nebraska e espanhóis ao Hospital Gómez Ulla, em Madri.
- OMS em ação: Tedros Adhanom viajou às Canárias para afastar o pânico local (“Isto não é outra COVID”), enquanto especialistas investigam a origem do surto letal da cepa Andes, que vitimou três pessoas desde abril.
O que deveria ser uma expedição turística ao redor do Atlântico Sul transformou-se em uma das crises sanitárias marítimas mais complexas da história recente. Na noite de domingo (10/05), o navio MV Hondius, operado pela Oceanwide Expeditions, deixou o porto de Granadilla de Abona, em Tenerife (Espanha), marcando o fim de uma megaoperação internacional de evacuação. A embarcação foi o epicentro de um surto da gravíssima cepa andina do hantavírus, que tirou a vida de três passageiros.
A missão, coordenada pelo Governo da Espanha em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), evacuou 125 ocupantes de 23 nacionalidades diferentes. A logística exigiu precisão militar e isolamento total para evitar que o pânico, e o vírus, chegassem à população civil das Ilhas Canárias.
A ministra da Saúde da Espanha, Mónica García, exaltou o desfecho da crise: “Missão cumprida, acabamos de encerrar a operação com sucesso. Entre ontem e hoje, evacuamos os 125 passageiros e tripulantes de 23 países que ou já estão em seus países ou estão agora mesmo, como acabam de ver, sendo transportados para suas nações.” Garcia garantiu que a atracação foi necessária por razões meteorológicas que impediam o resgate em alto-mar, ressaltando que o país agiu com “eficácia, compromisso, transparência e humanidade.”
A linha do tempo da tragédia no mar
O MV Hondius zarpou no dia 1º de abril de Ushuaia, na Argentina, com 147 pessoas a bordo, sendo 87 hóspedes e 60 tripulantes (a maioria das Filipinas e do Reino Unido). Autoridades argentinas já descartaram a contaminação local, afirmando que a chance de contágio em Ushuaia é “praticamente nula”.
No dia 6 de abril, o primeiro passageiro, um holandês, apresentou sintomas graves, vindo a falecer a bordo no dia 11. O corpo foi desembarcado na Ilha de Santa Helena em 24 de abril, acompanhado da esposa. A tragédia, contudo, multiplicou-se: a esposa faleceu no dia 27 ao chegar à Holanda. No mesmo dia, um britânico em estado grave foi evacuado para a África do Sul via Ilha de Ascensão. Em 2 de maio, a terceira vítima, de nacionalidade alemã, morreu no navio.
Risco zero: Drones, exército e rastreio internacional
A chegada do cruzeiro à Espanha acionou um dispositivo de guerra. A Unidade Militar de Emergências (UME) disponibilizou mais de 30 militares, 11 veículos e ônibus totalmente isolados. Mais de 360 agentes da Guarda Civil, incluindo especialistas em ameaças biológicas (NRBQ) e drones, realizaram a escolta. Os passageiros foram transportados em lanchas tipo Zodiac do navio para os ônibus, que os levaram diretamente ao aeroporto de Tenerife Sul.
O sucesso da operação também dependeu de um minucioso trabalho de inteligência sanitária. Javier, membro da secretaria de Estado de Saúde espanhola, detalhou como o rastreamento de contatos superou as falhas das companhias aéreas: “Como vimos, a partir da divulgação do caso na mídia — e pelo fato de a sobrinha da pessoa que consta como contato em Barcelona (que estava na Bélgica e havia sido contatada) ter agido; ela mesma não havia sido chamada porque tinha mudado de assento e a companhia aérea não a tinha, digamos, localizada ali — ela também se manifestou de forma proativa. De um jeito ou de outro, acabamos sempre chegando à detecção desses contatos.”
A quarentena global: De Madri a Omaha
Com o desembarque, iniciou-se a fase de monitoramento. Os 14 cidadãos espanhóis foram levados à Base Aérea de Torrejón e internados no Hospital Gómez Ulla sob um protocolo que inclui PCRs no 1º e 7º dia, medição de temperatura dupla e apoio psicológico.
Nos Estados Unidos, os passageiros foram direcionados a instalações de segurança. O turista Jake Rosmarin relatou a experiência: “O voo de repatriação foi suave, e eu cheguei em segurança à Unidade Nacional de Quarentena em Omaha. […] Um agradecimento especial também ao Centro Médico da Universidade do Nebraska e à cidade de Omaha por nos receberem e ajudarem a garantir que estamos seguros e cuidados.”
Nos Países Baixos, o Instituto GGD implementou uma quarentena de 42 dias para os passageiros holandeses e tripulantes estrangeiros em hotéis de isolamento. Eles recebem ligações diárias e só podem realizar breves caminhadas com máscara, a 1,5 metro de distância de outras pessoas.
OMS afasta o pânico: “Não é outra COVID”
A tensão nas Ilhas Canárias provocou um embate político. O presidente do arquipélago rejeitou a operação imposta pelo Governo Central, declarando: “Nós temos claro que não seremos cúmplices disso.” Em defesa da ação, o Ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres Pérez, rebateu: “Espanha é referência mundial em gestão de crises. […] Nas ilhas temos profissionais e infraestruturas de primeira ordem. E com uma cidadania comprometida”.
Para apaziguar a população local, o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, foi pessoalmente a Tenerife e emitiu um comunicado incisivo: “Sei que, ao ouvir a palavra ‘surto’ e ver um navio navegando em direção à sua costa, memórias que nenhum de nós conseguiu superar completamente vêm à tona […] Mas preciso que me ouçam com clareza: isto não é outra COVID”. Tedros explicou que o vírus Andes raramente se transmite de humano para humano, exigindo contato íntimo e prolongado.
Tedros também lamentou a morte de um agente da Guarda Civil, que sofreu um infarto durante a escolta no porto: “Sinto uma profunda tristeza pelo falecimento de um agente da Guarda Civil em Tenerife […] Estendo minhas mais sinceras condolências à sua família, amigos e colegas.”
O trabalho investigativo continua. O especialista da OMS, Freddy Banza, veterano de surtos de Ebola e Cólera, permaneceu a bordo para liderar avaliações ambientais. O MV Hondius segue agora para Rotterdam com apenas 25 tripulantes, dois médicos do RIVM e o corpo de uma das vítimas, onde passará por uma rigorosa desinfecção.
Em sua mensagem final, o capitão Jan Dobrogowski fez um apelo emocionado: “O que mais me tocou, o que mais me comoveu, foi a paciência, a disciplina e também a gentileza […] Em nome da Oceanwide Expeditions, da minha tripulação e de mim mesmo, peço privacidade e respeito aos nossos hóspedes, suas famílias e aos nossos tripulantes neste momento difícil.”