[Foto: RIchard Souza / AN]
- Nathaly Moraes e Ana Julia de Souza, estudantes da rede pública no Rio de Janeiro, viajam à Alemanha para exibir o curta “Girando para o Futuro” no encontro internacional À Nous Le Cinéma!.
- O filme foi totalmente produzido pelas jovens com equipamentos de cinema profissional, através do Programa Imagens em Movimento (PIM), que leva oficinas audiovisuais e culturais para escolas.
- O evento reunirá estudantes e cineastas de 15 países, reconhecendo as alunas fluminenses não apenas como estudantes, mas como verdadeiras autoras e cineastas.
O talento do audiovisual estudantil brasileiro está de malas prontas para cruzar o oceano. Duas alunas do Ginásio Experimental Tecnológico Brant Horta, situado na Penha Circular, Zona Norte do Rio de Janeiro, foram escolhidas para representar o Brasil no prestigioso encontro internacional À Nous Le Cinéma!. O evento acontece entre os dias 8 e 10 de junho no Deutsches Filminstitut & Filmmuseum, na Alemanha, e reunirá delegações de 15 países.
Nathaly Hiara Alves Moraes e Ana Julia Vital de Souza, ambas com apenas 14 anos, apresentarão na Europa o curta-metragem “Girando para o Futuro”, uma obra audiovisual inteiramente concebida, gravada e editada por elas.
A conquista é fruto do Programa Imagens em Movimento (PIM), uma iniciativa da ONG Raiar (Rede de Ações e Interações Artísticas) que há 15 anos democratiza o acesso à arte e à cultura em escolas públicas brasileiras. O Brasil marca presença no encontro alemão através do PIM desde 2011, integrando a rede mundial “Cinema, cem anos de juventude”.
Produção profissional e a força do trabalho em equipe
O processo criativo das meninas foi intenso e profissional. As oficinas teóricas tiveram início em março deste ano na própria escola. Em abril, a história começou a ser roteirizada, culminando nas gravações e na edição durante o mês de maio. Para garantir a qualidade cinematográfica, a ONG disponibilizou equipamentos de ponta, incluindo câmera Blackmagic, microfone direcional Sennheiser e gravador de áudio Zoom H5N.
Para Ana Julia, a experiência extrapolou qualquer expectativa. “Participar do PIM está sendo uma experiência incrível. Eu nem sabia que tinha aulas de cinema na minha escola. Eu entrei com baixas expectativas e focando em aprender a parte técnica. Mas quando soube da viagem e do filme, fiquei muito empolgada. É uma oportunidade única. Estou muito feliz”, celebra a jovem.
Sua colega de projeto, Nathaly Moraes, já possui experiência: em 2025, foi protagonista do curta “Axé, Iara”, sobre intolerância religiosa. Contudo, ela ressalta que o sucesso de “Girando para o Futuro” é coletivo. “Ainda é estranho pensar que eu fiz um filme, mas o mais importante pra mim é saber que isso aconteceu por causa de um trabalho em equipe. Não foi só uma conquista minha, foi uma conquista de todos os meus amigos e de todo mundo que participou do projeto. Estou muito ansiosa e animada com tudo isso”, afirma.
A história de “Girando para o Futuro”
O filme que ganhará as telas alemãs conta a história de Helena, uma garota que enfrenta os desafios de mudar de bairro e ingressar em uma escola desconhecida. O isolamento começa a dar lugar ao acolhimento quando ela conhece Rafaela, que a convida para aulas de balé. Superando a resistência de sua própria família, Helena encontra na dança a chave para se adaptar, expressar suas emoções e construir novas amizades.
Na edição deste ano do À Nous Le Cinéma!, que foca na educação crítica e nos debates pedagógicos comuns a várias nacionalidades, o evento contará com o apadrinhamento das renomadas cineastas francesas Claire Simon e Claire Burger.
A diretora do Imagens em Movimento, Ana Dillon, destaca o impacto dessa vitrine global. “Os estudantes são reconhecidos não apenas como protagonistas dos filmes, mas como verdadeiros autores. Eles compartilham suas vivências e processos criativos com um público extremamente diverso, promovendo o diálogo entre culturas diferentes a partir de perspectivas singulares”, avalia a diretora, que atua ao lado de uma extensa equipe de professores e coordenadores, como Clarissa Nanchery, Diego Amorim, Lucas Andrade e Taís Lobo.
Metodologia que vai além da câmera
O sucesso das alunas não se resume apenas a apertar o botão de gravar (REC). A metodologia do PIM busca ressignificar a relação professor-aluno através de uma abordagem horizontal. O currículo inclui disciplinas que ativam o campo sensorial e cultural dos jovens:
- Expressão corporal: Conduzidas pelas professoras Luna Leal e Alessandra Dorr, as aulas abordam desde Teatro (Stanislávski) até ritmos populares como Dança Afro, Maracatu, Jongo e Côco de Roda. O objetivo é diminuir julgamentos, entender o corpo como local das emoções e aplicar a Escuta Extraordinária.
- Música brasileira: Guiadas por Bethi Albano e Matias Zibecchi, as dinâmicas utilizam jogos criativos para apresentar a linguagem musical, fomentando o reconhecimento das matrizes culturais e desenvolvendo a intuição e a memória.
Marco histórico: 3.000 estudantes e mais de 230 filmes produzidos
A viagem internacional das alunas coroa um semestre de celebração para o Programa Imagens em Movimento, que acaba de atingir uma marca histórica: mais de 3.000 estudantes da rede pública contemplados desde a sua fundação, em 2011. Há mais de uma década, a iniciativa ocupa o ambiente escolar com a experiência criativa do cinema, aplicando uma proposta pedagógica que transforma o audiovisual em uma ferramenta direta de expressão.
O resultado prático dessa construção coletiva impressiona. Já são mais de 230 curtas-metragens produzidos, responsáveis por levar o olhar da juventude brasileira para diversos festivais nacionais e internacionais, acervo que o projeto disponibiliza integralmente para o público na internet. Para traduzir essa energia criativa nas divulgações deste ano, a identidade gráfica do projeto é assinada pelo artista visual Romolo D’Hipólito.
O movimento de câmeras e roteiros já está a todo vapor neste primeiro semestre em instituições do Rio de Janeiro e de Macaé. Além do GET Brant Horta, o talento dos jovens já entra em ação no GET José Emygdio de Oliveira, no GET Orlando Villas Boas, na E.M. Pedro Ernesto e na E.M. Paulo Freire. Para o segundo semestre, o programa prevê expansão ultrapassando as fronteiras fluminenses, chegando também a uma escola em Cumuruxatiba, na Bahia.
Para garantir a presença das estudantes na Alemanha em meio a esse crescimento, o PIM estruturou seu projeto de captação de recursos já prevendo o orçamento para a viagem internacional. Questões de patrocínio adicional estão em fase final de confirmação. Mas, antes de ganhar o mundo, “Girando para o Futuro” terá um forte impacto local: os brasileiros e a própria comunidade fluminense terão diversas oportunidades de prestigiar a obra.
O projeto organizará uma exibição especial na escola, reunindo todas as turmas. Além disso, a produção deve integrar a Mostra Cine Tia Nilda, tradicionalmente realizada na Arena Dicró, garantindo que toda a comunidade da Penha Circular possa assistir ao curta em tela grande.
A obra também será inscrita em festivais ao longo de 2026, exibida na Mostra de Curtas PIM (com data a ser divulgada) e ficará disponível gratuitamente na plataforma Vimeo e no site oficial do projeto.
Os Bastidores do Curta-Metragem Estudantil
Tudo o que você precisa saber sobre a produção de “Girando para o Futuro”