[Foto: Richard Souza / AN]
- Reação enérgica do Governo: O Palácio do Planalto condenou a interferência externa e alertou que medidas unilaterais dos EUA podem prejudicar o compartilhamento de informações policiais e inovações financeiras como o PIX.
- Ataque à oposição: Em nota oficial, o governo classificou como “traidores” os políticos que pediram intervenção estrangeira, destacando o lobby da família Bolsonaro em Washington.
- O estopim da crise: O Departamento de Estado norte-americano anunciou a inclusão do PCC e do Comando Vermelho em listas de terrorismo global, uma medida que passa a valer em duas fases distintas até 2026.
A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as principais facções criminosas brasileiras como organizações terroristas provocou uma forte e imediata reação do Governo Federal. Em um duro posicionamento oficial, o Palácio do Planalto repudiou o que chamou de interferência nos assuntos internos do país, alertou para graves riscos à economia nacional e fez críticas diretas à atuação de opositores brasileiros no exterior.
Para o governo brasileiro, a iniciativa de Washington mistura conceitos fundamentalmente diferentes e ameaça a estabilidade institucional e financeira do Brasil. A nota oficial enfatiza a distinção clara entre as ações do crime organizado e o terrorismo internacional: “O terror causado por essas organizações em comunidades busca obter lucro através do crime, especialmente pelo tráfico de drogas e armas, e não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional.”
“Traidores” e a defesa da soberania
Sem meias palavras, o Planalto direcionou críticas contundentes à articulação política que levou à decisão americana, referindo-se diretamente às recentes viagens de opositores a Washington.
“A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros. É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país.”
O governo ressaltou que “O Brasil é uma nação soberana que tem travado combate permanente contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as demais facções e milícias”. Para demonstrar as ações internas, o Planalto citou a recente aprovação de uma lei com penas de até 80 anos de prisão para integrantes de facções e a condução do programa “Brasil contra o Crime Organizado”.
Além disso, o governo revelou que, em 16 de abril, já havia apresentado ao Departamento de Estado dos EUA uma proposta oficial focada em inteligência e ampliação dos controles sobre lavagem de dinheiro e tráfico de armas.
Riscos ao PIX e à economia nacional
O alerta mais grave do governo brasileiro diz respeito aos impactos práticos das sanções internacionais no cotidiano do país. A imposição de regras estrangeiras ao sistema financeiro nacional foi duramente criticada.
“Qualquer colaboração internacional para o combate às facções será bem-vinda. Seguimos dispostos a construir soluções conjuntas benéficas aos países envolvidos. Mas não aceitaremos o uso de medidas arbitrárias vindas do estrangeiro como pretexto para atacar a nossa soberania e a nossa economia.”
A nota detalha que as medidas “Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o PIX, que incomodam interesses estrangeiros.” O governo conclui de forma taxativa que a situação representa “possível retrocesso no combate ao crime, risco à vida das pessoas e prejuízos econômicos ao país” e que “Quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros”.
O Contexto: A Escalada Americana contra as facções
A forte reação de Brasília ocorre em resposta ao anúncio feito pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos na quinta-feira (28/05). A administração norte-americana decidiu mudar drasticamente a forma como trata o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) no cenário internacional.
A justificativa de Washington baseia-se na violência extrema dos grupos, em seus ataques brutais contra autoridades e civis, e na expansão de suas operações para outros países da América do Sul e para o próprio território dos EUA.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, utilizou as redes sociais para reforçar o tom da decisão, definindo os grupos como “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil”.
“A administração Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e negar financiamento e recursos a narcoterroristas”, afirmou Rubio.
Primeiro Comando da Capital and Comando Vermelho are two of the most violent criminal organizations in Brazil. Their reach extends throughout our region and into our country.
— Secretary Marco Rubio (@SecRubio) May 28, 2026
Today, I designated these organizations as Foreign Terrorist Organizations and Specially Designated…
As duas fases da ofensiva
A classificação internacional imposta pelos EUA foi dividida em duas etapas, apoiadas na Lei de Imigração e Nacionalidade (Seção 219) e na Ordem Executiva 13224:
- Ação Imediata: Desde 28 de maio, o PCC e o CV foram designados como “Terroristas Globais Especialmente Designados” (SDGTs). O objetivo principal desta fase é cortar fluxos de receita e desmantelar a estrutura financeira das organizações de forma imediata.
- Ação Definitiva: A partir de 5 de junho de 2026, as facções serão enquadradas oficialmente como “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTOs). Esta medida é ainda mais severa, criminalizando qualquer suporte material aos grupos e afetando diretamente questões de imigração.
A articulação em Washington
A decisão americana foi precedida por uma movimentação política direta. Na terça-feira (26/05), dois dias antes do anúncio, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reuniu-se com o presidente dos EUA, em um encontro fora da agenda oficial da Casa Branca que também teve a presença do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do jornalista Paulo Figueiredo.
O próprio senador confirmou aos jornalistas que o foco do encontro foi pleitear a mudança.
“Eu fui exatamente fazer esse pedido expresso a ele para que ele declare PCC e CV como organizações terroristas, que são o que elas são”, declarou Flávio.
Especialistas alertam para o “Reducionismo”
A complexidade do cenário levou o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) a emitir um alerta. Embora reconheça que a decisão é uma prerrogativa soberana dos EUA, o Fórum criticou a “captura” do tema pela disputa eleitoral brasileira.
A entidade advertiu que a celebração da medida demonstra “visões reducionistas e descoladas das reais tarefas que o Poder Público precisa colocar em prática”. Segundo o Fórum, ignorar a fragilidade que sanções unilaterais impõem ao sistema financeiro nacional abre um precedente perigoso.
Para os especialistas, a verdadeira solução está dentro do país: retomar o controle territorial e aplicar uma regulação rigorosa em mercados utilizados para lavagem de dinheiro, focando estrategicamente no monitoramento de “Fintechs, Bets, Criptoativos, entre outros setores”.
Perguntas e Respostas: Facções, EUA e a Reação do Brasil
Por que o Planalto reagiu contra a decisão dos EUA?
O governo brasileiro afirma que a medida fere a soberania nacional, mistura crime comum com terrorismo internacional e abre brechas para sanções que podem prejudicar a economia do Brasil e inovações como o PIX.
O que o Departamento de Estado americano decidiu?
Decidiu incluir o PCC e o Comando Vermelho em listas de terroristas globais. A intenção, segundo o governo norte-americano, é cortar o financiamento e conter a expansão internacional dessas facções.
Qual a relação da família Bolsonaro com o caso?
O senador Flávio Bolsonaro reuniu-se com o presidente dos EUA e afirmou ter feito um “pedido expresso” para essa classificação. O Planalto classificou a atitude como lobby de “traidores” em favor de intervenção estrangeira.
Quando as punições dos EUA entram em vigor?
Medidas de estrangulamento financeiro já estão valendo desde 28 de maio. O enquadramento definitivo e mais severo, como Organizações Terroristas Estrangeiras, ocorrerá em 5 de junho de 2026.
O que dizem os especialistas em segurança pública?
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta que apostar em soluções externas é uma “visão reducionista”. Eles defendem que o Brasil deve focar em controle territorial e fiscalizar setores usados para lavar dinheiro, como Bets e Criptoativos.
*Com informações de Palácio do Planalto