[Foto: Ilustrativa / Google AI]
- Avanço da doença: A OMS revisou o risco do surto de Ebola (vírus Bundibugyo) na República Democrática do Congo (RDC) para “muito alto” em nível nacional.
- Crise de segurança: O combate à epidemia enfrenta barreiras severas e violentas. Em Ituri, na RDC, um hospital foi atacado e teve suprimentos médicos incendiados.
- Ameaça global e repatriação: Embora não seja considerada uma pandemia, a situação forçou a transferência de americanos infectados ou com alto risco de exposição para hospitais na Alemanha e na República Tcheca.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou nesta sexta-feira (2/05), o nível de alerta para o surto de Ebola causado pelo vírus Bundibugyo (BDBV) que atinge a República Democrática do Congo (RDC). A crise, que já havia sido declarada uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) no último dia 17, enfrenta agora um cenário de rápida propagação, subnotificação e violência.
A mudança de patamar foi confirmada pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom. Segundo ele, “o surto de Ebola na República Democrática do Congo está se espalhando rapidamente”. Diante desse avanço, a agência mudou sua perspectiva: “Anteriormente, a OMS avaliou o risco como alto nos níveis nacional e regional e baixo em nível global. Agora, estamos revisando nossa avaliação de risco para muito alto em nível nacional, alto em nível regional e baixo em nível global”, explicou.
A ponta do iceberg e a crise de segurança
Os números oficiais ainda não refletem a dimensão real do problema. O diretor-geral informou que, “até o momento, 82 casos foram confirmados na RDC, com sete mortes confirmadas”, mas fez um alerta contundente sobre a subnotificação. “Mas sabemos que a epidemia na RDC é muito maior. Atualmente, existem quase 750 casos suspeitos e 177 mortes suspeitas.”
O combate ao vírus ocorre em um dos ambientes operacionais mais hostis do mundo. As equipes médicas têm enfrentado ataques que sabotam a contenção da doença. “Ontem mesmo, houve um incidente de segurança em um hospital em Ituri, onde tendas e suprimentos médicos foram incendiados”, lamentou Adhanom. O impacto dessa violência na saúde pública é direto, o que levou o diretor a enfatizar que “construir a confiança nas comunidades afetadas é fundamental para uma resposta bem-sucedida e é uma das nossas maiores prioridades.”
Sem vacinas: o desafio do vírus Bundibugyo
A epidemia atual é impulsionada por uma variação do gênero Orthoebolavirus. O grande obstáculo médico neste momento é a ausência de vacinas ou terapias aprovadas para essa cepa específica, diferentemente do que ocorre com o vírus Ebola tradicional. Além disso, a plataforma comum de testes rápidos (GeneXpert) não consegue detectar este vírus, exigindo infraestrutura laboratorial de RT-PCR.
Diante da falta de tratamentos, o controle depende exclusivamente de intervenções robustas, como isolamento e rastreamento de contatos. Em 19 de maio, o Comitê de Emergência da OMS confirmou que o evento não atende aos critérios de uma emergência pandêmica.
Na quinta-feira (21), o líder da área de pesquisa e desenvolvimento da OMS, Vasee Moorthy, detalhou que, embora o processo de seleção de candidatas à vacina tenha sido acelerado, as etapas clínicas obrigatórias impõem um freio na resposta à crise. Atualmente, existe um imunizante em desenvolvimento com foco específico na cepa Bundibugyo, mas ainda não há doses prontas para que os ensaios clínicos comecem neste exato momento.
Apesar do gargalo na produção, Moorthy garantiu que “esta deve ser a vacina priorizada como a mais promissora contra a cepa Bundibugyo”. O alerta principal, no entanto, fica por conta da urgência que o surto exige em contraste com a lentidão da ciência. Sendo categórico sobre o tempo de espera para que a vacina chegue às populações afetadas, o especialista explicou: “A informação que temos é que isso provavelmente levará de seis a nove meses”.
Como plano paralelo a esse longo período, a OMS monitora uma segunda vacina candidata. Segundo o consultor, este imunizante avança em outra fase de desenvolvimento e poderá ter doses liberadas para ensaios clínicos em um prazo mais curto, estimado entre dois e três meses.
Contudo, a organização adota um tom conservador sobre essa segunda opção, já que o cenário ainda é prematuro. “Há muita incerteza. Vai depender dos resultados de testes em animais para que ela possa ser considerada uma vacina promissora”, alertou Moorthy.
Casos internacionais e ações da OMS
Apesar de o risco global ainda ser considerado baixo, o vírus já cruzou fronteiras. “A situação em Uganda é estável, com dois casos confirmados em pessoas que viajaram da RDC e uma morte”, detalhou Adhanom.
O surto também já atinge estrangeiros que atuavam na linha de frente ou em áreas de risco. “Um cidadão americano que trabalhava na RDC também teve teste positivo confirmado e foi transferido para a Alemanha para receber cuidados”, relatou o diretor-geral. “Também estamos cientes de relatos de hoje sobre outro cidadão americano com contatos de alto risco que foi transferido para a República Tcheca.”
Para frear a emergência, a OMS está enviando reforços pesados ao continente africano. “Além da nossa equipe nacional na RDC, até o momento implantamos 22 funcionários internacionais em campo, incluindo algumas das nossas pessoas mais experientes”, afirmou. “No terreno, estamos apoiando as autoridades nacionais em todos os pilares da resposta, incluindo o rastreamento de contatos, a criação de centros de tratamento, comunicação de risco e engajamento comunitário, entre outros.”
A estratégia envolve também uma forte colaboração regional. “Juntamente com o CDC da África, a OMS também está estabelecendo uma equipe continental de apoio à gestão de incidentes. Nos próximos dias, publicaremos um plano estratégico multiagencial de preparação e resposta, o SPRP (Strategic Preparedness and Response Plan), alinhado com os planos nacionais da RDC e de Uganda e com nossos parceiros”, concluiu.
Avanço Internacional e Força-Tarefa da OMS
Resumo da situação fora do Congo e a estratégia de contenção
Impacto Fora da RDC
- 🇺🇬 Uganda: 2 casos importados confirmados e 1 óbito. Situação atual estável.
- 🇩🇪 Alemanha: Recebeu 1 cidadão americano infectado na RDC para tratamento.
- 🇨🇿 República Tcheca: Recebeu 1 cidadão americano com histórico de contato de alto risco.
Estratégia e Contenção
- 👥 Reforço em Campo: 22 funcionários internacionais altamente experientes enviados pela OMS.
- 🏥 Frentes de Atuação: Rastreamento de contatos, centros de tratamento e comunicação de risco.
- 🌍 Ação Continental: Gestão de incidentes junto ao CDC da África e criação do plano multiagencial (SPRP).
Recomendações Globais e Fronteiras
A OMS emitiu diretrizes divididas em níveis de risco:
- RDC e Uganda (Risco Muito Alto / Alto): Recomendação para ativação imediata de centros de operações de emergência, rastreamento de contatos por 21 dias, testagem robusta, sepultamentos seguros e proteção maciça a profissionais de saúde. A OMS também pede a negociação de corredores de segurança para as equipes.
- Países de fronteira terrestre (Risco Alto): Intensificar a vigilância em passagens terrestres e realizar triagens rigorosas. No entanto, a OMS não recomenda o fechamento de fronteiras ou a suspensão de voos.
- Restante do mundo (Risco Baixo): Desaconselha-se viagens para os locais afetados. Os países devem preparar seus sistemas para detectar viajantes com febres inexplicáveis vindos dessas áreas.
Linha do Tempo: A escalada do Vírus Bundibugyo (Ebola)
Acompanhe a cronologia da crise, dos primeiros sintomas à busca por uma vacina
Primeiros Indícios e Sintomas Iniciais
Um profissional de saúde manifesta febre, hemorragia, vômito e mal-estar intenso, vindo a falecer em Bunia. Paralelamente, em 25 de abril, iniciam-se os sintomas do caso índice presumido do surto.
Alerta Notificado à OMS
A Organização Mundial da Saúde é alertada sobre uma doença desconhecida com alta mortalidade na Zona de Saúde de Mongbwalu (RDC). O quadro inclui o óbito de quatro profissionais de saúde em um intervalo de apenas quatro dias.
Entrada de Caso Suspeito em Uganda
Um idoso vindo da RDC dá entrada em um hospital particular na capital de Uganda, Kampala, apresentando sintomas graves da enfermidade.
Investigação de Campo e Óbito
Uma equipe de resposta rápida realiza investigação epidemiológica em Mongbwalu e Rwampara. O INRB (Kinshasa) recebe 13 amostras de sangue para análise. O idoso internado em Kampala falece e seu corpo é transladado de volta para a RDC.
Confirmação Laboratorial e Decretos de Surto
O teste PCR dá positivo para o vírus Bundibugyo em 8 das 13 amostras. A RDC declara oficialmente o 17º surto de Ebola no país. Uganda também confirma o surto devido ao caso importado. Balanço atinge 246 suspeitos e 80 mortes na RDC.
Decreto de Emergência Internacional (ESPII)
Um segundo caso importado é confirmado em Kampala, sem ligação com o primeiro. O Diretor-Geral da OMS declara oficialmente o surto como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII), mas define que o evento ainda não atende aos critérios de pandemia.
Avanço Urbano e Comitê de Emergência
OMS convoca a primeira reunião do Comitê de Emergência. Confirma-se a chegada da doença a grandes cidades como Goma e Kampala, além da infecção de um cidadão dos EUA. Mais de 500 casos suspeitos e 130 mortes são reportados nas regiões afetadas.
Novo Balanço e Alerta sobre a Vacina
A OMS confirma 51 casos oficiais, mas alerta para quase 600 casos suspeitos e 139 mortes na RDC e Uganda. O controle esbarra no deslocamento de 100 mil pessoas devido a conflitos armados em Ituri. A vacina mais promissora deve demorar de seis a nove meses para ficar pronta.
Risco “Muito Alto”, Ataques e Repatriação
A OMS eleva o risco na RDC para “muito alto” nacionalmente e “alto” na região, após balanço de 82 confirmados, quase 750 casos suspeitos e 177 mortes suspeitas. Em Ituri, tendas e suprimentos de um hospital são incendiados, agravando a crise. Dois cidadãos americanos são transferidos para Alemanha e República Tcheca devido a infecção ou contato de alto risco.
Características da variante e as diretrizes jurídicas de controle
A espécie Orthoebolavirus bundibugyoense é uma zoonose cujo reservatório natural na natureza são os morcegos frugívoros (Pteropodidae). O vírus infecta humanos pelo contato com sangue ou secreções de animais selvagens doentes (como porcos-espinhos e primatas) e passa a se espalhar de pessoa para pessoa através do contato direto com fluidos corporais (feces, vômito, suor, saliva e sangue) ou superfícies e roupas contaminadas. Em situações raras, a transmissão de homens recuperados para suas parceiras foi documentada devido à persistência do vírus no sêmen.
A classificação como emergência internacional ocorre porque a cepa possui uma taxa de letalidade histórica de 30% a 50% (em surtos ocorridos em 2007 e 2012) e, ao contrário da doença causada pelo vírus Ebola tradicional (DEV), que possui tratamento por anticorpos monoclonais como Ansuvimab e Inmazeb, e vacinas como Ervebo e Zabdeno, “não existem atualmente terapias ou vacinas específicas aprovadas para o vírus Bundibugyo”.
Apesar do nível máximo de alerta, a OMS esclareceu formalmente que o evento “não preenche os critérios de emergência pandêmica” definidos pelo RSI. Para atingir o status pandêmico, a doença precisaria demonstrar cumulativamente uma ampla propagação geográfica ativa dentro de múltiplos Estados, exceder de forma generalizada a capacidade de resposta dos sistemas de saúde e provocar perturbações econômicas ou sociais substanciais em nível internacional.
Para os países afetados, a OMS recomendou triagem transfronteiriça com medição de temperatura, veto a viagens internacionais de contatos por 21 dias, isolamento de pacientes até a obtenção de dois testes negativos com intervalo de 48 horas e a execução de “sepultamentos seguros e dignos” para evitar o contágio por cadáveres. No entanto, o Diretor-Geral reforçou uma ordem estrita direcionada aos países que estão fora do epicentro:
“Nenhum país deveria fechar suas fronteiras ou impor restrições a viagens e comércio. Tais medidas geralmente são implementadas por medo e não têm base científica.”
A justificativa técnica determina que barreiras comerciais severas quebram o abastecimento humanitário, destroem economias locais e empurram as populações para passagens de fronteira informais e clandestinas, inviabilizando o rastreamento e acelerando o contágio internacional.
*Com informações de OMS