Compras em um supermercado | Imagem: Ilustrativa / Google AI
[Foto: Ilustrativa / Google AI]
- Custo: Pelo segundo mês consecutivo, o custo da cesta básica subiu em todas as 27 capitais brasileiras e no Distrito Federal.
- Itens críticos: Leite integral e batata registram disparadas de dois dígitos em várias cidades devido à entressafra e à restrição de oferta no campo.
- Impacto social: O Dieese estima que o salário mínimo ideal deveria ser de R$ 7.612,49, o equivalente a 4,70 vezes o valor vigente.
O custo de vida alimentar no Brasil sofreu um novo e severo impacto em abril. Pelo segundo mês seguido, o valor do conjunto de alimentos básicos registrou alta em todas as 27 capitais brasileiras onde o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), realiza o levantamento. No acumulado do primeiro quadrimestre de 2026, a tendência de alta é unânime em todo o país, com variações que chegam a 14,80% em Aracaju.
Em abril, as elevações mais expressivas foram identificadas em Porto Velho (5,60%), Fortaleza (5,46%), Cuiabá (4,97%), Boa Vista (4,36%), Rio Branco (4,05%) e Teresina (4,02%). São Paulo consolidou-se, mais uma vez, como a capital com a cesta mais cara do país, atingindo o custo médio de R$ 906,14. No extremo oposto, cidades do Norte e Nordeste, onde a composição da cesta é diferenciada pela substituição da farinha de trigo pela de mandioca e menor quantidade de carne, registaram os menores valores, com destaque para Aracaju (R$ 619,32) e São Luís (R$ 639,24).
Custo da Cesta Básica em 27 Capitais
Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos | Abril de 2026
| Capital | Valor (R$) | Var. Mensal (%) | % SM Líquido | Tempo Trabalho | Var. Ano (%) | Var. 12 Meses (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| São Paulo | 906,14 | 2,51 | 60,43 | 122h59m | 7,12 | -0,34 |
| Cuiabá | 880,06 | 4,97 | 58,69 | 119h26m | 11,22 | 9,99 |
| Rio de Janeiro | 879,03 | 1,27 | 58,62 | 119h18m | 10,98 | 3,45 |
| Florianópolis | 847,26 | 2,78 | 56,51 | 114h59m | 5,74 | -1,27 |
| Campo Grande | 826,89 | 2,60 | 55,15 | 112h13m | 6,57 | 2,71 |
| Porto Alegre | 811,82 | 1,50 | 54,14 | 110h11m | 3,52 | -2,69 |
| Vitória | 810,45 | 2,56 | 54,05 | 109h59m | 11,44 | 2,22 |
| Curitiba | 796,10 | 3,44 | 53,09 | 108h03m | 7,89 | 0,30 |
| Belo Horizonte | 793,75 | 1,20 | 52,94 | 107h44m | 9,75 | 4,12 |
| Goiânia | 787,08 | 3,50 | 52,49 | 106h49m | 8,42 | 2,56 |
| Brasília | 768,22 | 2,92 | 51,23 | 104h16m | 7,56 | -0,98 |
| Fortaleza | 767,67 | 5,46 | 51,20 | 104h11m | 13,39 | 2,83 |
| Palmas | 734,53 | 2,38 | 48,99 | 99h41m | 8,40 | -1,64 |
| Belém | 727,70 | 3,86 | 48,53 | 98h46m | 9,17 | 0,21 |
| Boa Vista | 709,68 | 4,36 | 47,33 | 96h19m | 8,82 | -1,31 |
| Manaus | 697,29 | 3,22 | 46,50 | 94h38m | 12,39 | 3,80 |
| Teresina | 695,68 | 4,02 | 46,40 | 94h25m | 7,84 | 3,05 |
| Macapá | 694,88 | 3,40 | 46,34 | 94h19m | 6,72 | 5,20 |
| Salvador | 677,25 | 2,28 | 45,17 | 91h55m | 11,49 | 7,14 |
| João Pessoa | 676,44 | 3,60 | 45,11 | 91h49m | 13,18 | 5,44 |
| Recife | 672,75 | 2,77 | 44,87 | 91h18m | 12,86 | 3,07 |
| Natal | 669,39 | 2,39 | 44,64 | 90h51m | 12,10 | 1,89 |
| Rio Branco | 667,14 | 4,05 | 44,49 | 90h32m | 6,55 | -1,57 |
| Porto Velho | 658,35 | 5,60 | 43,91 | 89h21m | 11,21 | -1,14 |
| Maceió | 652,94 | 1,27 | 43,55 | 88h37m | 10,73 | 4,88 |
| São Luís | 639,24 | 0,79 | 42,63 | 86h46m | 1,56 | -4,84 |
| Aracaju | 619,32 | 3,49 | 41,30 | 84h03m | 14,80 | 6,79 |
Fonte: Conab/DIEESE
Os “vilões” do mês: Leite, batata e tomate em disparada
O grande protagonista do aumento em abril foi o leite integral, cujo preço subiu em todas as capitais analisadas. A variação mais drástica ocorreu em Teresina, com alta de 15,70%. Segundo a pesquisa, este movimento foi provocado pela “redução da oferta no campo devido à entressafra, o que elevou o preço dos derivados lácteos”.
A batata também pesou no orçamento das famílias do Centro-Sul, com altas em todas as capitais da região. As elevações variaram entre 4,66% em Vitória e impressionantes 19,57% em Campo Grande. O Dieese aponta que a “restrição de oferta do tubérculo pelo final da safra explica a elevação no varejo”. Outro item crítico foi o tomate, que subiu em 25 cidades, com destaque para Fortaleza (25,58%), devido ao período de transição entre as safras de verão e de inverno.
Pressão no feijão, arroz e proteínas
O feijão, base da mesa brasileira, teve alta em 26 capitais. O grão carioca chegou a subir 17,86% em Palmas, impulsionado pela firmeza da demanda. O arroz também não deu trégua, com aumentos em 21 cidades. Em Vitória, a alta chegou a 13,73%. O relatório indica que, mesmo com a colheita iniciada, o “orizicultor disponibilizou poucos lotes de arroz para venda, à espera de melhores preços”, o que reduziu a oferta no mercado.
Até mesmo o pão francês e a carne bovina de primeira apresentaram aumentos em 22 das 27 cidades. No caso da carne, as altas foram sustentadas pela “demanda externa aquecida e pela oferta restrita de animais prontos para abate”. O café em pó foi uma das raras exceções, registrando queda em 22 capitais devido à proximidade da nova safra e incertezas mundiais que reduziram o preço do grão.
Destaques da Cesta Básica
Principais variações de preços em Abril de 2026
Maior alta: Teresina (15,70%). Motivo: Entressafra reduziu a oferta no campo.
Campo Grande registrou 19,57%. Motivo: Final da safra restringiu a oferta.
Fortaleza saltou 25,58%. Motivo: Período entre as safras de verão e inverno.
Palmas teve alta de 17,86%. Motivo: Demanda aquecida sustentou os preços.
Destaque: Cuiabá (4,78%). Motivo: Demanda externa e oferta restrita de animais.
Vitória registrou 13,73%. Motivo: Orizicultores retendo lotes à espera de preços melhores.
Queda de -4,56% em Cuiabá. Motivo: Proximidade da safra e menor volume exportado.
Palmas subiu 4,00%. Motivo: Trigo com oferta restrita e custo elevado das farinhas.
O abismo do salário mínimo necessário
O impacto no bolso do trabalhador é profundo. Em abril de 2026, o tempo médio necessário para adquirir os produtos da cesta básica foi de 100 horas e 52 minutos, um aumento em relação às 97 horas e 55 minutos registradas em março. Para o trabalhador remunerado pelo piso nacional, o comprometimento do salário mínimo líquido (após o desconto da Previdência) chegou a 49,57% da renda apenas para alimentação básica.
Com base no custo da cesta de São Paulo, e respeitando o preceito constitucional de que o salário deve suprir alimentação, moradia, saúde e outras necessidades, o Dieese estimou que o salário mínimo necessário deveria ser de R$ 7.612,49. O valor é 4,70 vezes maior que o mínimo atual de R$ 1.621,00.
*Com informações de Dieese