[Foto: Ilustrativa / LensGO]
[Foto: Ilustrativa / LensGO]
- Crescimento acelerado: O número de agressões a médicos no RJ saltou de 397 (2018-2021) para 590 (2022-2025), revelando uma escalada da violência nas unidades de saúde.
- O peso do gênero: O cruzamento dos dados mostra que as mulheres são as vítimas em mais de 60% de todas as ocorrências mapeadas pelo Conselho.
- Rede Pública em alerta: Mais de 70% dos casos ocorrem em estabelecimentos públicos. CREMERJ debate botão de pânico para conter as ameaças.
Exercer a medicina está se tornando, para alguns, uma atividade de alto risco no Estado do Rio de Janeiro. Um levantamento inédito divulgado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ) revela que 987 médicos foram vítimas de algum tipo de agressão durante a atividade profissional entre os anos de 2018 e 2025.
O levantamento, divulgado nesta terça-feira (05/05) durante um evento conjunto com o Conselho Federal de Medicina (CFM) em Botafogo, na Zona Sul do Rio, permite traçar um verdadeiro “Raio-X” da violência: onde ela ocorre, como se manifesta e quem são os seus principais alvos. E os números são reveladores.
Para o presidente do CREMERJ, Antônio Braga “esses dados mostram uma realidade grave, que não pode mais ser tolerada. Estamos falando de profissionais que estão na linha de frente, cuidando da população, e que precisam ter garantidas condições mínimas de segurança para exercer sua função”, destacou.
Mulheres são o alvo principal em todas as categorias
Ao destrinchar as 987 ocorrências oficialmente comunicadas pelos profissionais, fica evidente uma forte disparidade de gênero. As médicas mulheres são a maioria absoluta das vítimas em todas as tipificações de agressão registradas.
A agressão verbal é o crime mais comum nos corredores e consultórios, respondendo por quase metade do total (459 registros). Deste montante, 297 atingiram médicas, contra 162 homens. O mesmo padrão se repete na segunda categoria mais denunciada, o assédio moral: foram 208 ocorrências (121 contra mulheres e 87 contra homens).
Quando a violência escala para a agressão física, o cenário de vulnerabilidade feminina se mantém. Dos 89 casos de agressão física contabilizados, 60 foram cometidos contra médicas (mais que o dobro dos 29 casos contra homens). Outros tipos de agressão somaram 217 registros (114 envolvendo mulheres e 103 homens). O Conselho ainda catalogou 14 ocorrências classificadas exclusivamente como agressão a mulheres médicas.
Na soma total dos dados apresentados, as mulheres representam 606 das 987 vítimas, ou seja, mais de 61% de todos os profissionais agredidos no período.
O presidente do CREMERJ ressaltou: “É absolutamente inaceitável que médicas sejam vítimas de violência física dentro de unidades de saúde. Trata-se de uma situação extrema, que evidencia o nível de vulnerabilidade a que esses profissionais estão expostos e reforça a urgência de medidas efetivas de proteção”. E arrematou: “Sem segurança não há médico e sem médico não há saúde”.
Crescimento acelerado e o peso da rede pública
A linha do tempo traçada pelo CREMERJ acende outro sinal de alerta: o problema está se agravando. Ao dividir o levantamento em dois blocos de quatro anos, nota-se um salto expressivo. Entre 2018 e 2021, o estado contabilizou 397 casos. Já no período mais recente, de 2022 a 2025, os registros dispararam para 590 ocorrências. Isso indica um crescimento acelerado nas notificações de violência contra a classe médica.
O local de trabalho também é um fator determinante de risco. O levantamento revela que a maior parte da violência acontece sob a gestão do Estado ou dos municípios. Foram 717 casos registrados em unidades públicas de saúde (cerca de 72% do total), um número imensamente superior aos 270 casos ocorridos em unidades privadas.
O abismo da subnotificação
Apesar de beirar a marca de mil agressões, o CREMERJ ressalta que a fotografia atual reflete apenas os casos oficialmente comunicados ao Conselho. Existe uma grave subnotificação, impulsionada pelo medo e pela insegurança.
Segundo o Conselho, muitos médicos optam por fazer apenas o boletim de ocorrência (BO) ou registro de ocorrência (RO) junto às autoridades policiais, ignorando o relato institucional. Pior ainda: em diversos casos, o profissional sequer formaliza a denúncia criminal. Diante disso, a autarquia reforça que é crucial não apenas acionar a polícia, mas também preencher o Portal da Defesa Médica para gerar dados robustos que levem os gestores a agir.
Evento cobra medidas e aplicação de botão de pânico
Diante deste cenário crítico, o CREMERJ, em conjunto com o Conselho Federal de Medicina (CFM), realizou nesta terça-feira (05) o evento “Divulga CFM” na sede da autarquia, em Botafogo, Zona Sul carioca. O foco foi debater o cumprimento da Resolução CFM nº 2.444/2025 e a Lei estadual nº 11.070/2025, que prevê a instalação de um botão de pânico nas unidades de saúde.
O conselheiro federal e do CREMERJ, Raphael Câmara, relator da Resolução, reforçou que a mudança estrutural é vital para o sistema. “A violência contra o médico precisa chegar ao fim e não pode ser naturalizada. Não é aceitável que profissionais exerçam suas atividades sob ameaça, intimidação ou agressão. A Resolução CFM nº 2.444/2025 traz diretrizes objetivas para garantir segurança, mas é fundamental que haja compromisso efetivo dos gestores e das autoridades para sua implementação”.
“Quando o médico trabalha sob pressão e medo, todo o sistema de saúde é afetado. Garantir condições seguras de trabalho é também garantir qualidade no atendimento ao paciente. É essencial que os gestores implementem as medidas previstas na resolução, como o botão de pânico, blindagem e outras ações de proteção”, complementou Câmara.
Homenagem e articulação institucional
O evento reuniu um público estratégico, incluindo diretores técnicos, médicos, gestores e autoridades de diversas esferas, como Ministério Público, Defensoria Pública, Polícia Civil e representantes das secretarias Estadual e Municipal de Saúde, além do Legislativo municipal.
Para ressaltar que os números do levantamento representam vidas reais, o CREMERJ homenageou três profissionais que foram vítimas de violência durante o trabalho: os médicos Amanda Michelle Gil, Eduardo Campos da Cunha e Sandra Lucia Bouyer, reconhecidos pela coragem de se posicionarem na busca por uma transformação estrutural. Como concluiu o presidente do CREMERJ, “é indispensável o envolvimento de gestores, autoridades de segurança pública e do sistema de justiça. Sem essa articulação, as medidas não chegam à ponta e o problema persiste”.
Por Dentro dos Dados: Violência contra Médicos
Qual foi o total de agressões registradas e qual o perfil das vítimas?
Os casos estão aumentando ou diminuindo no RJ?
Onde a maioria das agressões acontece?
Como o número de agressões físicas e verbais está distribuído?
Por que o CREMERJ afirma que o número real é ainda maior?
*Com informações de CREMERJ