Uma operação militar de larga escala em águas internacionais resultou captura de três brasileiros em uma frota civil na noite desta quarta-feira (29/04). Integrantes da delegação brasileira da Global Sumud Flotilla (GSF) foram interceptados por forças navais de Israel nas proximidades da Ilha de Creta, no Mar Mediterrâneo, em uma ação classificada pelos organizadores como um ato de “pirataria moderna”.
A interceptação ocorreu em águas internacionais, longe de qualquer zona de conflito territorial. Em comunicado oficial, a Global Sumud Flotilla foi enfática: “Sejamos claros sobre o que isso é. Isso é pirataria. É a apreensão ilegal de seres humanos em alto mar, perto de Creta, uma afirmação de que israel pode agir com total impunidade, muito além de suas próprias fronteiras, sem consequências”.
Quem são os brasileiros
A delegação brasileira participava de uma missão humanitária não violenta que levava ajuda à Faixa de Gaza. Os três brasileiros capturados e levados para embarcações militares são:
- Amanda Coelho Marzall (Mandi Coelho): Militante do PSTU, integrante da Liga Internacional dos Trabalhadores e pré-candidata a deputada federal por São Paulo.
- Leandro Lanfredi de Andrade: Petroleiro da Petrobras Transporte, diretor do SindiPetro-RJ e da Federação Nacional de Petroleiros (FNP).
- Thiago de Ávila e Silva Oliveira: Militante internacionalista e membro do Comitê Diretor Internacional da GSF.
Imagens da abordagem mostram os ativistas com coletes salva-vidas e mãos para cima em sinal de rendição, enquanto eram transferidos para os navios israelenses.
“Sabotagem” e “Negligência Armamentizada”
A denúncia da organização vai além das prisões. Mais de 180 civis de diversas nacionalidades foram abordados. Segundo a GSF, Israel utilizou uma tática de “negligência armamentizada”, incapacitando as embarcações, destruindo motores e bloqueando sinais de comunicação de emergência, e abandonando-as à própria sorte.
“Os militares abordaram as embarcações apenas para causar danos que as impedissem de navegar, fugindo em seguida, sequestrando alguns participantes e deixando outros à deriva com a aproximação da tempestade”, denunciou o grupo, referindo-se a uma forte tormenta que se aproxima da região. O comunicado ainda destaca que a ação visa garantir que a “aniquilação em curso de Gaza prossiga sem testemunhas ou interferência”.
Brasileiras em águas seguras
Apesar da ação da marinha israelense, segundo informações, parte da delegação brasileira conseguiu evitar a captura. Beatriz Moreira de Oliveira, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), permanece a bordo do barco Amazona, teria conseguido despistar os militares e entrar em águas territoriais da Grécia.
As coordenadoras da Global Sumud Brasil, Lisi Proença e Ariadne Teles, que estavam no barco SAF SAF, haviam desembarcado na Sicília (Itália) pouco antes da interceptação para coordenar o apoio em terra, escapando ilesas da abordagem.
Ariadne Telles, advogada e coordenadora da GSF que escapou da interceptação militar, publicou um vídeo atualizando seu status e reafirmando a continuidade da missão. Navegando a caminho de um porto seguro, a ativista tranquilizou apoiadores, mas fez um apelo urgente pela mobilização em prol dos companheiros detidos.
“Eu tô bem, mas meus camaradas foram sequestrados ontem. Eu tô agora navegando. […] A gente vai continuar por todos aqueles que estão sequestrados e que querem que a gente continue”, declarou Ariadne. Em tom de resistência, ela mandou um recado direto às forças navais: “Se os sionistas acham que vão parar a gente, eles estão muito enganados.”
A ativista ressaltou o caráter arbitrário da abordagem israelense, destacando que as embarcações sequer haviam iniciado a rota final para o território palestino no momento do ataque. “Ontem a gente foi interceptado da forma mais compacta possível. E sem ir em direção a Gaza nesse exato momento, porque ainda tínhamos paradas. Os crimes de Israel só vêm aumentando e a gente precisa muito da mobilização de vocês”, convocou.
Longe de recuar, Ariadne confirmou que a apreensão acionou uma tática de contingência da organização para manter a pressão internacional contra o bloqueio. “Nesse momento, a gente tá navegando em protesto […]. E como é a nossa estratégia, quando eles interceptam, a gente manda mais barcos. E a gente tem mais barcos. A gente tem pessoas. E a gente tem esse levante global contra o Estado [genocida] de Israel”, concluiu.
Um precedente catastrófico
A missão, que partiu de Augusta (Itália) em 26 de abril com 56 embarcações, contava com o apoio de navios como o Arctic Sunrise, do Greenpeace, e o Open Arms. A organização agora cobra responsabilidade das nações cujas bandeiras foram violadas (Polônia, Itália, Espanha, Eslovênia e França) e exige missões de busca e salvamento imediatas.
“O silêncio dos governos mundiais sinaliza que o direito internacional é aplicado seletivamente e que a vida dos civis pode ser alvo de israel, em qualquer lugar do mundo, a qualquer momento, sem consequências”, conclui a Global Sumud Flotilla.
| Questão | Detalhes do Caso |
|---|---|
| Quem são os brasileiros capturados? | Amanda “Mandi” Coelho (PSTU), Leandro Lanfredi (SindiPetro-RJ), Thiago de Ávila e Thainara Rogério. |
| Onde ocorreu a interceptação? | Em águas internacionais perto de Creta (Grécia), a 900 quilômetros de Gaza. |
| Qual o estado dos navios atacados? | Muitos tiveram motores destruídos e comunicações bloqueadas, sendo deixados à deriva durante uma tempestade. |
| Quem conseguiu escapar do sequestro? | Beatriz Moreira de Oliveira (entrou em águas gregas), além de Lisi Proença e Ariadne Teles (desembarcaram na Itália). |
| Qual a acusação da missão humanitária? | O grupo acusa Israel de pirataria, sequestro de civis e violação deliberada das leis marítimas internacionais. |
A trajetória de Leandro Lanfredi: Do Rio de Janeiro ao Mediterrâneo
A participação de Leandro Lanfredi na missão não foi um ato isolado, mas o ápice de uma campanha de solidariedade internacional encabeçada pela Federação Nacional dos Petroleiros (FNP). Lanfredi chegou a Barcelona, na Espanha, no dia 6 de abril, onde se uniu a ativistas de todo o mundo para uma preparação intensiva antes de zarpar. Para o dirigente, estar na Flotilha Global Sumud é uma extensão da luta que os petroleiros travam no Brasil em defesa da soberania. Durante os preparativos, ele reforçou a responsabilidade da categoria: “Viemos como sindicato e federação dizendo que não queremos que nenhuma gota do petróleo brasileiro sirva para o genocídio que Israel faz no povo palestino, seja por envio direto ou indireto”.
Petróleo como ferramenta de resistência e política externa
A FNP tem utilizado a pauta do petróleo como um instrumento de pressão política. Além de protocolar exigências junto à Petrobras para a suspensão do envio de combustível a Israel, o grupo defende que a estatal brasileira atue no auxílio de outros povos sob cerco econômico. Lanfredi pontuou que a luta contra o imperialismo é global, citando a necessidade de envio imediato de petróleo para Cuba para combater as tentativas de asfixia econômica lideradas por figuras como Donald Trump. Segundo o diretor, a vitória do imperialismo no exterior fortalece ataques contra a classe trabalhadora na América Latina: “Se o imperialismo vence lá fora, eles terão mais força para atacar nossa região”, alertou, vinculando a liberdade da Palestina à soberania nacional brasileira.
O Vídeo de Testemunho
Após a confirmação do sequestro em águas internacionais, a Global Sumud Flotilla divulgou um vídeo que Leandro Lanfredi gravou preventivamente, caso a missão fosse interrompida pela força militar. Na gravação, o petroleiro faz uma convocação direta às autoridades brasileiras. Segue a citação na íntegra:
“Se você estiver vendo esse vídeo, significa que eu Leandro Lanfredi, Petroleiro, cidadão brasileiro, fui sequestrado é, e conduzido contra pela minha vontade pelas forças de ocupação de Israel, que me impediram de chegar ao esrado palestino, estado esse que é reconhecido pelo estado brasileiro. Se você estiver vendo então esse vídeo, peço que repasse essa mensagem, exija que o governo brasileiro, o Itamaraty atuem pela minha libertação e de todos os outros demais sequestrados, e pra que o Brasil rompa relações diplomáticas, comerciais e militares com a entidade colonialista e racista conhecida pelo nome de Israel”.
Mandi Coelho está incomunicável e Thiago Ávila relata terror em alto mar
Amanda “Mandi” Coelho, militante do PSTU e pré-candidata a deputada federal por São Paulo, está oficialmente incomunicável desde as 16h30 (horário de Brasília) desta quarta-feira, 29 de abril.
O militante internacionalista Thiago Ávila, integrante do Comitê Diretor da GSF, conseguiu enviar um relato contundente sobre os momentos que antecederam o corte total das comunicações. Segundo ele, a abordagem não teve nada de protocolar:
“Nossos barcos foram abordados por embarcações militares, auto-identificados como “israel”, apontando lasers e armas de assalto semi-automáticas ordenando aos participantes que fossem para a frente dos barcos e que se colocassem de joelhos e mãos. As comunicações dos nossos barcos estão sendo bloqueadas e um SOS foi emitido.”
Delegação Brasileira
A delegação brasileira da Global Sumud Flotilla 2026 é composta por um mosaico de lideranças que conectam as lutas territoriais da América Latina à resistência internacionalista no Oriente Médio. Entre advogados, comunicadores, estudantes e operários, o grupo carrega o peso de movimentos sociais históricos e a urgência da justiça climática e soberania dos povos.
No centro da crise diplomática atual, encontram-se três figuras fundamentais que estão sob custódia das forças israelenses. Leandro Lanfredi, petroleiro da Transpetro e diretor sindical, é o rosto da campanha que tenta impedir que o combustível brasileiro alimente a “máquina de guerra” na região. Ao seu lado, a comunicadora e estudante da USP Mandi Coelho representa a juventude socialista e o movimento estudantil, tendo sido peça-chave na organização dos primeiros acampamentos pró-Palestina no Brasil. Fecha o grupo de detidos o ativista ambientalista Thiago Ávila, veterano de missões humanitárias e membro do comitê diretivo da flotilha, que já enfrentou o confinamento solitário em Israel em 2025 após denunciar crimes contra a humanidade perante tribunais militares.
A coordenação e a retaguarda da missão também contam com nomes que articulam a defesa dos direitos humanos. Ariadne Telles, advogada amazônida, une a experiência na defesa de territórios tradicionais à luta pela soberania alimentar e contra a especulação imobiliária. Na mesma linha de defesa ambiental e social, Lucas Gusmão traz a perspectiva da Chapada Diamantina para o debate da justiça climática, defendendo embargos energéticos como ferramenta política. Já a organização e a guerra de narrativas do Sul Global ficam a cargo de Lisi Proença, comunicadora focada em construir pontes culturais e políticas contra o imperialismo, enquanto Beatriz Moreira, militante do MAB, conecta a luta dos atingidos por barragens aos processos de mobilização global rumo à COP30.
| Nome | Organização / Perfil | Eixo de Atuação | Status Atual |
|---|---|---|---|
| Leandro Lanfredi | Diretor FNP / Sindipetro-RJ | Campanha contra o envio de petróleo para a guerra. | SOB CUSTÓDIA (ISRAEL) |
| Mandi Coelho | PSTU / Estudante USP | Comunicação digital e movimento estudantil. | SOB CUSTÓDIA (ISRAEL) |
| Thiago Ávila | Comitê GSF / Ambientalista | Missões de solidariedade e denúncia internacional. | SOB CUSTÓDIA (ISRAEL) |
| Ariadne Telles | Advogada / Coordenadora GSF | Direitos humanos, agroecologia e luta amazônida. | Em suporte (Itália) |
| Beatriz Moreira | MAB / MAR | Justiça climática e atingidos por barragens. | Em trânsito (Grécia) |
| Lisi Proença | Comunicadora / Ativista | Narrativas do Sul Global e resistência cultural. | Em suporte (Itália) |
| Lucas Gusmão | Coordenador GSF / Anarquista | Tratado de Transição Energética e Embargo Energético. | Ativo na missão |
Internacionalismo e a defesa de uma Petrobras Estatal
Para os integrantes da FNP, o engajamento na flotilha é também uma forma de reconstruir o internacionalismo da classe trabalhadora e reafirmar a pauta de uma Petrobras 100% estatal e administrada por quem produz. Lanfredi concluiu sua última comunicação antes do ataque afirmando que a missão visa fortalecer a solidariedade aos povos palestino, libanês e iraniano, contribuindo para a derrota do sionismo e do imperialismo, em busca de uma “Palestina livre, do rio ao mar”.
Histórico: O precedente de 2025 e a libertação de Luizianne Lins
A crise atual é um capítulo maior de um enredo que o Itamaraty já enfrentou. Em setembro de 2025, a Flotilha Sumud navegou com 42 barcos e 462 ativistas, sendo igualmente interceptada pelas forças israelenses. Naquela ocasião, a abordagem ocorreu a cerca de 70 milhas náuticas da costa de Gaza. Relatos da época descreveram cenas de truculência: barcos sem identificação e drones cercaram a frota, enquanto sistemas de comunicação foram deliberadamente danificados para interromper transmissões ao vivo e pedidos de socorro.
Na edição de 2025, 13 brasileiros foram detidos, entre eles a Deputada Federal Luizianne Lins (PT-CE). A crise só foi resolvida após intensas negociações conduzidas pela Embaixada do Brasil em Tel Aviv. Em 7 de outubro de 2025, os ativistas foram conduzidos sob custódia até a fronteira com a Jordânia, onde foram recebidos por diplomatas brasileiros e transportados para a capital, Amã. À época, o governo brasileiro foi enfático ao “deplorar a ação militar de Israel”, classificando o bloqueio a Gaza como uma “grave violação ao direito internacional humanitário”.
A reportagem entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) solicitando um posicionamento, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto e o texto será atualizado caso haja manifestação oficial.