[Foto: Arquivo / Rodrigo Nunes / MS]
Com a proximidade da Copa do Mundo da FIFA 2026™ e o intenso fluxo internacional esperado a partir de junho, o Brasil corre contra o tempo para evitar o colapso sanitário que já atinge a América do Norte. O Ministério da Saúde lançou, nesta quarta-feira (29/04), uma campanha nacional de vacinação contra o sarampo, com foco especial nos torcedores que viajarão para os Estados Unidos, México e Canadá, países que hoje enfrentam graves surtos ativos da doença.
O lançamento oficial ocorreu na Fundação Gol de Letra, no Rio de Janeiro, e contou com a presença do tetracampeão mundial Raí, fundador da instituição, além do Zé Gotinha, que vestiu a camisa da seleção brasileira. Com o slogan “Vacinar é muito Brasil”, a iniciativa tem o apoio de entidades como Embratur, Associação Brasileira de Empresas Aéreas (ABEAR) e a CBF, e busca conscientizar os viajantes de que a imunização é a única barreira contra a reintrodução do vírus no país.
O tamanho da ameaça e a “zaga” do SUS
A preocupação do governo brasileiro encontra respaldo nos números globais. Em 2025, o mundo contabilizou 248.394 casos. Esse agravamento fez com que a Região das Américas perdesse o status de zona livre de transmissão endêmica, elevando o risco regional para “Muito Alto”.
Durante o evento, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, alertou que os anfitriões do mundial vivem uma verdadeira “explosão de casos de sarampo”. Ele citou um comunicado recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) que traz um dado preocupante: atualmente, “70% dos casos das Américas estão nesses três países”.
Padilha lembrou que, no ano passado, o Brasil recebeu 38 casos importados oriundos de viajantes. Ele atribuiu o controle da situação à força do Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o ministro, o vírus “só não propagou” porque os agentes comunitários e profissionais de vigilância agiram rápido. Em uma analogia com o futebol, ele elogiou a equipe que “descobriu o caso, foi lá e bloqueou, igual boa zaga”.
Os países-sede da Copa
A situação nos destinos dos torcedores justifica o estado de atenção máxima. O crescimento dos contágios nas Américas foi 32 vezes maior entre 2024 e 2025.
O Canadá perdeu sua certificação de área livre após registrar 5.062 casos em 2025 e já se aproxima de mil novas infecções (907 casos) em 2026. Os Estados Unidos, que registraram 2.144 casos no ano passado, mantêm a transmissão ativa com 1.792 registros neste ano (com um pico de 721 diagnósticos só em janeiro). O cenário mais crítico, contudo, é o do México: o país saltou de 7 casos em 2024 para 6.152 em 2025, e já ultrapassa a alarmante marca de 10.002 registros em 2026.
Casos no Brasil e bloqueio de emergência
Apesar de o Ministério da Saúde ressaltar que o país “segue livre da circulação endêmica do sarampo”, o sinal amarelo já foi acionado internamente. O Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI) e a Secretaria de Vigilância em Saúde emitiram uma Nota Técnica Conjunta advertindo sobre o “risco iminente de reintrodução e disseminação” do vírus.
Apenas em 2026, o Brasil já confirmou três casos. Em São Paulo, a Secretaria de Estado da Saúde (SES-SP) confirmou a infecção de um homem de 42 anos (residente na Guatemala) e de um bebê de seis meses que viajou à Bolívia. No Rio de Janeiro, uma funcionária de hotel de 22 anos, sem registro de vacina, atestou positivo.
O diagnóstico no Rio desencadeou uma operação de emergência. Equipes sanitárias realizaram um bloqueio vacinal na residência da paciente, no hotel onde ela trabalha e no serviço de saúde que a atendeu pela primeira vez, além de uma varredura minuciosa no entorno para encontrar novos casos suspeitos.
Baixa cobertura vacinal preocupa
A vulnerabilidade brasileira esbarra nas estatísticas internas. Dos 38 casos confirmados no país em 2025, 94,7% (36 pessoas) não tinham histórico vacinal.
As metas de imunização seguem sendo um desafio. No último ano, a cobertura da primeira dose (D1) da vacina tríplice viral alcançou 92,66% (próxima à meta de 95%), mas apenas 3.596 municípios atingiram o índice. Já a segunda dose (D2) apresenta uma situação crítica, com cobertura nacional de apenas 78,02%, batendo a meta em escassas 1.963 cidades.
Barreiras sanitárias e sintomas
Altamente contagioso, o sarampo é transmitido pelo ar (tosse, fala ou espirro). Estima-se que nove em cada dez pessoas suscetíveis desenvolvam a doença ao entrar em contato com o vírus, que pode ser transmitido seis dias antes e até quatro dias após o surgimento das manchas na pele.
A Nota Técnica orienta que estados montem barreiras sanitárias e façam buscas ativas (vacinação fora dos postos) em áreas turísticas. Qualquer suspeita de doença exantemática (que causa manchas vermelhas) deve ser notificada em até 24 horas. O governo também exigiu que o atendimento a turistas ocorra sem xenofobia ou estigmatização.
Os sinais clínicos incluem:
- Febre alta, mal-estar e perda de apetite;
- Coriza, tosse e conjuntivite;
- Manchas de Koplik: pequenas elevações brancas no interior da boca;
- Erupções avermelhadas na pele e coceira intensa.
O Ministério da Saúde alerta que o período de transmissão pode ocorrer entre seis dias antes e quatro dias após o aparecimento das manchas vermelhas.
Vai viajar? Veja o esquema de vacinação
A vacina (tríplice ou tetraviral) é gratuita no SUS. O calendário para viajantes exige planejamento:
- Bebês (6 a 11 meses e 29 dias): Devem tomar a “Dose Zero” ao menos 15 dias antes da viagem.
- 12 meses a 29 anos: Precisam de duas doses, com intervalo de 30 dias. Quem nunca se vacinou deve tomar a 1ª dose 45 dias antes do voo.
- 30 a 59 anos: O esquema exige apenas uma dose, aplicada 15 dias antes do embarque.
- Trabalhadores da saúde: Devem comprovar duas doses, independentemente da idade.
A orientação do Ministério é clara: mesmo que o turista tenha perdido o prazo ideal, ele deve receber pelo menos uma dose antes de sair do país, mesmo que seja no dia da viagem.
*Com informações de Ministério da Saúde