[Foto: André Gomes de Melo / Governo do RJ]
[Foto: Arquivo / André Gomes de Melo / Governo do RJ]
A Polícia Civil deflagrou na manhã desta quarta-feira (29/04) mais uma ofensiva da Operação Contenção. Agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) cumprem mandados de prisão e de busca e apreensão em endereços na Barra da Tijuca e em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio. Até o momento, uma pessoa foi presa.
A ofensiva, classificada pelo Governo do Estado como uma de suas principais estratégias para “conter o avanço territorial do Comando Vermelho”, é o resultado de um “trabalho aprofundado de investigação para desarticular o braço financeiro” da facção criminosa, responsável por movimentar os lucros do tráfico de drogas.
As investigações duraram pouco mais de um ano e permitiram aos agentes “identificar e mapear a estrutura financeira da organização criminosa”. A polícia detalhou a participação de diversos integrantes no esquema, incluindo operadores responsáveis por “intermediar transações sucessivas com o objetivo de dificultar o rastreamento do dinheiro”.
Durante as apurações, os agentes rastrearam diálogos entre Carlos Costa Neves, o “Gardenal”, e um “miliciano” apontado como “uma das principais lideranças do Comando Vermelho”. Em uma das conversas, a investigação revelou a influência ativa de Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, apontado como liderança central da facção, mesmo após quase três décadas de prisão.
A Polícia Civil garantiu que prossegue com as apurações para identificar e prender outros envolvidos. O foco agora é “apurar o uso de empresas na lavagem de dinheiro e identificar beneficiários indiretos dos recursos ilícitos”.
Segundo o balanço oficial, desde o início da Operação Contenção, a ofensiva já resultou em mais de 300 pessoas presas e outros 136 “criminosos” mortos em confrontos. As ações também causaram um prejuízo bélico milionário à facção, com a apreensão de mais de 51 mil munições e 470 armas, entre elas, 190 fuzis.
O cerco do Ministério Público
Enquanto a Polícia Civil ataca o braço financeiro da facção nesta quarta, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) intensifica o cerco aos desvios de conduta cometidos por agentes de segurança durante a fase mais sangrenta da operação, ocorrida em outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão.
Nesta terça-feira (28), promotores do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP/MPRJ) montaram uma estrutura no Corpo de Bombeiros da Penha para ouvir familiares dos mortos. O ouvidor do MPRJ, David Faria, destacou que a iniciativa atende à determinação do Supremo Tribunal Federal (ADPF 635) para que o MP esclareça ao máximo as mortes decorrentes de intervenções do estado, reforçando o papel da instituição na “proteção dos Direitos Humanos”.
Para a assistente do GAESP, Laura Minc, a apuração exige entender quem eram as pessoas mortas para se ter uma “melhor compreensão dos fatos”. Ela explicou que levar o MP para perto da comunidade é uma estratégia para “aumentar a adesão de familiares” que não puderam ir à sede do órgão por incompatibilidade de agenda ou dificuldade de acesso.
A investigação independente do MP já gerou consequências severas. Analisando mais de 3.600 horas de gravações, o GAESP apresentou oito denúncias contra 27 policiais militares. Os crimes listados vão desde apropriação de armamento e furto de peças de veículos até invasões de domicílio e “tentativas de obstrução ou desligamento de câmeras corporais”.
O impasse no STF e o histórico
A análise das imagens das câmeras corporais virou alvo de uma batalha judicial no STF. Em março, o ministro Alexandre de Moraes determinou que o governo estadual entregasse à Polícia Federal a integralidade dos vídeos em mídia física. A decisão foi tomada após a PF relatar falhas técnicas nos links de 945 vídeos enviados digitalmente pelo Estado.
Moraes foi enfático ao afirmar que, diante dos entraves, é “necessário que o material seja disponibilizado de forma a permitir o trabalho pericial” com total segurança técnica, visando investigar a legalidade da ação.
A exigência do STF remonta à eclosão da Operação Contenção, em outubro de 2025. Considerada a mais letal da história do Rio, a ação mobilizou 2,5 mil agentes. O saldo oficial apontou 64 mortes (quatro policiais e 60 suspeitos), mas moradores relataram a descoberta de mais de 60 corpos ocultos em áreas de mata, muitos com sinais de execução.
O episódio gerou um dia de caos urbano inédito. O crime organizado usou drones com bombas, incendiou veículos e usou 71 ônibus como barricadas. A barbárie provocou uma troca pública de acusações: o então governador Cláudio Castro classificou o cenário como “narcoterrorismo” e reclamou da falta de apoio de blindados do governo federal, afirmando que o estado estava “sozinho nesta guerra”. Em resposta, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, classificou a operação como “cruenta” e negou ter recebido qualquer pedido de reforço.
*Com informações de PCERJ