[Foto: Ilustrativa / LensGo]
O consumo de cigarros eletrônicos registrou um aumento significativo entre adolescentes no Brasil, indo na contramão da tendência de queda observada no uso de cigarros tradicionais, bebidas alcoólicas e drogas ilícitas. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada nesta terça-feira (25/03) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A pesquisa, que avalia estudantes de escolas públicas e particulares com idades entre 13 e 17 anos, comparou indicadores de 2024 com edições anteriores, revelando mudanças no comportamento dos jovens em relação à saúde, consumo de substâncias e sexualidade.
O avanço do cigarro eletrônico
A experimentação de cigarros eletrônicos (conhecidos como vapers, pods ou e-cigarettes) saltou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024. Desse total, 26,3% relataram ter utilizado o produto nos 30 dias anteriores à pesquisa.
Os dados apontam que as meninas são as mais expostas a essa iniciação, com 31,7% contra 27,4% entre os meninos. O consumo também é maior na rede pública (30,4%) em comparação à rede privada (24,9%). Regionalmente, o Centro-Oeste (42,0%) e o Sul (38,3%) lideram os índices de experimentação, enquanto o Nordeste (22,5%) e o Norte (21,5%) apresentam os menores percentuais.
O gerente da pesquisa, Marco Andreazzi, avalia o cenário apontando a influência do mercado: “o cigarro eletrônico representa hoje um grande desafio que merece ser enfrentado. Mesmo sendo proibido no Brasil a sua comercialização e consumo, a experimentação e o uso do cigarro eletrônico estão ampliando rapidamente entre os adolescentes. Segundo avaliações da OMS esse aumento se deve a uma política das empresas produtoras do tabaco, que investem maciçamente na propaganda direcionada para os adolescentes e crianças, para o uso do cigarro eletrônico. Apesar dos sucessos obtidos com a política e as campanhas para a redução do consumo do cigarro, o cigarro eletrônico cresce sob uma propaganda enganosa de ser de baixa toxicidade, com seu cheiro e sabor atraente para os jovens e as crianças”.
Queda no cigarro tradicional, álcool e drogas
Em contraste com os dispositivos eletrônicos, o uso do cigarro tradicional caiu. A experimentação na vida passou de 22,6% em 2019 para 18,5% em 2024. O uso recente (nos últimos 30 dias) recuou de 6,8% para 5,6%. O consumo de narguilé também foi reduzido à metade no mesmo período.
O consumo de bebidas alcoólicas também apresentou retração, embora ainda atinja mais da metade dos jovens. Em 2024, 53,6% dos estudantes já haviam experimentado álcool. O consumo recente caiu de 28,1% (2019) para 20,4% (2024). As meninas continuam liderando as estatísticas de experimentação (57,5% contra 49,7% dos meninos) e de consumo abusivo (24,2% entre as mulheres e 17,7% entre os homens).
As drogas ilícitas seguiram a mesma tendência de queda. A experimentação geral recuou de 13,0% (2019) para 8,3% (2024). O uso precoce (antes dos 13 anos) caiu de 4,3% para 2,7%, sendo mais frequente entre meninos (3,1%) e alunos da rede pública (3,0%).
Sexualidade e prevenção
A PeNSE 2024 investigou também a vida sexual dos adolescentes. A iniciação sexual foi relatada por 20,7% dos estudantes de 13 a 15 anos e 47,6% dos jovens de 16 e 17 anos.
Houve queda no uso de preservativos: na primeira relação, o uso da camisinha caiu de 63,3% (estimativa baseada na queda de 1,6 p.p) para 61,7%. Na última relação sexual, a taxa passou de 59,1% em 2019 para 57,2% em 2024.
Para evitar a gravidez, a pílula anticoncepcional lidera como o método mais utilizado (51,1%). A pílula do dia seguinte aparece em segundo lugar (11,7%), seguida pelos métodos injetáveis (11,6%).
Os dados de gravidez na adolescência evidenciam uma disparidade socioeconômica. Cerca de 121 mil meninas de 13 a 17 anos relataram já ter engravidado (7,3% das que já tiveram relação sexual). Desse total, 98,7% estudam em escolas públicas. A desigualdade entre as redes de ensino saltou de uma proporção três vezes maior na rede pública em 2019 para oito vezes maior em 2024.
*Com informações de IBGE