Giroscópio de carro de polícia | Foto: Ilustrativa / LensGo
[Foto: Ilustrativa / LensGo]
A Operação Shadowgun foi deflagrada nesta quinta-feira, 12 de março, com o cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão contra alvos em doze estados brasileiros. A ação investiga pessoas suspeitas de envolvimento no desenvolvimento, financiamento e promoção de uma arma produzida por meio de impressoras 3D, conhecida como Urutau.
Segundo as informações divulgadas, a operação busca aprofundar a compreensão sobre a ameaça representada por armas fabricadas com tecnologia de impressão tridimensional, especialmente no contexto de grupos extremistas violentos.
A operação deflagrada nesta quinta-feira (12) teve como foco identificar brasileiros que possam estar ligados ao desenvolvimento, ao financiamento e à divulgação do projeto da arma. A investigação também considera o interesse de grupos extremistas e criminosos em tecnologias de fabricação de armas utilizando impressoras 3D.
Além disso, as autoridades analisam casos de uso e apreensões relacionadas a esse tipo de armamento tanto no Brasil quanto no exterior.
De acordo com as investigações, o esquema envolve a comercialização das chamadas “armas fantasmas”, equipamentos que podem ser montados com materiais de fácil acesso e que não possuem rastreabilidade. No estado do Rio, foram identificados 10 compradores, com foco direto em cidades como Araruama, São Pedro da Aldeia e Armação dos Búzios. Ao todo, os agentes cumprem 4 mandados de prisão em São Paulo e 32 de busca e apreensão em 11 estados diferentes.
O “Ecossistema Clandestino” das armas 3D
Segundo a Policia Civil do estado do Rio de Janeiro, a organização era liderada por um engenheiro especializado em controle e automação, que utilizava conhecimentos técnicos avançados para desenvolver projetos semiautomáticos. Ele criou um manual detalhado de mais de cem páginas que permitia a fabricação de armas em poucas semanas por qualquer pessoa com acesso a impressoras 3D de baixo custo.
Além da produção física de carregadores alongados em sua própria residência, a Polícia informou que o grupo operava em fóruns e na dark web, utilizando criptomoedas para financiar as atividades e garantir o anonimato das transações interestaduais.
Conheça a Urutau
A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) descreve a Urutau como uma arma híbrida, com possibilidade de funcionamento semiautomático ou automático. O projeto representa um avanço em relação a modelos anteriores de armas fabricadas com impressoras 3D.
De acordo com os dados disponíveis, a principal mudança está na forma de montagem. Diferentemente de projetos anteriores, a Urutau elimina a necessidade de soldagem e utiliza apenas componentes não controlados, o que pode facilitar a produção da arma.
Esse tipo de desenvolvimento tem chamado atenção de autoridades e investigadores por ampliar a possibilidade de fabricação de armamentos fora dos processos tradicionais de controle.
Durante coletiva de imprensa sobre o caso, realizada nesta quinta-feira (12/03) realizada no Rio de Janeiro, o procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro, Antônio José Campos Moreira, destacou que a arma produzida por impressoras 3D, pode ser fabricada integralmente em casa, com custo estimado em cerca de R$ 800.
Segundo Campos Moreira, o modelo permite que qualquer pessoa com acesso à tecnologia possa produzir armas de fogo. “Isso é extremamente preocupante porque permite que qualquer um, a partir desse projeto digital e uma impressora 3D, possa fabricar armas de fogo”, afirmou.
O delegado Marcos Buss, titular da 32ª DP (Taquara), acrescentou que a Urutau foi desenvolvida em 2024 por um brasileiro conhecido pelo pseudônimo “Zé Carioca”. “Ele desenvolveu uma nova carabina, que denominou Urutau, que pode ser integralmente fabricada por uma impressora 3D”, disse. Peças e acessórios da arma chegaram a ser comercializados em plataformas de e-commerce, segundo a investigação.
Risco de disseminação entre grupos radicais
Ainda durante a coletiva, o procurador-geral de Justiça também alertou para a possibilidade de radicalização e uso por grupos extremistas. “Esse grupo estimula pessoas, sobretudo jovens, a fazer e portar armas de fogo, com o argumento de que seria um direito de todos. Isso é muito perigoso porque retira do Estado qualquer possibilidade de controle”, explicou.
Segundo ele, armas produzidas com impressoras 3D podem ser utilizadas não apenas por organizações criminosas tradicionais, mas também por cidadãos comuns, grupos fanáticos e terroristas, aumentando a complexidade do controle sobre armamentos no país.