[Foto: Ilustrativa / LensGO]
No Brasil, 19% das crianças e adolescentes de 12 a 17 anos foram vítimas de exploração e/ou abuso sexual facilitados pela tecnologia no período de um ano. O percentual corresponde a cerca de 3 milhões de meninas e meninos atingidos por esse tipo de violência.
Os dados integram o relatório Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, lançado nesta quarta-feira (04/03) pelo UNICEF Innocenti, em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, com financiamento da Safe Online.
A pesquisa considera como violência sexual facilitada pela tecnologia situações em que ferramentas digitais são usadas para aliciar, extorquir, produzir, armazenar ou disseminar material de abuso. Os casos podem ocorrer exclusivamente no ambiente virtual, combinar interações online e presenciais ou envolver abuso físico com registro e compartilhamento de imagens.
Redes sociais e aplicativos concentram ocorrências
Em 66% dos relatos, a violência ocorreu por canais online. Redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas foram mencionados em 64% dos casos, enquanto jogos online apareceram em 12%.
Entre as plataformas citadas, Instagram (59%) e WhatsApp (51%) foram apontados como os aplicativos mais utilizados pelos agressores.
A forma mais recorrente de violência identificada foi a exposição a conteúdo sexual não solicitado, que atingiu 14% dos entrevistados.
Agressor conhecido e silêncio das vítimas
Em 49% das situações, o autor da violência era alguém conhecido da vítima. Em 26% dos casos, o agressor era desconhecido, e em 25% não foi possível identificar quem cometeu o crime.
Entre as vítimas que conheciam o agressor, 52% relataram que o primeiro contato ocorreu no ambiente online. Também houve registros de aproximação inicial na escola (27%), na casa da própria criança ou adolescente (11%) e em espaços de prática esportiva (2%).
Mais de um terço das vítimas (34%) não contou a ninguém sobre o ocorrido. Quando houve revelação, ela ocorreu principalmente entre amigos, em 22% dos casos.
Entre os motivos para o silêncio estão a falta de informação sobre onde buscar ajuda (22%), constrangimento (21%), medo de não serem acreditadas (16%), receio de que outras pessoas descubram (7%) e sentimento de culpa (3%). Em 12% das situações, a vítima afirmou não considerar o episódio grave o suficiente para denunciar.
As barreiras para denúncia formal incluem não saber como denunciar (18%), ameaças do agressor (17%) e desconhecimento de que a situação configura crime (15%).
Crescimento do uso de inteligência artificial
O levantamento também identificou o uso de inteligência artificial generativa na produção de material de abuso. Em um ano, 3% das crianças e adolescentes entrevistados relataram que alguém utilizou IA para criar imagens ou vídeos de conteúdo sexual com sua aparência.
Impactos na saúde mental e na educação
Segundo o estudo, vítimas de exploração e abuso sexual facilitados pela tecnologia apresentam taxas mais altas de ansiedade e têm mais de cinco vezes mais chances de se automutilar ou manifestar pensamentos ou tentativas suicidas. Os impactos atingem meninas e meninos e afetam também a trajetória escolar.
A pesquisa aponta ainda que 5% das crianças receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca do envio de imagens ou vídeos de conteúdo sexual. Outros 3% relataram propostas semelhantes para encontros presenciais com finalidade sexual.
Metodologia da pesquisa
O levantamento foi realizado entre novembro de 2024 e março de 2025, com 1.029 entrevistas presenciais com crianças e adolescentes de 12 a 17 anos e 1.029 com pais ou responsáveis. As perguntas abordaram experiências vividas nos 12 meses anteriores à participação na pesquisa.
O estudo também incluiu entrevistas qualitativas com jovens de 16 a 24 anos que sofreram abuso antes dos 18 anos, além de profissionais do Sistema de Justiça e Segurança Pública. A cobertura do trabalho de campo no Brasil foi de 95%.
Recomendações
O relatório destaca a necessidade de ações coordenadas entre governos, Sistema de Justiça, escolas, famílias, setor privado e plataformas digitais. Entre as recomendações estão o fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos, atualização de leis diante de tecnologias emergentes, capacitação de profissionais, implementação de salvaguardas nas plataformas digitais e ampliação da divulgação de canais de denúncia.
*Com informações de UNICEF