A médica ginecologista e cirurgiã Andréa Marins Dias, de 61 anos, foi morta a tiros em seu próprio carro durante uma abordagem da Polícia Militar em Cascadura, na Zona Norte do Rio de Janeiro, neste domingo (15/03). A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) investiga o caso, enquanto a Secretaria de Estado de Polícia Militar informou que instaurou um procedimento interno para apurar a ação dos agentes, que utilizavam câmeras corporais no momento do incidente.
De acordo com uma nota divulgada pela Secretaria de Estado de Polícia Militar, o secretário de Polícia Militar, Marcelo de Menezes Nogueira, determinou que os dispositivos de gravação e as armas dos policiais sejam entregues à Polícia Civil. “Vale informar que os policiais que faziam parte da equipe de agentes que efetuou a abordagem portavam as câmeras corporais. Os dispositivos e as armas utilizadas pelos agentes estão à disposição do procedimento investigativo pela Polícia Civil”, afirmou a corporação em nota oficial.
Carreira dedicada à saúde da mulher
Andréa Marins acumulava 32 anos de formação e mais de 28 anos dedicados especificamente ao tratamento de mulheres. Ginecologista, cirurgiã-geral e cirurgiã-oncológica, ela realizou residências no Hospital Cardoso Fontes e no INCA.
Determinada a oferecer respostas seguras para quem sofria com diagnósticos tardios, Andréa criou o Método EndoPlena. Através dele, desenvolveu uma abordagem responsável para que mulheres com endometriose pudessem compreender a própria dor e buscar tratamentos eficazes. Seu trabalho era a união da prática clínica com a empatia, transformando-se em referência no cuidado feminino no Rio de Janeiro.
Em vida, Andréa definiu seu propósito como um compromisso com a escuta real: “Eu resolvi que isso seria um desafio para ajudar as mulheres. A importância da dor, valorizar a dor das mulheres. A endometriose é uma patologia atual né e eu to aqui para isso, para ajudar a tirar duvidas”.
Questionamentos sobre a abordagem
A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, afirmou que testemunhas relataram que o veículo da médica negra foi confundido com o de criminosos. Em tom de denúncia, a ministra questionou a eficácia das políticas de segurança pública: “Até quando a ausência de políticas eficazes de segurança pública continuará produzindo cenas como essa? Até quando vamos perder pessoas negras para a violência?”.
Anielle ressaltou ainda a trajetória de Andréa: “Sabemos o quanto custa para uma mulher negra acessar a universidade e se tornar médica. É doloroso perder Andréa a tudo o que ela representa”.
Nas redes sociais, pacientes e colegas de trabalho manifestaram pesar. Uma usuária comentou: “Trabalhei com ela, nem consigo acreditar que isso aconteceu 😢, meus pêsames à família, equipes INCA 4❤️”.
Outra internauta lamentou a perda social: “Perdemos um ser humano que salvava vidas e que cuidava de nós mulheres. Muito triste o que o Estado tem causado à sociedade”.