Esporte Eletrênico (e-Sport) | Foto: Imagem Ilustrativa / Gemini
Os videogames lançados nas décadas de 1980 e 1990 eram fortemente influenciados pelas limitações tecnológicas da época. Com menor capacidade de processamento e armazenamento, os jogos precisavam ser mais objetivos, apresentando fases bem definidas, dificuldade elevada e finais claros. Esse formato estabelecia uma experiência com começo, meio e fim, permitindo ao jogador identificar momentos naturais de pausa e encerramento.
Nesse período, o avanço no jogo dependia principalmente de habilidade, repetição e aprendizado. Superar desafios exigia atenção prolongada, memorização de padrões e persistência. A sensação de conquista surgia, em geral, após esforço contínuo, como completar uma fase complexa ou finalizar o jogo, o que contribuía para uma percepção clara de progresso e conclusão da experiência.
Com o avanço da tecnologia, da conectividade e dos modelos de negócio digitais, muitos jogos atuais passaram a adotar estruturas diferentes. Parte significativa dos títulos modernos é desenvolvida como experiência contínua, com atualizações frequentes, progressão praticamente infinita, desafios diários e recompensas recorrentes. Esse modelo está associado ao chamado design orientado à retenção, cujo objetivo principal é manter o jogador engajado por longos períodos.
Essa mudança de abordagem pode influenciar não apenas a dinâmica do jogo, mas também a forma como o jogador interage com ele. Do ponto de vista psicológico e neurológico, especialistas apontam que jogos baseados em recompensas constantes podem estimular de forma repetida os circuitos cerebrais ligados à motivação e à recompensa, como os associados à liberação de dopamina. Diferentemente das recompensas espaçadas dos jogos mais antigos, esse estímulo tende a ser mais frequente e de curta duração.
É importante destacar que esses são possíveis efeitos, que não ocorrem da mesma forma em todas as pessoas. Fatores como idade, tempo de exposição, tipo de jogo, contexto social e hábitos individuais influenciam diretamente a experiência do jogador. Ainda assim, observa-se que recompensas imediatas e contínuas podem reduzir a sensação de satisfação prolongada, levando o jogador a buscar novos estímulos em ciclos mais curtos.
Outro aspecto frequentemente discutido é a redução dos chamados pontos naturais de parada. Em jogos sem finais definidos ou com metas constantemente renovadas, o jogador pode ter mais dificuldade em identificar o momento adequado para interromper a atividade. Isso pode favorecer sessões de jogo mais longas, com menor percepção do tempo decorrido e menor recuperação mental entre uma sessão e outra.
Em crianças e adolescentes, cujas funções relacionadas à autorregulação, controle de impulsos e processamento de recompensas ainda estão em desenvolvimento, esses efeitos podem ser mais perceptíveis, embora variem amplamente de acordo com supervisão, orientação e rotina. Em adultos, os impactos também dependem do equilíbrio entre o jogo e outras atividades do cotidiano.
Há ainda possíveis reflexos no sono e no nível de alerta, especialmente quando os jogos são utilizados à noite. Estímulos visuais intensos, desafios contínuos e notificações frequentes podem manter o cérebro em estado de ativação prolongada, dificultando o relaxamento após o término da atividade. Novamente, esses efeitos não são universais e dependem de múltiplos fatores.
A comparação entre games do passado e games atuais não se resume a apontar vantagens ou desvantagens absolutas. Trata-se de compreender como diferentes escolhas de design podem influenciar o comportamento, a percepção de conquista e a relação do jogador com o entretenimento digital. Esse entendimento contribui para um uso mais consciente e equilibrado dos jogos, respeitando as características individuais de cada jogador.
–