[Foto: Ilustrativa/ Google AI]
Apesar do avanço dos medicamentos de alta potência, como a Semaglutida e a Tirzepatida, estarem apresentando resultados sem precedentes na perda de peso, mas também acendeu um alerta na comunidade médica: a preservação da massa muscular. Na recém-lançada 5ª Edição da Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade (2026), a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) dedica capítulos fundamentais ao manejo da sarcopenia e à manutenção dos resultados, combatendo o ciclo vicioso de perda e ganho de peso.
Para os especialistas, o emagrecimento moderno não pode ser focado apenas no número que aparece na balança. A nova orientação é clara: o sucesso terapêutico depende da manutenção da funcionalidade do corpo e do controle contínuo da doença.
O Desafio da Sarcopenia: Protegendo os músculos
A perda de massa magra é um processo natural durante qualquer redução brusca de peso, mas pode atingir níveis críticos com o uso das novas “canetas” emagrecedoras se não houver acompanhamento. A diretriz introduz o conceito de “obesidade sarcopênica” — quando o indivíduo perde peso, mas mantém altos níveis de gordura e baixa massa muscular, resultando em fraqueza e risco de quedas.
Conforme a uma das recomendações, para mitigar esse risco, o tratamento medicamentoso deve ser obrigatoriamente associado a intervenções específicas:
- Treinamento de Força: A prática de musculação ou exercícios resistidos é considerada indispensável para sinalizar ao corpo a preservação das fibras musculares.
- Aporte Proteico: A diretriz prescreve uma ingestão de “1,0 a 1,2 g/kg de proteína por dia” para auxiliar na preservação da massa magra, podendo chegar a 1,5 g/kg em casos específicos.
- Avaliação em Idosos: De acordo com uma das recomendações, todos os indivíduos com mais de 60 anos devem ser avaliados quanto à força de preensão palmar e massa muscular antes e durante o uso de fármacos antiobesidade.
O Fim do efeito sanfona: O remédio não é temporário
Outro pilar central do documento de 2026 é a desconstrução da ideia de que o tratamento da obesidade tem data para acabar. A ABESO reforça que a obesidade é uma doença crônica e recidivante, o que significa que o corpo tende biologicamente a recuperar o peso perdido assim que o estímulo terapêutico é retirado.
“Recomenda-se o tratamento farmacológico da obesidade para manutenção do peso perdido em longo prazo, com reavaliações periódicas de eficácia e segurança”.
Dados de ensaios clínicos citados no manual mostram que a interrupção da medicação leva à recuperação de grande parte do peso em poucos meses. O “fim do efeito sanfona” reside, portanto, na aceitação de que o controle biológico exige constância. “A educação do paciente sobre a natureza crônica da obesidade e a necessidade de tratamento continuado para a manutenção dos benefícios é fundamental para o sucesso”, aponta a diretriz.
Segurança do Paciente: Por que a supervisão médica é indispensável no tratamento
Para garantir a segurança do paciente e a eficácia contra o “efeito sanfona”, a diretriz da ABESO deixa claro que o tratamento da obesidade é um processo técnico e rigoroso, que não permite atalhos ou automedicação. O documento estabelece que a escolha de qualquer fármaco deve ser uma “decisão compartilhada com o paciente”, fundamentada em uma análise médica detalhada que considere comorbidades, contraindicações e segurança a longo prazo.
A supervisão profissional é indispensável para realizar o “ajuste ‘personalizado’ da dose, observando a resposta clínica, respeitando a tolerância individual” do paciente. Somente um especialista pode avaliar o impacto metabólico do tratamento por meio do “monitoramento regular do peso, das medidas de obesidade central e dos demais parâmetros metabólicos”, o que inclui o acompanhamento estrito de exames laboratoriais de função renal, hepática e perfil lipídico para prevenir complicações.
Além disso, o documento ressalta que o manejo ideal deve ser feito por uma “equipe multidisciplinar que inclua múltiplos profissionais de saúde com experiência no tratamento da obesidade”, como médicos, nutricionistas e psicólogos. Esse suporte é o que garante que o paciente receba o aporte proteico adequado e o treinamento de força necessário para evitar a sarcopenia, assegurando que o emagrecimento ocorra com saúde e preservação da capacidade funcional.
Para consolidar a nova visão sobre o controle da doença, o médico endocrinologista Fernando Gerchman, do Hospital Moinhos de Vento e uma das lideranças no desenvolvimento da nova Diretriz, destaca que o foco do tratamento passou por uma mudança de paradigma: saiu a estética e entraram a funcionalidade e a longevidade.
Segundo o especialista, o combate ao excesso de peso deve ser encarado com o mesmo rigor técnico de outras patologias graves. “A obesidade exige um olhar atento às complicações em órgãos-alvo, como coração, rins e fígado. O tratamento farmacológico moderno não é uma ‘trapaça’, mas uma ferramenta essencial para garantir a remissão de sintomas e a melhora da qualidade de vida”, esclarece Gerchman.
Resumo: Diretriz ABESO 2026
🛡️ Proteção da Massa Muscular
Para evitar a “obesidade sarcopênica”, o uso de medicamentos deve ser associado a:
- Treinamento de Força: Musculação indispensável para preservar as fibras musculares.
- Aporte Proteico: Ingestão recomendada de 1,0 a 1,2 g/kg de proteína por dia.
- Avaliação em Idosos (R28): Teste de força obrigatório para pacientes acima de 60 anos.
🔄 Controle do Efeito Sanfona
A diretriz desconstroi a ideia de tratamento temporário:
A interrupção sem critério médico leva à recuperação do peso em poucos meses devido à natureza recidivante da doença.
O tratamento é um processo técnico rigoroso. A escolha do fármaco deve ser uma “decisão compartilhada com o paciente”, exigindo supervisão médica para o “ajuste personalizado da dose” e monitoramento constante de exames hepáticos, renais e metabólicos.
*Com informações de ABESO