[Foto: Gabriel Ferreira / Prefeitura de Maricá]
- Sequência sísmica: O litoral do Rio de Janeiro, especificamente próximo a Maricá, registrou dois tremores em menos de 48 horas: um na quinta-feira (21) e outro na manhã desta sexta-feira (22).
- Monitoramento constante: Os eventos, monitorados pela Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) e USP, possuem magnitude leve e não representam riscos de danos estruturais.
- Geologia estável: Especialistas explicam que, embora os sismos gerem vibrações superficiais, a região está sobre a Placa Sul-Americana, tornando terremotos catastróficos altamente improváveis.
O litoral fluminense vive uma sequência atípica de atividade sísmica nesta semana. Após um abalo na madrugada de quinta-feira (21/05), a costa do Rio de Janeiro registrou um novo tremor de terra na manhã desta sexta-feira (22/05). O evento, que atingiu magnitude 3.1, ocorreu às 6h50, a aproximadamente 100 quilômetros do município de Maricá, sendo o segundo registro em menos de 48 horas.
A localização dos eventos foi possível graças às atividades de reativação da transmissão nas estações sismográficas que compõem a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), coordenada pelo Observatório Nacional (ON/MCTI) com o suporte do Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) e processamento pelo Centro de Sismologia da USP.
O que dizem os especialistas
Apesar da recorrência dos eventos, o sismólogo do Observatório Nacional, Dr. Gilberto Leite, buscou tranquilizar a população. Segundo o especialista, o Brasil possui um histórico de sismicidade marcado por eventos de baixa magnitude, decorrentes de tensões tectônicas na crosta terrestre.
“A margem sudeste do Brasil, em particular, é considerada a principal zona sísmica offshore do país, onde pequenos terremotos ocorrem de forma relativamente frequente”, explica Leite. O especialista ressalta, no entanto, que não há como prever o comportamento da atividade sísmica, nem determinar se novos tremores ocorrerão ou qual seria sua magnitude.
Impacto real e tranquilidade
Dados técnicos da USP indicam que, devido à profundidade superficial do epicentro desta sexta-feira, as ondas sísmicas foram captadas quase instantaneamente pelas estações de medição. Contudo, em termos de impacto urbano, a energia liberada não é suficiente para comprometer estruturas de casas ou prédios.
Especialistas esclarecem que eventos dessa magnitude podem, no máximo, fazer janelas vibrarem ou gerar sons abafados, comportando-se como a passagem de um veículo pesado na rua. O estado do Rio de Janeiro, por estar situado no centro da estável Placa Sul-Americana, está livre de riscos de terremotos catastróficos, sendo estes abalos apenas reflexos de pequenas acomodações geológicas e falhas locais liberando energia acumulada.
Entenda a sismologia no Brasil
Apesar da sequência atípica em Maricá, especialistas esclarecem que o Brasil, embora situado no interior da estável Placa Sul-Americana, não está imune a abalos. De acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), o país possui uma atividade sísmica que “não pode ser ignorada”, embora a grande maioria dos eventos seja de baixa magnitude.
Diferente de países andinos, onde o choque de placas tectônicas na superfície gera terremotos catastróficos, no Brasil os sismos são classificados majoritariamente como “intraplaca”. Segundo o sismólogo Dr. Gilberto Leite, “a margem sudeste do Brasil, em particular, é considerada a principal zona sísmica offshore do país”, onde pequenos terremotos ocorrem devido a tensões tectônicas naturais na crosta terrestre.
A ciência por trás dos tremores
Tecnicamente, o que ocorre são rupturas em falhas geológicas, pontos no interior da crosta onde a tensão acumulada supera a resistência das rochas. Quando essa ruptura é pequena, o resultado é um tremor de terra de baixa intensidade, como os registrados no litoral fluminense.
A medição desses eventos é feita através da escala Richter, que avalia a magnitude (energia liberada), e da escala Mercalli Modificada, que avalia os efeitos visuais e sensoriais. Como explica o Serviço Geológico do Brasil, “quando um terremoto é de baixa intensidade, chama-se de abalo sísmico ou tremor de terra”, sendo que a natureza física é a mesma de um grande sismo, diferenciando-se apenas pela extensão da área de ruptura e pela profundidade do hipocentro (o foco da ruptura no interior da crosta).
Como medimos a força dos tremores?
Para entender a magnitude dos eventos registrados em Maricá, a sismologia utiliza escalas que traduzem a energia liberada pelas rochas. A mais conhecida é a Escala Richter, que mede a magnitude absoluta do abalo. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), essa escala é logarítmica: “de um grau para o grau seguinte a diferença na amplitude das vibrações é de dez vezes”. Isso significa que um tremor de 3.3 libera uma energia consideravelmente maior que um de 3.1, embora ambos estejam na mesma faixa de percepção.
Além da Richter, existe a Escala Mercalli Modificada, que não se baseia em cálculos matemáticos de estações sismográficas, mas sim na “avaliação visual do efeito causado pelo terremoto em objetos, construções e sobre as pessoas”. Enquanto a Richter foca na fonte do tremor (o foco, ou hipocentro), a Mercalli foca na intensidade sentida pela população.
Por que não sentimos os abalos de Maricá?
Lincando com a Escala Mercalli, os tremores de 3.3 e 3.1 registrados nesta semana em Maricá dificilmente atingiriam o grau I ou II da escala, que são os níveis mínimos de percepção. O Serviço Geológico do Brasil esclarece que, em casos de sismos de baixa intensidade, “a origem e a natureza são exatamente as mesmas” de um terremoto grande, “diferindo apenas a extensão da área de ruptura”.
Quando um tremor é classificado como leve, ele pode gerar vibrações que fazem janelas ou objetos suspensos oscilarem, lembrando a “passagem de um caminhão pesado”. Contudo, como o epicentro dos sismos de Maricá ocorreu em uma zona offshore (alto mar), a quase 100 quilômetros da costa, a energia das ondas sísmicas, que viajam a uma velocidade média de 6,5 km/s, se dissipa antes de atingir o continente com força suficiente para ser sentida.
Nota editorial: Embora os sistemas de monitoramento sismológico identifiquem os eventos como “Maricá” por ser a referência geográfica continental mais próxima, os epicentros situam-se em alto mar, a cerca de 100 km da costa, em zonas de falhas geológicas submarinas.