[Foto: Richard Souza / GE]
- Pulverização da mata: O número de fragmentos de vegetação nativa no Brasil cresceu 163% desde 1986, indicando maior exposição à degradação.
- Redução de tamanho: A área média de cada fragmento encolheu 68%, passando de 241 hectares para apenas 77 hectares em 2023.
- Biomas em risco: Pantanal e Amazônia lideram o aumento da fragmentação, enquanto 72% da Mata Atlântica já está exposta a vetores de degradação.
O Brasil enfrenta um fenômeno preocupante que vai além do desmatamento tradicional: a fragmentação acelerada de sua vegetação nativa. Dados inéditos do módulo de Degradação do MapBiomas revelam que o número de fragmentos de vegetação saltou de 2,7 milhões, em 1986, para 7,1 milhões em 2023. Esse aumento de 163% em 38 anos é um indicativo direto de que a flora brasileira está cada vez mais dividida, isolada e vulnerável.
A fragmentação ocorre quando áreas contínuas são cortadas por estradas, urbanização ou expansão agropecuária. O impacto é severo: se em 1986 a área média de um fragmento era de 241 hectares, hoje esse número é de apenas 77 hectares, uma queda de 68%.
“Quanto menor for o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa, maior será a suscetibilidade à degradação”, ressalta Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e coordenador do módulo de degradação do MapBiomas. Ele explica que a diminuição do tamanho gera um efeito cascata de problemas ambientais. “O tamanho dos fragmentos de vegetação nativa tem relação direta com a quantidade e variedade da fauna e da flora presente. Cada vez que diminui o tamanho de um fragmento de vegetação nativa, mais problemas aparecem: aumenta o risco de extinções locais dessas espécies, diminui a chance de recolonização por indivíduos vindos de outros fragmentos vizinhos e maior é a proporção do efeito de borda. Em suma, esses fragmentos vão perdendo a diversidade de espécies”, detalha.
Raio-X dos Biomas: Pantanal e Amazônia no topo da fragmentação
Todos os biomas brasileiros registraram aumento no número de fragmentos nas últimas quatro décadas. O Pantanal e a Amazônia apresentaram os índices mais drásticos, com crescimento de 350% e 332%, respectivamente. Na Amazônia, o tamanho médio das áreas de vegetação recuou de 2.727 hectares para 492 hectares (redução de 82%).
Já a Mata Atlântica e o Cerrado detêm os maiores números absolutos, com cerca de 2,7 milhões de fragmentos cada. Natalia Crusco, coordenadora técnica da Mata Atlântica no MapBiomas, pondera que os motivos diferem entre as regiões: “Enquanto no Cerrado o aumento no número de fragmentos está associado ao avanço do desmatamento e à divisão de grandes remanescentes de vegetação nativa em áreas menores, na Mata Atlântica, parte desse aumento também pode ser explicada por um processo no sentido oposto ao desmatamento, ou seja, pelo surgimento de múltiplas áreas de recuperação da vegetação secundária”.
Degradação vs. Desmatamento
O estudo reforça que degradação e desmatamento são processos distintos. No desmatamento, a vegetação é removida totalmente. Na degradação, a planta continua lá, mas perde saúde e resiliência devido a fatores como fogo, corte seletivo de madeira e o chamado “distúrbio de dossel”, o rompimento da camada superior da floresta.
Na Amazônia Legal, o MapBiomas identificou 9,7 milhões de hectares com indícios de corte seletivo entre 1988 e 2024, concentrados principalmente no Mato Grosso e no Pará. Além disso, as secas intensas em anos de El Niño têm facilitado distúrbios de dossel em florestas alagáveis.
O caminho para a restauração
O monitoramento detalhado serve como bússola para políticas públicas, especialmente porque o Brasil tem o compromisso internacional de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 (Planaveg).
“O monitoramento da degradação complementa o monitoramento do desmatamento. A importância desse monitoramento se justifica pelo fato de que a degradação de um remanescente de vegetação nativa muitas vezes pode ser minimizada ou revertida”, destaca Eduardo Vélez, pesquisador da equipe do Pampa. Segundo Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, a ferramenta é estratégica para a conservação e recuperação de áreas que ainda podem recuperar sua biodiversidade original.
| Guia Rápido: Entenda a Degradação Ambiental no Brasil | |
|---|---|
| O que é a fragmentação da vegetação? | É o processo onde áreas originais de vegetação nativa são divididas em porções menores e isoladas devido ao desmatamento, urbanização ou abertura de estradas. |
| Qual foi o aumento no número de fragmentos? | O Brasil saltou de 2,7 milhões de fragmentos em 1986 para 7,1 milhões em 2023, um crescimento de 163% que aumenta a vulnerabilidade da mata. |
| Qual a diferença entre desmatamento e degradação? | No desmatamento, a vegetação é removida totalmente. Na degradação, a planta permanece no local, mas perde saúde, diversidade e resiliência por fatores externos. |
| O que são distúrbios de dossel? | É o rompimento da camada superior da floresta (copas das árvores), criando clareiras causadas por secas, ventos, incêndios ou corte seletivo de madeira. |
| Quais os biomas com maior aumento de fragmentação? | O Pantanal (350%) e a Amazônia (332%) foram os biomas que apresentaram os maiores crescimentos no número de fragmentos nas últimas décadas. |
| Qual a meta de restauração do Brasil? | O país assumiu o compromisso internacional de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até o ano de 2030. |
*Com informações de MapBiomas