- Liberdade: A equipe jurídica da Global Sumud Flotilla confirmou que o brasileiro Thiago Ávila e o espanhol-palestino Saif Abukeshek serão libertados nas próximas horas e transferidos para o Egito.
- Clima de cautela: Apesar do alívio, o perfil de Thiago afirma que a embaixada ainda não conseguiu contato com o ativista e que só comemorará quando ambos estiverem no avião de volta para casa.
- Histórico de abusos: A prisão, que já durava dias, foi marcada por denúncias de tortura, privação sensorial e ameaças de morte, desencadeando uma crise diplomática internacional com repúdio do presidente Lula e de líderes globais.
Após intensas rodadas de negociação e forte mobilização internacional, a crise diplomática envolvendo a captura de civis no Mar Mediterrâneo caminha para um desfecho. A equipe jurídica da Global Sumud Flotilla (GSF) confirmou neste fim de semana que o ativista brasileiro Thiago Ávila e o espanhol-palestino Saif Abukeshek serão libertados “nas próximas horas”. Ambos representam os últimos detidos da frota interceptada por forças navais israelenses no final de abril.
A coordenação diplomática estabeleceu que os dois ativistas serão transferidos para um centro de detenção de imigrantes no Egito. No local, permanecerão sob custódia das autoridades egípcias até que os trâmites de deportação para seus países de origem sejam concluídos. A GSF tem exigido garantias por vias oficiais para que a libertação e o transporte de ambos ocorram no mesmo comboio.
Em comunicado, a Flotilha classificou a decisão como uma conquista da sociedade civil: “Celebramos esta notícia como uma vitória e um lembrete de que a mobilização internacional e a pressão constante exercida em todo o mundo têm impacto”.
Cautela e falta de contato consular
Apesar da confirmação da equipe jurídica, o clima entre apoiadores do brasileiro ainda é de apreensão. Uma atualização publicada no perfil oficial de Thiago Ávila no Instagram, neste sábado, pontuou que “Tanto a embaixada quanto a família ainda NÃO conseguiram nenhum tipo de contato com Thiago Ávila”.
O texto adverte sobre a ausência de confirmações concretas quanto à data exata da libertação, à rota de fuga e aos protocolos de deportação. “A entidade sionista é traiçoeira e só estaremos realmente confiantes quando Saif e Thiago estiverem dentro do avião, longe das mãos dos sionistas e a caminho de suas casas”, declarou a equipe do ativista, pedindo que a rede de apoio se mantenha mobilizada.
Rotina de tortura e “miniatura de campo de concentração”
A iminente repatriação encerra um capítulo sombrio para os voluntários da missão humanitária, que tinha como objetivo romper o bloqueio naval à Faixa de Gaza. A frota foi interceptada no dia 29 de abril, a cerca de 500 milhas náuticas do destino, em águas internacionais próximas à Ilha de Creta, na Grécia.
Dos cerca de 180 participantes capturados na ação, a maioria foi libertada e enviada à Turquia, mas as sequelas permaneceram. Cerca de 40 ativistas foram hospitalizados e 35 apresentaram ferimentos graves.
A estudante brasileira Mandi Coelho, que esteve a bordo, descreveu a estrutura montada nos navios militares como uma “miniatura de um campo de concentração”. Ela detalhou o confinamento em contêineres cercados por arame farpado e a agressão militar: “Puxaram o meu cabelo várias vezes, me chutaram, me socaram (…) torceram o meu braço naquela manobra que vai no sentido de quebrar”.
Para Ávila e Abukeshek, transferidos para o centro de detenção de Shikma, em Ascalom (Palestina Ocupada), a situação agravou-se. Ambos entraram em greve de fome, ingerindo apenas água. Relatos das advogadas da Adalah, que os representam, indicaram que os ativistas foram submetidos à privação sensorial, mantidos em celas com iluminação de alta intensidade ininterrupta para forçar a privação de sono.
Segundo informações da GSF, Thiago relatou ter sofrido frio extremo e desmaiado duas vezes após ser arrastado de bruços. O ambientalista brasileiro, que segundo sua defesa apresentava “o olho esquerdo fechado em virtude do inchaço”, ouviu ameaças diretas de que seria “morto” ou forçado a “passar 100 anos na prisão”. Resistindo à pressão, Thiago havia afirmado aos diplomatas que não aceitaria sair de Israel sem Saif: “Não há outra opção que não seja sair juntos [com o ativista palestino-espanhol Saif Abukeshek]”.
O peso da diplomacia e o apelo por sanções
A validação judicial da prisão por um juiz israelense, utilizando o conceito de “provas secretas” e enquadrando os civis como “combatentes ilegais”, gerou revolta global.
O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), classificou a prisão como “injustificável” e uma “séria afronta ao direito internacional”. A pressão ganhou reforço de figuras como a ativista climática Greta Thunberg, que denunciou a tortura dos voluntários e acusou os governos de Israel e da Grécia de atuarem em conluio.
Enquanto Israel e Estados Unidos tentaram emplacar a narrativa de que a frota era “pró-Hamas” com os militares israelenses ironizando a carga como uma “flotilha de preservativos” e os EUA alegando tentativa de minar o “Plano Trump”, a resposta internacional foi severa. Onze nações assinaram uma declaração conjunta definindo o ato como pirataria, e entidades na Itália e União Europeia passaram a exigir sanções contra o governo israelense.
Com a Assembleia Internacional da Flotilha marcada para ocorrer em Marmaris, na Turquia, entre os dias 9 e 10 de maio, a GSF ampliou suas exigências. A organização pediu explicações à União Europeia, denunciou o “silêncio e cumplicidade” da Grécia e alertou que a luta não se encerra com a libertação de Thiago e Saif: “Pedimos também que a mesma pressão constante seja aplicada para a libertação dos nossos amigos tunisianos e dos quase 10.000 prisioneiros políticos e reféns palestinianos detidos ilegalmente em prisões israelitas”.