[Foto: Ilustrativa/ Google AI]
- Resgate iminente: O navio MV Hondius chega a Tenerife na madrugada deste domingo (10) após um surto da cepa Andes do hantavírus que deixou três mortos.
- Sem risco de pandemia: A OMS descarta semelhanças com a Covid-19, afirmando que o risco global é baixo e que não há passageiros apresentando sintomas a bordo.
- Operação de guerra: O desembarque ocorrerá em um porto industrial isolado, com repatriação imediata de passageiros e tripulantes em veículos lacrados.
O que deveria ser a viagem dos sonhos pela “Atlantic Odyssey” transformou-se em semanas de apreensão e luto no Oceano Atlântico. Na madrugada deste domingo, 10 de maio, o navio de cruzeiro MV Hondius, operado pela Oceanwide Expeditions, deve atracar no porto de Granadilla, na ilha de Tenerife (Espanha), encerrando uma jornada marcada por casos de hantavírus.
A operação de desembarque e repatriação está sendo coordenada em nível global, com a presença in loco do Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. As 147 pessoas a bordo, sendo 87 hóspedes e 60 tripulantes de 23 nacionalidades, serão retiradas através de um corredor completamente isolado, longe de áreas residenciais, embarcadas em veículos lacrados e repatriadas imediatamente aos seus países de origem.
Ao descrever a situação e tranquilizar a população local espanhola, o Dr. Tedros foi categórico ao afastar o fantasma da pandemia de 2020: “Embora este seja um incidente grave, a OMS avalia o risco para a saúde pública como baixo”.
O surto e as vítimas
A viagem teve início no dia 1º de abril em Ushuaia, na Argentina. O primeiro alerta de gravidade ocorreu quando um passageiro desenvolveu sintomas em 6 de abril, vindo a falecer a bordo no dia 11. Sua esposa, evacuada para a África do Sul, também sucumbiu à doença, com exames confirmando a infecção por hantavírus. Uma terceira morte foi registrada a bordo no dia 2 de maio. Outro passageiro segue em cuidados intensivos na África do Sul.
Até o momento, a OMS contabiliza oito casos suspeitos ligados ao navio, sendo seis deles confirmados em laboratório. A investigação revelou tratar-se do hantavírus do tipo Andes. Esta cepa, encontrada em regiões da América Latina, é a única variante conhecida capaz de ser transmitida de pessoa para pessoa, embora isso exija circunstâncias de contato muito próximo e prolongado.
Em Genebra, o porta-voz da OMS, Christian Lindmeier, reforçou a natureza limitada do contágio, afirmando que o vírus “não se propaga nem perto da forma como a Covid19 se propagava”. Para ilustrar a dificuldade de transmissão, a agência citou que uma comissária de bordo testou negativo após contato com uma das vítimas. Lindmeier ressaltou que este é um “vírus perigoso, mas apenas para a pessoa realmente infectada”.
Clima a bordo e evacuação médica
Apesar do trauma, as últimas atualizações da Oceanwide Expeditions e da OMS trazem alívio: não há indivíduos sintomáticos a bordo atualmente.
No dia 6 de maio, quando o navio se aproximava de Cabo Verde, três pessoas (dois hóspedes e um tripulante) foram evacuadas por uma aeronave com recursos aeromédicos para os Países Baixos, onde permanecem sob monitoramento. Na mesma data, quatro profissionais de saúde embarcaram no MV Hondius para assumir o controle médico e monitorar a tripulação e os passageiros restantes.
Segundo a empresa responsável pelo cruzeiro, o ambiente a bordo permanece tranquilo e positivo, com todos seguindo estritamente os protocolos estabelecidos.
Jake Rosmarin, um blogueiro dos Estados Unidos que está entre os passageiros do MV Hondius, utilizou suas redes, neste sábado (09/05), para confirmar que “todos os passageiros permanecem sem sintomas e ainda estão bem dispostos” às vésperas da chegada a Tenerife.
Rosmarin explicou que haverá uma “triagem a bordo do navio” antes que as repatriações comecem. O destino final de muitos passageiros, no entanto, não será o conforto de casa. O norte-americano revelou que os cidadãos de seu país serão enviados “para o Nebraska para quarentena e testes”, ressaltando que a ação é essencial “para garantir a segurança de nós mesmos e do público em geral”. Após o longo isolamento no mar, ele agradeceu a solidariedade: “Obrigado mais uma vez a todos os que têm sido apoiados através disto”.
Solidariedade e regulamento sanitário internacional
A escolha de Tenerife não foi acidental. A ilha espanhola possui a infraestrutura e a capacidade médica exigidas pelo Regulamento Sanitário Internacional (RSI) para lidar com crises dessa magnitude.
O Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus fez questão de agradecer ao primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, classificando a aceitação do navio como um “ato de solidariedade e dever moral”. O Diretor-Geral da OMS destacou que sua ida a Tenerife é uma forma de prestar homenagem “a uma ilha que respondeu a uma situação difícil com graça, solidariedade e compaixão”.
Lembrando o drama humano por trás dos protocolos médicos, Tedros destacou as semanas difíceis vividas pelas pessoas a bordo: “algumas delas de luto, todas assustadas, todas com saudades de casa”.
Após a conclusão da repatriação em Tenerife, sob a supervisão das autoridades espanholas, holandesas, OMS e do RIVM (Instituto Nacional de Saúde Pública da Holanda), o navio MV Hondius seguirá viagem em direção aos Países Baixos. O Dr. Tedros reforçou o compromisso global da agência: “Nossas prioridades são garantir que os pacientes afetados recebam atendimento, que os demais passageiros a bordo sejam mantidos em segurança e tratados com dignidade, e evitar qualquer propagação adicional do vírus”.
Entenda o hantavírus
Para compreender a gravidade do alerta médico acionado a bordo do navio m/v Hondius, é fundamental entender o comportamento do vírus detectado em um dos passageiros evacuados. Os hantavírus são um grupo de vírus zoonóticos transmitidos por roedores que podem causar doenças severas em humanos. De acordo com a OMS, “a infecção em pessoas pode resultar em doenças graves e, frequentemente, em morte, embora as manifestações clínicas variem de acordo com o tipo de vírus e a localização geográfica”.
A forma como o vírus ataca o corpo humano depende muito da região onde a infecção ocorre. Nas Américas, os hantavírus causam a síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH), uma condição respiratória de rápida progressão que afeta pulmões e coração, com uma taxa de letalidade altíssima que pode chegar a até 50%. Já na Europa e na Ásia, as infecções costumam resultar em febre hemorrágica com síndrome renal (FHSR), afetando principalmente os rins e vasos sanguíneos, com letalidade variando de 1% a 15%.
A transmissão principal ocorre quando humanos entram em contato com ambientes contaminados. A OMS explica que as pessoas se infectam através do contato com “urina, fezes ou saliva contaminadas de roedores infectados”. Um detalhe crucial para a investigação do surto no navio é a forma de contágio humano: a infecção entre pessoas é extremamente rara em nível global. Segundo a entidade, “a transmissão de pessoa para pessoa foi documentada apenas para o vírus Andes nas Américas e permanece incomum”, exigindo contato próximo e prolongado entre os indivíduos.
Os sintomas iniciais costumam surgir de uma a seis semanas após a exposição ao vírus, manifestando-se inicialmente como febre, dores de cabeça e musculares, além de náuseas ou dores abdominais. No caso da variante que afeta os pulmões (SCPH), o quadro clínico “pode progredir rapidamente para tosse, falta de ar, acúmulo de líquido nos pulmões e choque”.
O grande desafio no combate à doença é a ausência de uma cura definitiva. A OMS é categórica ao afirmar que “não existe tratamento antiviral específico ou vacina licenciada para a infecção por hantavírus”. A sobrevida do paciente depende fundamentalmente de um “atendimento médico de suporte precoce”, focado no controle de complicações respiratórias e renais em unidades de terapia intensiva. A prevenção mais eficaz continua sendo evitar o contato com roedores, manter os ambientes limpos e umedecer locais possivelmente contaminados antes de realizar qualquer limpeza, evitando varrer a seco para não inalar as partículas virais.