Brasão da Polícia Federal em uniforme | Foto: Ilustrativa
[Foto: Ilustrativa]
- Prisão e STF: O deputado Thiago Rangel foi preso na 4ª fase da Operação Unha e Carne. Decisão do STF detalha esquema de direcionamento de obras na Educação do RJ, revelando repasses de caixa dois e ligações com o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar.
- Suspensão no TCE: O Tribunal de Contas (TCE-RJ) mandou suspender pagamentos a empresas do esquema. A Seeduc é acusada de usar um sistema de verbas descentralizadas para movimentar mais de R$ 1 bilhão em dois anos sem licitação.
- Ameaças e laranjas: Investigações interceptaram diálogos de Rangel planejando ataques violentos contra desafetos e revelaram uma complexa rede de empresas de fachada e operadores financeiros para lavar dinheiro de contratos públicos.
A Polícia Federal deflagrou na manhã desta terça-feira (05/05) a quarta fase da Operação Unha e Carne, que culminou na prisão do deputado estadual Thiago Rangel (Avante). A ação, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, mira a desarticulação de uma complexa organização voltada para fraudes, direcionamento de licitações e lavagem de dinheiro em obras de escolas da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro (Seeduc).
Ao todo, os agentes cumprem 7 mandados de prisão preventiva e 23 de busca e apreensão na capital, além das cidades de Campos dos Goytacazes, Miracema e Bom Jesus do Itabapoana. Além do parlamentar, operadores financeiros, empresários e a Diretora Regional de Educação Noroeste, também foram alvos de prisão e afastamento de funções públicas.
O esquema na Seeduc e a intervenção do TCE-RJ
As investigações da Força-Tarefa Missão Redentor II revelam que o grupo utilizava o sistema descentralizado da Seeduc, originalmente criado para pequenos reparos emergenciais, para realizar grandes reformas estruturais. Esse desvio de finalidade fez os custos saltarem drasticamente, ultrapassando R$ 1 bilhão nos últimos dois anos.
O Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) determinou a suspensão imediata dos pagamentos a seis empresas envolvidas. Uma delas é uma empresa, que recebeu mais de R$ 11 milhões e teve como representante legal um ex-funcionário de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj preso sob suspeita de envolvimento com o Comando Vermelho.
A conselheira substituta Andrea Siqueira Martins, autora da decisão, apontou que há “fortes indícios de burla ao regime constitucional e legal das licitações públicas”, já que as obras eram de grande vulto e extrapolavam o conceito de urgência. A Seeduc tem 15 dias para se manifestar.
Diante das denúncias e da suspensão dos pagamentos determinada pelo Tribunal de Contas, a Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) se manifestou oficialmente. Em nota, o órgão informou que “está realizando uma revisão administrativa de todos os procedimentos relacionados às obras de manutenção e reparo nas unidades da rede estadual”. Para frear o avanço dos gastos sem controle no sistema descentralizado, a pasta estabeleceu um teto rigoroso de R$ 130 mil para pequenos reparos, com base na nova Lei de Licitações (14.133).
Segundo a Seeduc, “quaisquer obras que ultrapassem esse limite passam a ser tratadas como intervenções de maior porte e passarão a ser executadas pela Empresa de Obras Públicas (Emop-RJ)”. O governo estadual ressaltou ainda que “segue colaborando” de forma irrestrita com o Ministério Público, com o TCE e demais órgãos de controle na apuração dos fatos.
Operação Unha e Carne
A decisão que fundamentou a prisão preventiva do deputado estadual Thiago Rangel (Avante) e de outras seis pessoas na 4ª fase da Operação Unha e Carne escancara as entranhas de um esquema que mistura corrupção sistêmica na Educação do Rio de Janeiro, lavagem de capitais e criminalidade violenta.
O documento, assinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, acolheu integralmente a representação da Polícia Federal e o parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR). O texto revela que a atuação não se restringia apenas no desvio de verbas, mas utilizava o aparato do Estado para fortalecer um grupo criminoso altamente perigoso.
Abaixo, detalhamos os principais pilares da decisão, com base em trechos literais do processo judicial.
O Elo político: Rodrigo Bacellar e a planilha “Pedidos”
A investigação que culminou na prisão de Rangel teve início a partir da análise de um computador apreendido na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), no gabinete ligado ao ex-presidente da Casa, Rodrigo Bacellar. No aparelho, a PF encontrou uma planilha reveladora.
A Polícia Federal descreve a planilha como um mapa do loteamento do Estado:”A qual continha, de forma sistematizada, a relação de Deputados Estaduais, acompanhada de campos denominados ‘o que tem’ e ‘o que está pedindo’, fazendo referência à indicação e ocupação de cargos em órgãos públicos estaduais considerados estratégicos.”
Segundo a decisão, Bacellar utilizou sua influência para ceder espaços na Secretaria de Educação (Seeduc) a aliados, incluindo Thiago Rangel, em troca de apoio político e financeiro. A PF foi categórica ao apontar um acordo clandestino de financiamento eleitoral: “A IPJ (…) indicou um suposto financiamento eleitoral, referente ao apoio financeiro (caixa dois) no valor de R$ 2.900.000,00, com o qual o ex-Deputado Estadual RODRIGO BACELLAR haveria se comprometido com o Deputado Estadual THIAGO RANGEL LIMA, para que fosse utilizado no financiamento da campanha de sua filha (THAMIRES RANGEL) e de outros candidatos…”
A PGR, em seu parecer acatado por Moraes, cravou a gravidade da associação entre os dois políticos:”THIAGO RANGEL LIMA desponta como braço político da organização criminosa, ligado ao investigado RODRIGO DA SILVA BACELLAR […] lideranças políticas que apresentam significativas conexões com a criminalidade violenta do Estado do Rio de Janeiro.”
Emboscadas e tráfico de drogas
Um outro ponto do despacho do STF é a revelação de que o grupo político utilizava métodos para silenciar opositores. Em diálogos interceptados, Thiago Rangel e seu chefe de gabinete, Fábio Pourbaix (também preso), discutem abertamente ataques armados.
Ao ser criticado no Facebook por um desafeto, o deputado reagiu de forma incisiva, pedindo o endereço da vítima para mandar “uma surpresa”:
A Polícia Federal também apontou que Thiago Rangel cedia vagas de emprego na área da educação para indicações de indivíduos de “alta periculosidade”, um homem apontado como liderança do tráfico de drogas com “extensa ficha criminal, tendo sido processado e condenado por diversos crimes, dentre eles homicídios simples e qualificado”.
A máquina de lavar dinheiro: Saques em espécie e “Laranjas”
Para escoar o dinheiro desviado das obras em escolas estaduais, segundo o ministro, era utilizada uma complexa rede de empresas de fachada. Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) do COAF identificaram transações atípicas milionárias, marcadas por depósitos de construtoras e saques imediatos em espécie para dificultar o rastreio.
A decisão do ministro explica que Luiz Fernando Passos de Souza, apontado como operador financeiro do esquema, utilizava empresas em nome de sua própria esposa (como casas de festas e empresas de reformas) e um posto de gasolina para lavar o dinheiro. O STF destacou a audácia do grupo nos caixas eletrônicos: “Os provisionamentos eram declarados com a finalidade de ‘pagamento a terceiros/funcionários’, porém, nos saques efetivamente realizados, o sacador recusou-se a informar a finalidade dos valores. No período analisado, foram registrados seis provisionamentos, totalizando R$ 4.000.000,00 […]”
Em uma conversa interceptada, Luiz Fernando avisa o deputado Rangel sobre o sucesso do esquema, logo após a assinatura de um contrato público: “Contrato assinado… Saque de 550 para sexta… Depois 700 + 750” Dias depois, o operador envia uma foto de maços de dinheiro em espécie com a mensagem “Guardado…”.
Alvos da Operação Unha e Carne (Fase 4)
Situação dos investigados por determinação do STF
Thiago Rangel Lima
Deputado Estadual
Rio de Janeiro (Capital) e Campos dos Goytacazes
Júcia Gomes de S. Figueiredo
Diretora Regional de Educação Noroeste (Seeduc)
Bom Jesus do Itabapoana e Itaperuna
Fábio Pourbaix Azevedo
Chefe de Gabinete do dep. Thiago Rangel
Campos dos Goytacazes
Luiz Fernando Passos de Souza
Operador Financeiro
Campos dos Goytacazes
Rui Carvalho Bulhões Junior
Ex-Chefe de Gabinete da Presidência da Alerj
Campos dos Goytacazes
Marcos Aurélio Brandão Alves
Procurador de empresas (“Laranja”)
Campos dos Goytacazes
Vinicius de Almeida Rodrigues
Sócio-administrador da VAR Construtora
Itaperuna
Deleon Lucas de Souza Carneiro
Coordenador de Infraestrutura (Seeduc Noroeste)
Itaperuna
Nédio Gabriel de S. Gonçalves
Sócio da Brasil X Empreendimentos
Campos dos Goytacazes
Jhonatas de Souza Soares
Operador de frota / “Laranja”
Campos dos Goytacazes
Elexandre Rodrigues S. Filho
Assessor Político / “Laranja”
Campos dos Goytacazes
A justificativa de Alexandre de Moraes para a prisão
O ministro Alexandre de Moraes justificou que a audácia e o poder da organização exigiam a medida mais extrema, enquadrando o caso na exceção de crimes inafiançáveis. Moraes enfatizou a necessidade de paralisar a máquina que operava dentro do Estado:
“Diante desse cenário, a decretação da prisão preventiva mostra-se necessária e adequada […] como medida indispensável à garantia da ordem pública, sobretudo para cessar a atuação da organização criminosa e impedir que os investigados, valendo-se de sua influência e posição funcional, continuem a delinquir ou interfiram na colheita da prova.”
A decisão também determinou o afastamento imediato de cargos públicos de todos os envolvidos, incluindo a Diretora Regional de Educação Noroeste, Júcia Gomes de Souza Figueiredo, que, segundo a PF, era “uma espécie de longa manus do Deputado Estadual THIAGO RANGEL […] viabilizando as fraudes e desvio de recursos públicos”.
Cronologia
Os bastidores do desvio de verbas na Educação do RJ, segundo a decisão do STF.
O início da influência política
Thiago Rangel elege-se vereador em Campos dos Goytacazes, dando início à nomeação de aliados estratégicos em órgãos municipais e, posteriormente, estaduais.
“A organização criminosa também atuou em alguns procedimentos de aquisição no âmbito da Câmara dos Vereadores (…) graças ao cargo de Diretor de Aquisições ocupado por Augusto Vasconcelos (…) e o de Vereador Municipal antes ocupado por Thiago Rangel.”
Ameaças e emboscadas
Diálogos interceptados mostram Thiago Rangel e seu operador, Fábio Pourbaix, arquitetando ataques violentos a tiros contra adversários e desafetos políticos.
“THIAGO RANGEL: ‘Beleza, vamos arquitetar, orquestrar tudo aí. Porque esse cara aí, tá impossível de suportar ele […] vou arrebentar esse filho da puta’.”
A Planilha “Pedidos” e o Loteamento
A PF encontra em um computador ligado a Rodrigo Bacellar (ex-presidente da Alerj) uma planilha detalhando a distribuição de cargos no governo para deputados, incluindo Thiago Rangel.
“Continha, de forma sistematizada, a relação de Deputados Estaduais, acompanhada de campos denominados ‘o que tem’ e ‘o que está pedindo’, fazendo referência à indicação e ocupação de cargos (…) estratégicos.”
Controle da Seeduc e lavagem de dinheiro
Thiago Rangel orienta a Diretora Regional da Seeduc e seu operador financeiro (Luis Fernando) repassa comprovantes de depósitos e fotos de dinheiro em espécie após aprovação de contratos.
“THIAGO RANGEL (para a diretora da Seeduc): ‘Tudo que acontecer dentro da regional eu quero saber… eu não tenho que dar satisfação a ninguém. Porque o deputado sou eu, a indicação é minha e quem manda sou eu’.”
Operação Postos de Midas
A Polícia Federal deflagra operação contra Rangel por lavagem de dinheiro em postos de combustíveis. O celular do deputado é apreendido, originando as novas provas.
“A partir da análise das conversas, via aplicativo do WhatsApp, encontradas no aparelho celular apreendido em poder do Deputado (…) foi possível identificar a existência desse novo esquema criminoso.”
A ordem de prisão do STF
Baseado nas provas de peculato, lavagem de capitais e risco à ordem pública, o ministro Alexandre de Moraes assina os mandados de prisão preventiva e buscas.
“A decretação da prisão preventiva mostra-se necessária e adequada […] para cessar a atuação da organização criminosa e impedir que os investigados, valendo-se de sua influência e posição funcional, continuem a delinquir.”
Deflagração da Operação Unha e Carne
A PF vai às ruas na 4ª fase da operação, prendendo o deputado Thiago Rangel, operadores financeiros e diretores da Seeduc no Rio, Campos, Miracema e Bom Jesus do Itabapoana.
“PGR: ‘Thiago Rangel Lima desponta como braço político da organização criminosa, ligado ao investigado Rodrigo da Silva Bacellar […] conectando o crime organizado às instituições do Estado’.”
Histórico: Operação Postos de Midas e repercussão familiar
Thiago Rangel, que viu seu patrimônio saltar de R$ 224 mil em 2020 para quase R$ 2 milhões em 2022, já havia sido alvo da Operação Postos de Midas em outubro de 2024. A ação apurava lavagem de dinheiro através de uma rede de 18 postos de combustíveis.
A repercussão da prisão desta terça-feira ocorre um dia após sua filha, Thamires Rangel (PMB), que havia sido nomeada subsecretária adjunta de Ambiente e Sustentabilidade, ter sua exoneração publicada no Diário Oficial, na segunda-feira (04/05). Na semana passada, ao deixar o cargo, Thamires publicou um vídeo focando em suas entregas:
“Em outubro do ano passado, eu recebi com muita honra e responsabilidade o convite para assumir a Subsecretaria do Estado de Ambiente e Sustentabilidade. Eu trabalhei com muita dedicação para trazer resultados concretos para a nossa região […] Sigo firme no meu propósito de honrar cada voto de confiança, sendo a única mulher eleita pelo povo campista. E mantenho o meu compromisso de honrar o nosso povo e a nossa gente.”
O que diz a defesa de Thiago Rangel
Em nota oficial, a defesa do deputado estadual negou as acusações e pediu cautela nas interpretações. Leia a íntegra:
“A defesa do deputado Thiago Rangel recebeu com surpresa a notícia da operação realizada na data de hoje. Neste momento, está se inteirando dos fatos, do teor da investigação e das medidas eventualmente determinadas, reafirmando desde logo a plena confiança nas instituições e no devido processo legal. O deputado nega a prática de quaisquer ilicitos e prestará todos os esclarecimentos necessários nos autos da investigação, local próprio para a apuração dos fatos. A defesa ressalta, por fim, que qualquer conclusão antecipada, é indevida antes do conhecimento integral dos elementos que fundamentam a medida.”
*O espaço permanece aberto para a manifestação da defesa dos demais citados.