O mercado de trabalho formal no Brasil registrou um avanço na participação feminina, impulsionado principalmente pela contratação de mulheres negras. Entre 2023 e 2025, o número de mulheres pretas e pardas empregadas em empresas com 100 ou mais funcionários cresceu 29%, saltando de 3,2 milhões para 4,2 milhões, o que representa a criação de mais de 1 milhão de postos de trabalho formais para este grupo.
Os dados fazem parte do 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado nesta segunda-feira (27/04) pelos ministérios do Trabalho e Emprego e das Mulheres. O documento, baseado na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), abrangeu 53,5 mil estabelecimentos no país e traçou um raio-x do emprego formal.
No panorama geral feminino, o crescimento foi de 11%: o total de mulheres empregadas nessas grandes empresas passou de 7,2 milhões para 8,0 milhões no período, somando 800 mil novas trabalhadoras.
A persistência da desigualdade salarial
Apesar do aquecimento da economia e da forte inclusão produtiva, o relatório acende um alerta sobre a disparidade de renda. Em 2025, as mulheres receberam, em média, 21,3% a menos que os homens no setor privado com 100 ou mais empregados. O índice apresentou uma piora em relação a 2023, quando a diferença era de 20,7%.
No momento da admissão, o cenário se repete: o salário médio inicial das mulheres ficou 14,3% abaixo do registrado para os homens em 2025 (frente a 13,7% em 2023). O relatório destaca que o salário médio geral é de R$ 4.594,89, com o salário contratual mediano na faixa de R$ 2.295,36.
Para a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, os números vão além da folha de pagamento. “Quando nós defendemos a igualdade salarial, não estamos defendendo puramente aquele número nominal de valor do salário das mulheres e homens numa empresa. Nós estamos falando da função que essa mulher está, das condições de trabalho em que ela se encontra, dos direitos que ela já tem garantidos e que muitas vezes não são cumpridos”, afirmou.
A ministra ressaltou ainda o impacto das estruturas sociais no ambiente corporativo: “As mulheres ainda se ressentem muito de todos esses processos que as discriminam, que as inferiorizam, que as subalterniza por vários interesses e, principalmente, pela cultura ainda misógina, machista. A gente tem que trabalhar muito mais, tem que dialogar muito mais, tem que se juntar a todas as confederações, as entidades, as instâncias federativas”.
Ascensão nas carreiras e impacto na economia
A disparidade salarial também varia de acordo com o porte da empresa. Em estabelecimentos menores (até 250 funcionários), a remuneração de admissão feminina alcança 90% de equivalência com a masculina. Nas grandes corporações, porém, onde os salários são naturalmente mais altos, a distância aumenta.
O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, endossou a necessidade de focar na progressão profissional. “Não é somente a igualdade de salário na mesma função. Nós estamos falando da necessidade da promoção de valorização das mulheres na ascensão nas carreiras. Nós queremos estabelecer passo a passo, degrau por degrau, na construção da igualdade salarial, mas ela é um pedacinho do todo que nós desejamos quando se debate o direito das mulheres”, declarou.
A equiparação salarial teria um impacto bilionário no Brasil. Atualmente, as mulheres representam 41,4% do emprego formal. Para que a sua massa de rendimentos correspondesse a essa participação (subindo dos atuais 35,2%), seria necessário injetar R$ 95,5 bilhões por ano na remuneração feminina. Segundo o levantamento, corrigir essa distorção elevaria a massa total de rendimentos do país em mais de 10%.
Liderança, Ações Afirmativas e Destaques Regionais
A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, destacou a importância dos dados para direcionar o combate às disparidades históricas. “Esse relatório é um instrumento muito importante para todos nós que buscamos promover igualdade de gênero, igualdade de raça, que trabalhamos para que a política pública melhore, que trabalhamos para promover ações afirmativas e garantir que mulheres tenham melhores salários, que mulheres negras, que ainda seguem sendo aquelas que recebem os piores salários, recebam de acordo com o trabalho que exercem. Esse instrumento ajuda muito a gente a avançar, a mostrar o quanto que nós precisamos caminhar”, pontuou.
O documento revelou avanços práticos nas empresas. Houve um crescimento de 12% no número de estabelecimentos com mulheres em cargos de gerência e direção (alcançando 13,7 mil empresas) e uma maior adoção de políticas de parentalidade.
No campo das ações afirmativas, 7% dos estabelecimentos mantêm políticas para contratar mulheres vítimas de violência, medida liderada pelas corporações com mais de mil funcionários. No recorte regional, o relatório traz os seguintes destaques:
- Minas Gerais e Espírito Santo: Lideram a adoção de políticas para vítimas de violência doméstica (11,6%) e para mulheres LGBTQIAP+ (24,6% no ES e 23,3% em MG). Minas Gerais também lidera o quadro geral de incentivo à contratação feminina (34,7%).
- Pará: Destaque nacional em políticas de incentivo à contratação de mulheres negras (24,8%).
- Rondônia: Lidera nas políticas voltadas à contratação de mulheres com deficiência (27,1%).
*Com informações de Ministérios do Trabalho e Emprego e das Mulheres.