[Foto: Richard Souza / AN]
Nesta quinta-feira (09/04), o Supremo Tribunal Federal (STF) retoma o julgamento que decidirá o destino político do estado do Rio de Janeiro. Após uma abertura marcada por divergências entre os primeiros ministros a votar, o Plenário busca definir se o novo governador do estado será escolhido pelo voto popular (eleição direta) ou pelos deputados estaduais (eleição indireta).
Desde a renúncia de Cláudio Castro (PL), em março, o estado é gerido interinamente pelo presidente do Tribunal de Justiça (TJ-RJ), desembargador Ricardo Couto. A crise se instalou após a saída de Castro, que renunciou um dia antes de ter sua inelegibilidade confirmada pelo TSE por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
O racha no Supremo: Entenda os votos dos relatores
O primeiro dia de julgamento evidenciou dois entendimentos opostos sobre a natureza da vacância no cargo:
A tese da eleição direta (Ministro Cristiano Zanin)
Para o ministro Cristiano Zanin, relator da Reclamação 92644, a população não pode ser excluída do processo. Ele sustenta que a saída de Castro teve “causa eleitoral”, classificando a renúncia como uma tentativa de antecipar-se à cassação pelo TSE.
- Argumento central: Se a vacância ocorre por motivos eleitorais e faltam mais de seis meses para o fim do mandato, o Código Eleitoral exige eleições diretas.
- Transparência: Zanin defende que, caso o pleito ocorra na Alerj, o voto deve ser aberto.
A tese da eleição indireta (Ministro Luiz Fux)
Relator da ADI 7942, o ministro Luiz Fux divergiu. Ele entende que a renúncia foi um ato legítimo aceito pelo TSE, o que desconfiguraria a cassação imediata, abrindo espaço para a aplicação da lei estadual que prevê eleição indireta para vacâncias nos últimos dois anos de mandato.
- Argumento central: Fux alerta para a instabilidade de realizar eleições suplementares diretas em datas muito próximas ao pleito geral.
- Sigilo: Para ele, se a eleição for na Alerj, o voto deve ser secreto para proteger a independência dos parlamentares e evitar “troca de favores”.
Placar Atual: Eleições RJ (Sucessão Cláudio Castro)
- Considera que a renúncia teve causa eleitoral nítida.
- Vê a saída de Castro como manobra para evitar a cassação pelo TSE.
- Defende o voto aberto na Alerj (caso vença a tese indireta) para garantir transparência.
- Argumenta que o TSE aceitou a renúncia como ato legítimo, mudando a natureza da vacância.
- Acredita que eleições suplementares diretas não devem ocorrer próximas ao pleito geral.
- Defende o voto secreto na Alerj para evitar pressão política.
O peso da Procuradoria-Geral da República
O Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, reforçou o coro pelas eleições diretas. Em sua sustentação, Gonet afirmou categoricamente que a renúncia de Castro foi uma manobra para fugir das consequências jurídicas de sua conduta nas eleições de 2022, não podendo o Judiciário ignorar a origem eleitoral da crise.
Na terça-feira, 7 de abril, o Ministério Público Eleitoral (MP Eleitoral) já havia se manifestado formalmente a favor da participação popular nas urnas para a definição do mandato-tampão. O órgão argumenta que a renúncia de Cláudio Castro não possui o poder de apagar a natureza eleitoral da vacância, uma vez que o ato ocorreu em meio ao processo de inelegibilidade no Tribunal Superior Eleitoral.
Para os procuradores eleitorais, a escolha direta é o caminho legal para preservar a soberania do eleitor quando o afastamento do gestor decorre de ilícitos cometidos durante o pleito. “A determinação da cassação do diploma de Cláudio Castro (mesmo com a renúncia preexistente) por parte do TSE é um reconhecimento de que o abuso de poder produziu seus efeitos no tocante ao mandato obtido pelo investigado na eleição de 2022”, afirmou o vice-procurador-geral Eleitoral, Alexandre Espinosa.
O que está em jogo hoje?
Os demais ministros do STF votarão ao longo do dia. A decisão final terá impacto imediato:
- Se Direta: O Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) precisará organizar um pleito em tempo recorde para que os cidadãos fluminenses escolham o novo mandatário.
- Se Indireta: A Alerj publicará edital para candidaturas, e os deputados decidirão o nome que governará o Rio até 31 de dezembro de 2026.
- Interinidade: Há ainda a tese defendida pelo PSD de que, para evitar custos e instabilidade, o desembargador Ricardo Couto siga no cargo até as eleições gerais de outubro.
Crise no Rio: A Caminho do STF
Entenda os passos que levaram ao julgamento e o que vem pela frente
O vice-governador eleito renuncia para assumir vaga no TCE-RJ, deixando a linha sucessória vaga.
Governador renuncia e, horas depois, o TSE o torna inelegível por 8 anos por abuso de poder em 2022.
Relatores Fux e Zanin apresentam votos divergentes. PGR e MP Eleitoral defendem eleições Diretas por causa eleitoral.
Os demais 9 ministros votam hoje. O foco é decidir se a renúncia foi manobra para evitar cassação e o tipo de voto (aberto/secreto) na Alerj.
Com a maioria formada (6 votos), o Rio terá novo pleito. Se direto, TRE-RJ convoca urnas; se indireto, Alerj publica edital de eleição interna.
*Com informações de STF