[Foto: Ilustrativa / LensGO]
O monitoramento da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no Brasil atingiu um novo patamar de alerta. De acordo com a nova edição do Boletim InfoGripe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgada nesta quarta-feira (01/04), o vírus Influenza A consolidou sua trajetória de crescimento em quatro das cinco regiões do país. A maioria das unidades federativas no Norte, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste apresenta sinal de crescimento nas tendências de longo prazo, com níveis de atividade variando entre alerta e alto risco.
A gravidade do cenário epidemiológico atual é evidenciada pelos dados de óbitos das últimas quatro semanas. Entre os registros que testaram positivo para vírus respiratórios, a Influenza A desponta como a principal causa de morte, respondendo por 36,9% dos óbitos, superando o Rinovírus (30,0%) e o Sars-CoV-2 (25,6%). Esse padrão de mortalidade acentuada concentra-se especialmente na população idosa, grupo em que a Influenza A e a Covid-19 são os principais vetores de letalidade. Enquanto isso, a incidência de casos de SRAG permanece mais elevada entre crianças pequenas, sendo impulsionada majoritariamente pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e pelo Rinovírus.
Geografia do vírus: Capitais e estados em alerta
O mapeamento da Fiocruz identifica 14 capitais com sinal de crescimento na tendência de longo prazo (últimas seis semanas) até a Semana Epidemiológica 12:
- Norte: Boa Vista.
- Nordeste: Fortaleza, Teresina, Natal, João Pessoa, Recife, Aracaju, Maceió e Salvador.
- Sudeste: Belo Horizonte, Vitória e Rio de Janeiro.
- Centro-Oeste: Cuiabá e Campo Grande.
Enquanto estados como Maranhão, Piauí, São Paulo e Minas Gerais mantêm o sinal de subida para a Influenza A, o VSR também ganha terreno, especialmente no Acre, Amazonas, Goiás e Distrito Federal. Já o Rinovírus continua avançando no Rio de Janeiro e Espírito Santo, mas dá sinais de interrupção em São Paulo e em todo o Sul do país.
Incidência por faixa etária: O perfil dos pacientes
Os dados laboratoriais revelam uma divisão clara no impacto dos vírus conforme a idade:
- Crianças e Adolescentes: O aumento de SRAG é impulsionado principalmente pelo Rinovírus e pelo VSR. A incidência é mais elevada em crianças pequenas.
- Jovens, Adultos e Idosos: A Influenza A é a causa primária das internações. A mortalidade é drasticamente superior entre os idosos, onde a gripe deixa de ser uma infecção respiratória para se tornar um gatilho sistêmico.
A pesquisadora Tatiana Portella, do Boletim InfoGripe da Fiocruz, alerta que a imunização se consolidou como a ferramenta mais eficaz para frear a evolução de quadros clínicos críticos e a ocorrência de óbitos. Diante da necessidade de proteger os mais vulneráveis, Portella reforça: “Por isso, é fundamental que pessoas dos grupos prioritários como idosos, crianças, pessoas com comorbidades e profissionais da saúde e da educação estejam em dia com a vacina contra a influenza. Também é importante que gestantes a partir da 28ª semana recebam a vacina contra o VSR, garantindo proteção aos bebês desde o nascimento”.
Boletim InfoGripe Fiocruz
Dados Oficiais: Semana Epidemiológica 12 (Março/2026)
⚰️ Vírus nos Óbitos
*Prevalência entre casos positivos nas últimas 4 semanas.
👥 Perfil Epidemiológico
- Crianças Pequenas: Maior incidência de SRAG (VSR e Rinovírus).
- Adultos e Idosos: Influenza A é a principal causa de SRAG.
- Mortalidade: Maior impacto nos idosos (Covid-19 e Influenza A).
- Gestantes: Recomendação de vacina contra VSR (28ª semana).
📍 14 Capitais em Alerta/Alto Risco
Influenza A: Em alta na maioria do NE, SE, e partes do N e CO.
VSR: Aumento em estados do Norte, NE e início no Sudeste.
Rinovírus: Avanço em MG, RJ e ES.
📢 Prevenção e Isolamento
“A principal forma de prevenção contra casos graves e óbitos por influenza A e o VSR é a vacinação. Pessoas em estados com alta de SRAG devem utilizar máscaras (PFF2 ou N95) em locais aglomerados.” — Tatiana Portella (Fiocruz)
Mobilização nacional e “Dia D”
A campanha de vacinação contra a influenza em 2026, iniciada no final de março, registrou uma adesão popular robusta. De acordo com o balanço do Ministério da Saúde, mais de 2,3 milhões de doses já foram aplicadas nas regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste. O grande motor desse resultado foi o “Dia D”, realizado no último sábado (28/03), que sozinho contabilizou 1,6 milhão de imunizações. A campanha de vacinação contra a Influenza segue até o dia 30 de maio.
Para sustentar o ritmo, o Governo Federal já distribuiu 15,7 milhões de doses aos estados. Em pronunciamento oficial, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, enfatizou que o imunizante reduz em até 60% o risco de internação. Padilha fez um apelo direto às famílias: “Não negue ao seu filho um direito que nossos pais não nos negaram. Vacinar é também um ato de amor à sua família”.
A estratégia para 2026 mantém orientações específicas: crianças de 6 meses a 8 anos que nunca foram vacinadas devem receber duas doses (intervalo de 4 semanas). A vacina da gripe pode ser administrada simultaneamente com a da Covid-19. Devido às condições climáticas, a Região Norte seguirá um calendário diferenciado no segundo semestre.
Idosos: O grupo de risco
Os dados epidemiológicos mais recentes do Boletim InfoGripe confirmam que a população idosa é a mais atingida pela atual alta de doenças respiratórias. Dados parciais do SIVEP-Gripe, abrangendo de janeiro até a segunda semana de março de 2026, mostram um salto de 153% nas hospitalizações de pessoas com 60 anos ou mais em comparação ao mesmo período de 2025.
Este aumento acompanha o alerta da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) sobre uma circulação viral mais precoce nas Américas. “O comportamento do vírus neste ano indica uma presença mais precoce e contínua. Já vínhamos observando aumento de casos desde janeiro, com crescimento mais evidente a partir de fevereiro”, afirma a Dra. Nancy Bellei, infectologista e professora da Unifesp.
Riscos sistêmicos e proteção cardíaca
A gravidade da influenza na terceira idade está ligada à imunossenescência, o desgaste natural das defesas do corpo. O impacto do vírus atua como um gatilho para crises cardiovasculares. Segundo o cardiologista Mucio Tavares: “A influenza pode desencadear eventos cardiovasculares importantes, como infarto, AVC (Acidente Vascular Cerebral) e descompensação de insuficiência cardíaca, especialmente em pacientes mais velhos e com comorbidades”.
A infectologista Rosana Richtmann reforça que a vacinação é o divisor de águas nos desfechos clínicos: “A vacinação é essencial porque reduz a gravidade da doença e os desfechos mais críticos. Em idosos, isso faz toda a diferença para evitar hospitalizações e óbitos”.
*Com informações de Fiocruz