[Foto: Richard Souza / AN]
A cena é comum em consultórios e prontos-socorros: diante de uma febre persistente ou de uma dor de garganta que impede o sono, a expectativa dos pais costuma recair sobre uma receita de antibiótico. A busca por um “alívio rápido”, no entanto, pode estar cobrando um imposto alto da saúde infantil. O pediatra Dr. Hamilton Robledo, da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, alerta que o uso repetido e sem necessidade real pode trazer prejuízos importantes. Segundo o especialista, especialmente em infecções virais, o medicamento não é indicado e outras medidas devem ser priorizadas no tratamento inicial.
O especialista explica que, em casos comuns como a dor de garganta, a causa pode ser viral ou bacteriana. De acordo com o Dr. Robledo, a confirmação deve ser feita por meio do exame de estreptococo, solicitado quando há sinais de infecção bacteriana. Para ele, o uso frequente desses medicamentos nos primeiros anos de vida está associado a desequilíbrios no intestino, maior propensão a alergias, risco de doenças crônicas e possíveis impactos no desenvolvimento neurológico.
“Os antibióticos eliminam tanto bactérias nocivas quanto as benéficas, essenciais para a formação da microbiota intestinal. Esse desequilíbrio pode causar diarreias, desconfortos gastrointestinais e enfraquecimento da imunidade. Em situações de uso excessivo, há ainda relatos de associação com atrasos no desenvolvimento”, explica o pediatra.
Riscos a longo prazo
Para o Dr. Robledo, o cenário exige atenção redobrada dos pais. Ele destaca que a microbiota se altera e a imunidade perde eficiência quando o fármaco é usado de forma equivocada.
“Quando a criança recebe antibiótico sem necessidade, especialmente para quadros virais, abrimos espaço para problemas que vão além daquele episódio de doença. […] É uma interferência que pode acompanhar o indivíduo por muitos anos”, complementa o médico.
Outro ponto de preocupação levantado pelo especialista é a resistência bacteriana. De acordo com suas orientações, o uso inadequado fortalece microrganismos que deixam de responder a tratamentos tradicionais, o que reduz as opções terapêuticas para infecções graves no futuro.
Quando o uso é indispensável
O pedriatra ressalta que o antibiótico continua sendo fundamental quando há infecção bacteriana comprovada, citando exemplos como pneumonia, infecção urinária ou otite supurada. A chave, segundo ele, é discernir a real necessidade e evitar que o remédio seja a primeira resposta a qualquer febre.
Boas Práticas: Orientações do Dr. Hamilton Robledo
“Quando usamos antibióticos com critério, protegemos não só o organismo da criança, mas também todo o arsenal que a medicina dispõe para tratar infecções sérias”, conclui o pediatra.
Sociedade Brasileira de Pediatria
Uma revisão sistemática de ensaios clínicos também publicada pela Colaboração Cochrane, organização internacional de referência na literatura médica. O estudo foi conduzido pelos pesquisadores brasileiros e diretores da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Márcia Alves Galvão, Marilene Crispino e Antonio Ledo.
A análise, que envolveu 1.314 crianças menores de cinco anos com infecções respiratórias agudas não diferenciadas, trouxe uma conclusão contundente: as evidências demonstram que o uso de antibióticos nesses casos “não previne o desenvolvimento de otite e de pneumonia”. De acordo com a Dra. Márcia Alves Galvão, a prescrição muitas vezes visa evitar complicações supurativas, o que os estudos mostram que não ocorre na prática.
“A prescrição, de acordo com os estudos conduzidos em diferentes regiões do mundo, tem objetivo de evitar as complicações supurativas desses quadros, o que, no entanto, não ocorre. O trabalho fornece agora um subsídio importante para a definição do tratamento a ser proposto às crianças”, salienta a Dra. Márcia.
Pesquisa
A revisão analisou dados de quatro ensaios realizados de maneira randomizada e controlada, considerados o “padrão ouro” da investigação científica. Em nenhum dos estudos foram encontradas provas de que o uso das drogas impediu a ocorrência de complicações. Além da ineficácia na prevenção, o trabalho destaca que o uso inadequado contribui para o desenvolvimento de bactérias resistentes aos medicamentos usuais.
Para a Dra. Marilene Crispino, que integra a diretoria executiva da SBP junto com a Dra. Márcia, os resultados são essenciais para desmistificar a cultura da medicação imediata entre as famílias.
“A Colaboração Cochrane tem também um especial interesse em difundir o conhecimento para a população leiga. É comum observar que alguns pais têm a sensação de que somente ao receber antibióticos seus filhos estão sendo efetivamente tratados. Esperamos que nossos resultados também sejam úteis às famílias”, frisa a Dra. Marilene.
OMS
O cenário clínico discutido por especialistas brasileiros ganha contornos em escala global. Um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), apresentado em outubro de 2025, revela que em 2023 uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório já era resistente aos tratamentos com antibióticos. Entre 2018 e 2023, a resistência aumentou em mais de 40%, um crescimento anual que acende o alerta máximo para a saúde pública mundial.
O Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, destaca que a situação ameaça a segurança das famílias em todos os continentes.
“A resistência aos antimicrobianos avança mais rapidamente do que os progressos da medicina moderna, representando uma ameaça à saúde das famílias em todo o mundo. À medida que os países fortalecem seus sistemas de vigilância, devemos usar os antibióticos de forma responsável e assegurar que todas as pessoas tenham acesso a medicamentos, diagnósticos e vacinas de qualidade garantida”, declarou Tedros Adhanom.
A ameaça das superbactérias Gram-negativas
O relatório da OMS destaca que as bactérias chamadas gram-negativas, como a E. coli e a K. pneumoniae, são as mais perigosas atualmente, especialmente por causarem infecções sanguíneas graves que podem evoluir para sepse e morte. Em todo o mundo, mais de 55% das infecções por K. pneumoniae já são resistentes aos tratamentos de primeira linha (cefalosporinas de terceira geração). Nas Américas, os dados monitorados pela Rede ReLAVRA+, coordenada pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), mostram que uma em cada sete infecções é resistente — um índice ligeiramente melhor que a média mundial, mas ainda preocupante, segundo a OMS.
De acordo com o Diretor-Geral da OMS, o futuro da saúde depende de ações imediatas e do uso consciente dessas drogas:
“Nosso futuro também depende do fortalecimento dos sistemas para prevenir, diagnosticar e tratar infecções, bem como da inovação em antibióticos de nova geração e testes moleculares rápidos nos locais de atendimento”, conclui.