[Foto: Philippe Lima / Governo do RJ]
O comando da Polícia Militar do Rio de Janeiro confirmou, nesta quarta-feira (18/03), que as câmeras corporais dos três policiais militares envolvidos na ação que resultou na morte da médica Andréa Marins Dias, de 61 anos, estavam “descarregadas no momento da ocorrência”. O caso, ocorrido na noite do último domingo (15) em Cascadura, Zona Norte do Rio, gerou forte comoção e levanta questionamentos sobre o descumprimento de protocolos internos da força de segurança.
Andréa, que era cirurgiã oncológica e especialista em endometriose, foi atingida por tiros de fuzil enquanto retornava da casa de seus pais, de 88 e 91 anos. Segundo as investigações, o veículo da médica foi confundido com um carro utilizado por criminosos que realizavam roubos na região. As imagens das câmeras uniformizadas seriam decisivas para esclarecer a dinâmica da suposta perseguição e o momento exato dos disparos.
Falha no protocolo e afastamento
Em nota oficial, a corporação destacou que a ausência de registros será rigorosamente investigada pela área correcional. “Vale ressaltar que na corporação existem normas rígidas que determinam que os policiais, ao perceberem que há qualquer tipo de falha ou mau funcionamento das câmeras, devem regressar à unidade de origem para substituição dos equipamentos”, informou a PM.
Durante uma coletiva realizada nesta quarta-feira para divulgar balanço da operação do BOPE que resultou na morte do traficante Jiló dos Prazeres e mais 7 pessoas, o comando reforçou a seriedade do incidente: “Nós temos protocolos rígidos da utilização das câmeras. As apurações estão em fase ainda inicial. Nós traremos toda a verdade para toda a população, reafirmando nosso compromisso com a transparência e com a legalidade.”
Os três policiais envolvidos foram afastados do patrulhamento nas ruas e tiveram suas armas apreendidas para perícia.
“Desce ou vai morrer”: O momento da abordagem
Imagens gravadas por moradores da região logo após os disparos mostram o carro branco da médica com marcas de tiros no para-brisa e na parte traseira. No vídeo, um dos agentes grita ordens por cerca de um minuto: “Desce do carro. Desce ou vai morrer”. Sem obter resposta, o policial chega a bater com o fuzil na janela do veículo. No entanto, segundo a investigação da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), a médica já estava morta naquele momento.
O corpo de Andréa Marins Dias foi enterrado na tarde desta terça-feira (17) no Cemitério da Penitência, no Caju. O sepultamento foi marcado pelo abalo dos pais idosos e da filha da cirurgiã, que acompanharam a despedida reservada a amigos e familiares.
Por que as câmeras não registraram a morte da médica?
Segundo a PMERJ, os equipamentos dos três policiais envolvidos estavam sem bateria (descarregados) no momento da ocorrência.
Qual é a norma da PM para câmeras sem bateria?
O protocolo exige que, ao notar falhas ou mau funcionamento, os policiais retornem imediatamente à unidade para substituir o equipamento.
Como a médica foi morta?
Andréa foi atingida por tiros de fuzil em Cascadura.
O que aconteceu com os policiais envolvidos?
Os três agentes foram afastados do serviço de rua e o caso está sob investigação da Delegacia de Homicídios e da Corregedoria da PM.
Carreira dedicada à saúde da mulher
Andréa Marins acumulava 32 anos de formação e mais de 28 anos dedicados especificamente ao tratamento de mulheres. Ginecologista, cirurgiã-geral e cirurgiã-oncológica, ela realizou residências no Hospital Cardoso Fontes e no INCA.
Determinada a oferecer respostas seguras para quem sofria com diagnósticos tardios, Andréa criou o Método EndoPlena. Através dele, desenvolveu uma abordagem responsável para que mulheres com endometriose pudessem compreender a própria dor e buscar tratamentos eficazes. Seu trabalho era a união da prática clínica com a empatia, transformando-se em referência no cuidado feminino no Rio de Janeiro.
Em vida, Andréa definiu seu propósito como um compromisso com a escuta real: “Eu resolvi que isso seria um desafio para ajudar as mulheres. A importância da dor, valorizar a dor das mulheres. A endometriose é uma patologia atual né e eu to aqui para isso, para ajudar a tirar duvidas”.
Questionamentos sobre a abordagem
A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, afirmou que testemunhas relataram que o veículo da médica negra foi confundido com o de criminosos. Em tom de denúncia, a ministra questionou a eficácia das políticas de segurança pública: “Até quando a ausência de políticas eficazes de segurança pública continuará produzindo cenas como essa? Até quando vamos perder pessoas negras para a violência?”.
Anielle ressaltou ainda a trajetória de Andréa: “Sabemos o quanto custa para uma mulher negra acessar a universidade e se tornar médica. É doloroso perder Andréa a tudo o que ela representa”.
Nas redes sociais, pacientes e colegas de trabalho manifestaram pesar. Uma usuária comentou: “Trabalhei com ela, nem consigo acreditar que isso aconteceu 😢, meus pêsames à família, equipes INCA 4❤️”.
Outra internauta lamentou a perda social: “Perdemos um ser humano que salvava vidas e que cuidava de nós mulheres. Muito triste o que o Estado tem causado à sociedade”.